Minha Área: raridades musicais de Téo Souto Ribeiro

Publicação: 2020-01-26 00:00:00
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Seu nome de batismo é Teobaldo Souto Ribeiro, mas alguns o conhecem como Téo da Modinha, devido ao tempo que trabalhou na Modinha, grande rede de lojas de discos do Nordeste. Esse ramo Téo conhece bem. São nada menos de 44 anos de exercício na área. Além da Modinha foi gerente na concorrente AKY Discos, e trabalhou em lojas como a Planet Rock, além da Bi-Music, um empreendimento seu (depois de adquirir a marca do antigo proprietário).

Créditos: Alex RegisTéo Souto Ribeiro, comerciante de discosTéo Souto Ribeiro, comerciante de discos
Téo Souto Ribeiro, comerciante de discos

Téo viveu os melhores anos do mercado de discos. Atravessou de modo bem sucedido a passagem do vinil para o CD, acompanhou estouros de venda com esse novo produto, mas caiu junto com a industria fonográfica quando para ouvir música deixou de ser necessário uma mídia física.

“Nos anos 70 e 80 era um ramo muito em alta. Todo mundo ganhando bem, os vendedores com ótimas comissões. A gente achava que aquilo nunca iria acabar. Mas aconteceu a quebra da indústria. Conheço caras que eram ricos, representantes de gravadoras, que hoje estão na miséria porque torraram tudo na época boa”, comenta Téo.

Mas hoje o que o nosso entrevistado anda fazendo? Mudou de área? Jamais! Quando os discos viraram coisa antiga, ali pelo começo dos anos 2000, ele tratou de abrir um sebo, e desde então segue firme e forte no mercado de música. Sua lojinha, o Sebo Café, na rua Princesa Isabel, na Cidade Alta, vende vinil e Cds originais, além de livros e histórias em quadrinhos. Alguns clientes das antigas dão as caras por lá em busca mantendo vivo velhos hábitos. “Amo fazer o que faço. E não sei fazer outra coisa. Apenas me adaptei”.

Kate Bush fez toda a diferença
Comecei primeiro na Modinha, no Recife, isso em 1975. Comecei não com vendas, mas como desenhista publicitário. Como sempre gostei de música, eu passava minhas horas vagas no salão da loja ouvindo os discos que chegavam. Num belo dia um cliente chegou na loja atrás de um disco. Ele só tinha como referência uma música. Lembro até hoje, “Wuthering Heights”, de Kate Bush. Nenhum dos vendedores conhecia, apenas eu. O gerente me viu conseguir a venda e disse que eu tinha talento pra coisa. Eu realmente gostava de interagir com o público. Mudei de área.

Modinha em Natal
Trabalhei em Recife até 1984, quando vim transferido para Natal. Os donos apostaram em mim para gerenciar as lojas na cidade. Tinha uma unidade no Alecrim, outra na Cidade Alta, na Princesa Isabel. As coisas foram bem e ainda abrimos uma terceira loja, na rua João Pessoa. Fiquei na Modinha até 1990. Sai pra ir para o grupo AKY Discos, que era o principal concorrente da Modinha.

AKY Discos

Na AKY Discos eu peguei o começo do Natal Shopping. A loja ficava no andar de baixo, quase em frente ao cinema. Era uma loja pequena, não tinha 50 m². Mas por quatro anos foi a maior venda por m² do shopping. Era a época que o CD vendia muito. E naquele tempo, o Natal Shopping ainda estava começando. Levou um tempinho para o empreendimento pegar. Lembro de empresários que quebraram quando migraram pra lá. O que funcionava melhor era a praça de alimentação, o cinema e a AKY Discos. Eu praticamente morei no Shopping. Trabalhava de domingo a domingo, chagando uma hora antes de abrir a loja e saindo uma hora depois. Foram 12 anos assim, somando o tempo da AKY Discos, Planet Rock e Bi-Music.

Planet Rock
Trabalhei por dois anos na Planet Rock, a loja mais espetacular que Natal já teve de Cds e a mais requintada do Natal Shopping. O dono era Arnaldo Gaspar Filho. Ele tinha bala na agulha pra investir. Chegou a montar um escritório em Miami só para importar discos. A loja ficava perto da antiga Rio Center, tinha uma banca de revistas na frente. Éramos os únicos a trabalhar com uma mídia que quase ninguém tinha, o laser disc. Foi uma mídia que veio antes do CD. Era do tamanho do vinil, mas prateado como o CD, e com som e imagem. Mas chegou tarde demais no Brasil, tanto que veio junto com o DVD, então não pegou. Era uma mídia caríssima, só pra quem tinha muito dinheiro. Trabalhei no shopping até 2003, quando o ramo de discos já estava quebrado. Meus últimos dias lá foram com uma lojinha minha, B-Music. A loja já existia, tinha sido de Rômulo, passei dois anos com essa loja, mas não deu mais.

Música Internacional Brasileira
A música romântica internacional teve uma fase muito boa. Por uns anos, era o que mais tocava nas rádios brasileiras. Tanto que muitos artistas começaram a gravar em inglês. Bandas como Os Pholhas, de São Paulo, e o Trepidant's, de Recife, muita gente nem sabia que era do Brasil. Tinha também os artistas que lançavam disco assinando com nome em inglês, como o Morris Albert, da música “Feelings”, uma das mais regravadas do mundo, seu nome era Maurício Alberto. O Fábio Júnior era Mark Davis. Até o Alípio Martins, sucesso do brega, teve sua fase internacional, não lembro o nome agora (Vic Mckenzie).

Ídolos na música
Sou fã de Oswaldo Montenegro. Compositor, letrista, cantor, ele é bom em tudo isso. Cheguei a conhecê-lo num show que veio fazer aqui no Teatro Alberto Maranhão. Mas nunca gostei muito de ir a show. Não sei por que. Acho que por já viver todo dia aquele ambiente da música. Só ia a show quando era de artista muito difícil de ver de novo, como o Julio Iglesias e Roberto Carlos, que se apresentaram no antigo Machadinho. Outro artista que tive a honra de conhecer foi Antônio Marcos, grande amigo do nosso Marcínio (da EmySom), aqui do lado. Cheguei a tomar umas cervejas com ele. Inclusive aqui na Princesa Isabel mesmo, num bar depois do Jimmy Lanches, O Sertanejo. Antônio Marcos era um cara fantástico, tinha um grande papo.

Mamonas Assassinas
Na época do CD, o maior estouro que vi foi o Mamonas Assassinas. Foi meteórico. Foi o meu maior acerto como profissional. Eu antecipei o sucesso que ia acontecer. Eu era gerente da AKY Discos e quando me foi mostrado o disco do Mamonas, eu senti que ia pegar. Pedi 50 Cds e debocharam de mim. Lembro até do que me disseram: “Tá achando que é o Skank é?”. Porque o Skank é que estava estourado na época. E eu disse, “acho que vai ser maior que o Skank”. Meio a contragosto fizeram o pedido dos discos. Passados dez dias, estava tudo lá na loja ainda. Tinha saído nenhum. Até que 20 dias depois veio o estouro. A loja teve que pedir outros dois mil discos via aérea pra dar conta da procura.

Maior erro
E meu maior erro foi quando saiu o CD “Som de Barzinho”, do artista chamado Renato Vargas. Eu tava certo de que esse disco não ia vender. Porque era um cara tocando voz e violão, a música que a gente ouvia em qualquer barzinho, da mesma maneira. Porque a gente ia comprar aquilo que a gente já escuta todo fim de semana? Mas que engano o meu! Vendeu demais! Acho que foram feitos outros cinco volumes.

Clientes professores
Eu não me formei, minha maior faculdade foi a profissão. Costumo dizer que meus professores foram meus clientes. Padre Pedro foi um deles.  Regente de Coral, me ensinou tudo de música erudita Quando ele ia lá na loja eu alugava ele por quase três horas. Só ouvindo ele falar sobre música. Era algo que ele gosta e pra mim era maravilhoso. Me deu conhecimento para usar como vendedor.

Clientes fiéis
Com a mudança na indústria de música, muitos aderiram a modernidade e pararam de comprar disco, mas tem uns que ainda mantém o hábito. Tenho um cliente, todo sábado vem aqui, no final do expediente, a gente toma umas cervejinhas, ele sempre leva CD novo que recebo aqui. Tem em torno de 35 mil discos em casa, só CD original. Ivanaldo o nome dele. Acho que é o maior colecionador de Cds do Rio Grande do Norte. Ele tem dois ambientes na casa dele pra guardar disco. Conheço ele desde a Modinha, há 30 anos. É um cara cinéfilo, então gosta muito de trilha sonora. Mas seu ídolo é o Frank Sinatra. São mais de 400 Cds dele. Acho que tem tudo do Sinatra.

Atualizado em 29/01/2020 




Deixe seu comentário!

Comentários