Minha Área: Tavares de Lyra, o cais na memória

Publicação: 2017-10-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

A história de uma cidade pode ser contada através de suas ruas. Em Natal, nas primeiras décadas do século XIX, um logradouro em especial foi palco de importantes acontecimentos. De perfil democrático, cultural, arquitetônico e histórico, a avenida Tavares de Lyra, na Ribeira, foi ponto de encontro para discussões políticas acaloradas, passagem para os antigos carnavais, lugar de comércio e de chegada de embarcações.
Historiador Anderson Tavares guarda apenas fotografias
Historiador Anderson Tavares fala sobre o local
Quem anda pela via hoje e vê o estado dos prédios, do obelisco e da vista para o rio Potengi, nota que o protagonismo do passado ficou somente no passado. Mas para o historiador Anderson Tavares, a memória da avenida está bem viva. Pesquisador de temas relacionados ao Império e República Velha, principalmente se circunscritos ao Rio Grande do Norte, ele se dedica a estudar um personagem bem singular da história potiguar: Augusto Tavares de Lyra (1872-1958), ex-governador do Estado, Senador, Ministro da Justiça e Negócios Interiores (na presidência de Afonso Pena), intelectual com dezenas de livros publicados, inclusive, a primeira História do Rio Grande do Norte.
Av. Tavares de Lyra foi grande polo de comércio de Natal
 Av.Tavares de Lyra foi grande polo de comércio de Natal

Trineto de Tavares de Lyra, ao pesquisar a memória do político potiguar, Anderson ampliou os estudos para outros elementos que estão associados ao trisavô, como a avenida aberta em 1907 e batizada em sua homenagem. “Foram muitos os momentos marcantes ocorridos na avenida Tavares de Lyra. O Cais e a avenida eram a porta de entrada de Natal. 
A Tavares de Lyra de outrora: o mirante do cais, o obelisco e ao lado o Hotel Internacional
A Tavares de Lyra de outrora: o mirante do cais, o obelisco e ao lado o Hotel Internacional

Todos os visitantes ilustres ou não transitaram pelo lugar. Durante a Belle Époque natalense (1900-1920), era o centro da cidade, local de comícios, carnavais, desfiles cívico-militar”, comenta o historiador.

Fundador e presidente do Instituto Tavares de Lyra, em Macaíba (terra do nasceu o político), Anderson é responsável por preservar o acervo do trisavô e de outros nomes da história potiguar, como Pedro Velho de Albuquerque Maranhão.
Homens bem vestidos em frente ao palacete ondo funcionou A República e também uma das grandes livrarias no início do século XX
Homens em frente ao palacete ondo funcionou A República e uma das grandes livrarias da avenida

O arquivo é composto por correspondências, documentos, condecorações e fotografias, todas em processo de catalogação para futuramente serem disponibilizadas para consulta pública. Nesta entrevista, o historiador conta várias histórias que aconteceram na Tavares de Lyra, bem como dá suas impressões sobre o estado atual da avenida.
Av também foi endereço de grandes carnavais
Avenida também foi endereço de grandes carnavais

Obelisco

Em 1913 (seis anos após a abertura da avenida), o governador Alberto Maranhão inaugurou o obelisco de granito com cinco metros de altura contendo um medalhão com a efígie do Ministro Tavares de Lyra (voltado para o Rio Potengi) e os brasões do Brasil, do RN e de Natal. Hoje já não existem os brasões em bronze que ornamentavam as quatro faces do monumento. Foram sendo gradativamente roubados. Resta a efígie de Tavares de Lyra, feita em Paris, na Fundição Du Val D’Osn. Outro dia o amigo André Madureira, que trabalha ali próximo, telefonou-me dizendo ter visto um grupo de rapazes forçando com uma barra de ferro a efígie. Rapidamente solicitei ao escultor Ery Medeiros que tirasse o molde e confeccionasse uma cópia, pois mais cedo ou mais tarde vai desaparecer.

Importância do Cais

O Cais remonta ao tempo do império quando foi construído. Desde aquela época já possuía importância singular no contexto sócio econômico da capital potiguar, o que foi reforçado durante a República Velha, notadamente durante o período de domínio da chamada oligarquia Albuquerque Maranhão (1892-1918). Isso porque o governador Alberto Maranhão empreendeu reformas que delinearam os contornos do Cais e da avenida que hoje conhecemos. O Cais e a avenida Tavares de Lyra eram a porta de entrada da cidade do Natal.
Prédios importantes da av Tavares de Lyra estão com estruturas comprometidas
Apesar da importância histórica, imóveis particulares, como este Palacete, estão em condições precárias

O que eu tenho de imagens que remetem a avenida Tavares de Lyra pertenceu ao próprio Augusto Tavares de Lyra, que mesmo residindo no Rio de Janeiro possuía inúmeras fotos da avenida que eram enviadas por seus muitos amigos e admiradores. São cerca de 80 imagens, dentre fotografias cartões postais cobrindo diversas épocas.

Considero duas as mais representativa: uma feita em 1902 pelo fotografo alemão Bruno Bourgard, e que retrata os tripulantes do vapor Planeta e todo o mundo oficial do estado do RN, capitaneados pelo governador Alberto Maranhão, numa confraternização na calçada do Hotel Internacional. A segunda imagem mostra a redação de A República, tendo a frente, segurando um jornal, o redator chefe Dr. Manoel Dantas.

O café e bar Cova da Onça

Segundo memorialistas, no Cova da Onça se reunia a nata do Partido Popular chefiado por José Augusto e Rafael Fernandes. Foi do café que partiram tiros contra a comitiva do ex-interventor Mário Câmara que se retirava para o Rio de Janeiro e que estava no cais da Tavares de Lyra. Os membros da comitiva responderam com tiros direcionados ao Cova da Onça. Isto ocorreu em outubro de 1933. A década de 1930 foi sangrenta para a elegante e nobre avenida. Tudo acontecia ali e não poderia ser diferente com discussões políticas que terminaram em mortes.

De 1900 a princípio dos anos 1930 os carnavais de Natal eram realizados na Tavares de Lyra, através dos corsos nos antigos fords de capotas arriadas. Tudo era festa com lança-perfume, talco, confetes, serpentinas. O percurso era o seguinte: saindo da Tavares de Lyra indo então pela Rua Chile, pegando em seguida a Av. Duque de Caxias e retornando para a Tavares de Lyra, que foi, assim, o primeiro “corredor da folia” em Natal. Com o crescimento populacional o festejo foi mudado para a avenida Rio Branco e depois para a Deodoro.

Uma avenida democrática

A Tavares de Lyra era a avenida das lojas de luxo, do único hotel de grande porte da cidade, da primeira agência do Banco do Brasil em Natal, do jornal A República (o mais importante durante anos), das livrarias – inclusive o primeiro sebo de Natal, pertencente a João Nicodemos de Lima, hoje patrono da coleção do Sebo Vermelho. Intelectuais, juristas, escritores, poetas, se encontravam nos cafés ou debaixo dos pés de fícus benjamins que circundavam a avenida. Todos conviviam com marinheiros, trabalhadores das firmas sediadas na Ribeira, funcionários da Great Western, das docas, do porto, fotógrafos lambe-lambe. Naquela época, era chique ser fotografado andando pela Tavares de Lyra.

Os natalenses e as ruas

Eu sempre digo que em Natal, em determinados trechos, a cidade é feita para os carros e não para os pedestres. Assim fica difícil se locomover. Eu mesmo gosto muito de andar pela cidade. Moro em Candelária e vou para a UFRN a pé. Chega a ser um perigo. Mas não abro mão de caminhar pela cidade. Com relação ao nome das ruas, defendo que antes de ser aprovado, seja feita uma biografia mínima do homenageado para que se guarde o registro de quem foi e o que fez por Natal ou pelo RN. O futuro agradecerá.

Esquecimento

Não podemos fazer nada com relação aos prédios abandonados. São particulares. Mas entendo que seus proprietários deveriam alugar ou mesmo ceder para instituições culturais que tenham ação no bairro. Talvez uma parceria público privada pudesse efetivar esse projeto que devolveria a movimentação a avenida. Contudo, fico feliz em ver eventos culturais realizados na Tavares de Lyra. Sei que tudo é feito com muito esforço. Mas creio que temos sempre que fazer algo não só na avenida, mas no bairro da Ribeira.

Reportagem, com: Cinthia Lopes, editora

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