Minha Área: Zé Delfino e o mundo visto com ironia e humor

Publicação: 2019-10-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Seu nome é José Delfino, mas ele atende numa boa por Zedelfino, tudo junto. É poeta, cronista e doutor – no caso, médico pós-graduado em Anestesiologia. É também boêmio, bom de copo e de papo.  Recebeu a equipe da TRIBUNA DO NORTE não com uma seringa em mãos, mas com um belo uísque escocês, daqueles raros de se ver por estas bandas. Só serviu depois do alerta: “Se pedir gelo te jogo pela janela!”. Então nada de gelo pra ouvir as histórias de Delfino.

Autor dos livros “Almas Nuas” e “A Estação de Ana e Outras Estações”, ambos de poesia, ele se lança agora na crônica e no conto com o inédito “Uma visão deteriorada do mundo” (Z Editora, 2019). A obra será lançada na próxima quinta-feira (10), a partir das 18h, na Galeria Chiriboga (Midway Mall). Nessa entrevista descontraída, louca e lúdica, ele revela um pouco do que é, negando sempre classificações fáceis. Também dá sua opinião sobre a cidade, uma opinião nada deteriorada, muito pelo contrário.

Nascido em Caxias das Aldeias Altas, no Maranhão, Delfino chegou em Natal aos cinco anos de idade pra nunca mais sair. “Não gosto de cidade grande”, diz satisfeito com o lugar onde fez morada.
José Delfino transmite muito bem sua energia e bom humor numa conversa ou quando escreve textos na internet ou no papel
José Delfino transmite muito bem sua energia e bom humor numa conversa ou quando escreve textos na internet ou no papel

No auge dos seus 73 anos, ele é um sujeito que realmente gosta de Natal, mas menos do mar do que do vento, e mais das ruas e esquinas. Coisa de flauner. E se a urbe não é mais aquela do tempo da juventude, dos cinemas de rua, paciência, há de se aceitar as voltas que o mundo dá. O que não dá é ficar preso em nostalgias – coisa que Delfino definitivamente não se permite, basta reparar na sua facilidade em aderir às novas tecnologias: streamming de música, filme, livro digital, cigarro eletrônico.

A literatura de Delfino transmite muito bem sua energia e bom humor. Suas histórias não entram de picada nem vão apagar ninguém. O leitor pode ficar sossegado que o cara é certeiro na dose de palavras, cadencia o texto de modo que não seria estranho dizer que as vezes beira o musical. O violão na sala talvez indique alguma coisa. “Não, não... O violão é porque eu gosto de tocar de vez em quando. Não sou compositor não. Quer dizer, fiz apenas uma música, o hino da Associação de Sopradores de Cu de Galo”. Que tirada aleatória da porra! Mas é porque Zedelfino é um pouco assim. Confira a entrevista.

Bloco dos 'Assopradores'

Só fiz uma única música na minha vida, uma para o bloco ASCUGA (Associação de Sopradores de Cu de Galo). O bloco nem existe mais. Era uma brincadeira de médicos que a gente fazia no carnaval, tinha rei momo, tudo. A gente se juntava lá no Largo do Atheneu. O nome faz referência aqueles caras que sopravam o cu dos galos nas rinhas. Sabe o que é rinha de galo, né? Então, para deixar os bichos mais violentos eles sopravam uma solução com vinagre, pimenta e ervas. Os caras botavam essa mistura na boca, pegavam o galo e sopravam.

Rinhas do Baldo

Na juventude cheguei a ver rinha de galo aqui em Natal, lá no Alecrim e no Baldo. Papai me levou. Ele era adepto, era caçador. Eu não gostava não. Achava extremamente violento. Eles montavam uma espécie de anfiteatro, aquilo tinha cheiro de sangue, e os caras apostando. Dava muita gente. Depois ficou proibido. As coisas evoluem, né.

Urbanita convicto

Eu não me vejo morando no campo, nem na praia. Sou um urbanita convicto. Até tenho uma casa de praia em Pirangi, mas passei para o meu filho. Mantinha a casa o ano todinho para ir só em janeiro. Não fazia sentido. O que gosto mesmo é de cidade, cidade pequena. Nunca morei em cidade grande, mas visitei muitas. Tenho a impressão que quem mora em cidade grande acaba vivendo num gueto. Você não vive a cidade toda. E gueto por gueto, fico na minha cidade.

Natal

O que eu gosto daqui é o ar. Temos uma cidade quente, mas com vento. Pode tá o maior calor do mundo, mas se você ficar debaixo de uma mangueira estará tudo bem. O que gosto muito daqui também é culinária do Seridó. Praia gosto mais da vista. Sou muito chegado a entrar na água não. Até surfava quando era menino, lá em Areia Preta. Naquele tempo a prancha dava umas três da prancha tradicional de hoje. Era enorme, maior que a longboard. Tinha um esqueleto de madeira, era coberta de lona, com um buraquinho embaixo para tirar a água que entrava. Isso a gente surfava no tempo do Trampolim lá em Areia Preta.

Cinemas de rua

Sempre fui cinéfilo. Estava o tempo todo pelo Cine Rex, Cine Rio Grande, São Luiz. Esse São Luiz era no Alecrim, tinha a melhor máquina de projeção da cidade. No Alecrim tinha também o São Pedro, o mais reeira. E na Rocas tinha o Panorama, em frente o Hospital dos Pescadores. A gente podia ir de um cinema pro outro. Agora esses cinemas de hoje, nos shopping, eu não frequento. Prefiro ver filme em casa. Dá pra ter tudo nesses aparelhinhos aqui [aponta para o HD externo sobre o rack].

Tirol

O Tirol é a melhor área de Natal. É de onde eu saio para caminhar. Por aqui gosto muito de frequentar a Confraria do Ari. Lá vai de Volonté, grande amigo meu, até governador. Fica na Floriano Peixoto. Se chama Letra e Música o lugar. Antigamente ele só vendia CD. Ai pra incentivar os compradores ele comprava umas caixas de cerveja. A tecnologia mudou e não dava mais pra vender CD. Ele passou a só vender a bebida. Aí a gente se juntou comprou fogão.

Uma visão deteriorada do mundo

Isso de falar da gente é meio cabotino. Mas vamos lá. No livro tem conto, crônica e poema em prosa. Tem de coisa séria, científica, à putaria. Falo de cinema e de literatura, de alguns amigos, como Aurino Araújo e Alex Nascimento, lembro meu pai. A maioria dos textos já foram publicados em jornal e internet. A orelha é de Ivan Maciel, o prefácio, de Nelson Patriota. Se você for ver, tudo tem relação com as pessoas que rodeiam minha vida. O título foi um amigo meu que sugeriu, Magno, artista plástico. Ele perguntou do que se tratava o livro e mandou na gozação: “É uma visão deteriorada do mundo”. Era o título que faltava.

Saber envelhecer

Tem gente que quando se aposenta fica perdido sem saber o que fazer. Porra! Eu me aposentei e tenho uma porrada de coisa pra fazer. Toco violão, ouço música, escrevo, vejo filme, ando, viajo. De envelhecer eu só não gosto da limitação física. Por exemplo, antes eu corria, não consigo mais. Mas caminho às vezes 12 km. Cada fase da vida tem as suas características. Estou muito bem na minha idade e no meu tempo. Tem gente que fica falando que no ano de num sei quando era melhor. Uma porra! Hoje a gente pode ter um padrão de vida bem melhor. Não estou dizendo que não tem problemas, mas temos muito mais coisas ao nosso favor para tornar nossas vidas melhores.



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