Ministério discute compra de vacinas

Publicação: 2020-11-18 00:00:00
O Ministério da Saúde receberá nesta semana representantes de desenvolvedoras de vacinas contra a covid-19. Técnicos da pasta devem ouvir propostas sobre o fornecimento de imunizantes da Pfizer, Johnson & Johnson e do Instituto Gamaleya, que desenvolve a Sputnik V. Além destas empresas, a Saúde informou ontem, que conversará com a empresa indiana Bharat Biotech, que deseja levar ao mercado a Covaxin.

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As reuniões começam ontem. A primeira conversa será com a Pfizer. Não há compromisso firmado pelo governo para a compra destes imunizantes.  O discurso no ministério é de que o governo comprará a primeira vacina segura que chegar ao mercado. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, chegou a vetar a compra da Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, pois quem lidera as tratativas para o acesso da droga no Brasil é o governador paulista João Doria (PSDB). 

Segundo dados preliminares de estudos de "fase 3" das vacinas, o último antes de as empresas pedirem o aval para registro e comercialização da droga, os produtos da Pfizer, Johnson & Johnson e a Sputnik V têm mais de 90% de eficácia contra a covid-19. A Covaxin entrou recentemente em "fase 3" de estudos.

Há testes em andamento no Brasil relacionadas às vacinas da Pfizer e Johnson & Johnson, entre outras. A Sputnik V e a Covaxin, porém, ainda não são avaliadas no País.

Em nota, o ministério afirma que a ideia é conhecer, nas reuniões, "os resultados dos testes em andamento e as condições de compra, logística e armazenamento oferecidas pelo laboratório". A Saúde ainda afirma que a compra das vacinas deve ocorrer quando estudos comprovarem total segurança e eficácia do produto e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o registro. "A pasta deve apresentar, em breve, o plano de imunização da população brasileira contra a Covid-19", diz o comunicado. 

O ministério também afirma que a primeira remessa de vacinas deve estar disponível, no Brasil, no primeiro semestre de 2021 "e contemple inicialmente o grupo de risco da doença, que serão definidos pelos aspectos epidemiológicos, de eficácia e de segurança da vacina a ser utilizada".

Segundo fontes do ministério, uma dúvida no governo é sobre como garantir o armazenamento de vacinas que exigem temperaturas baixíssimas. Uma alternativa apresentada pela Pfizer é usar embalagens com gelo seco para manter os imunizantes refrigerados por mais dias.

O ministério acompanha 270 pesquisas sobre vacinas com a covid-19. A aposta do governo, por enquanto, é no imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford (Reino Unido) e o laboratório AstraZeneca. O governo investiu cerca de R$ 2 bilhões para comprar 100 milhões de doses desta vacina, além de equipar a Fiocruz para produção independente da droga.

Em outra frente de atuação para encontrar uma vacina, o Brasil espera receber doses para 10% da população por meio do consórcio Covax Facility, liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O País investiu R$ 2,5 bilhões para entrar no consórcio. 

Testes promissores elevam chances de uso simultâneo
A diversidade de vacinas contra a covid-19, a depender das características de cada uma, pode ser decisiva para esquemas de vacinação mais eficientes. Por exemplo, se uma delas tiver resultados melhores entre os idosos e outra entre os mais jovens. Ou se um imunizante for mais facilmente armazenado e transportado do que outro. Ou se for capaz de prevenir formas mais ou menos graves da doença.

Na segunda-feira, a empresa de biotecnologia Moderna anunciou que os resultados preliminares da análise da vacina contra o coronavírus desenvolvida pela empresa apontam eficácia de 94,5% na prevenção da doença, incluindo casos graves. A notícia é divulgada uma semana após a farmacêutica Pfizer e sua parceira alemã BioNTech informarem uma eficácia inicial de 90% em sua vacina. Os resultados das duas vacinas são preliminares, obtidos a partir da primeira análise interina de eficácia. 

Quando laboratórios em diversas partes do mundo se lançaram na corrida em busca de uma vacina contra a covid, há menos de um ano, muitos cientistas alertaram para o fato de que desenvolver um imunizante era um trabalho de longo prazo. Além disso, disseram, a chance de um produto que chega a fase 3 de testes ser, de fato, eficiente e seguro a ponto de ser aprovado para uso é de apenas 10%. Os resultados, no entanto, vêm surpreendendo até mesmo os mais céticos.

“Todas essas plataformas são seguras, nenhuma delas usa o vírus atenuado, que poderia mimetizar uma infecção com grande potência”, explica Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp. “Além disso, a tecnologia realmente evoluiu muito, não dá para comparar com uma vacina desenvolvida cinquenta anos atrás. Um terceiro aspecto é que o Sars-Cov-2 é muito mais simples e menos sujeito a mutações do que o HIV ou o vírus da hepatite C, por exemplo.”

O virologista Flávio Guimarães, do Centro de Tecnologia de Vacinas da UFMG, lembra também de outro aspecto fundamental: o financiamento das pesquisas. “Em vista da emergência sanitária, houve um influxo de dinheiro por parte das empresas e dos governos como jamais houve na história”, disse. “A ciência é pragmática: quando você paga, você recebe. Pode ser muito caro, mas recebe.”

No caso brasileiro, há diferentes acordos em andamento para acessar futuras vacinas contra o novo coronavírus. “O Brasil tem dois acordos bilaterais que incluem compromisso de compra e transferência de tecnologia, para a Coronovac, com o Instituto Butantã, e para a vacina de Oxford, com a Fiocruz e Biomanguinhos”, lembrou o diretor da Sociedade Brasileira de Imunização (Sbim), Renato Kfouri. “Além disso, o País integra a Covax Facility (a iniciativa da OMS para a distribuição de imunizantes licenciados). E, claro, podemos ainda negociar a compra de outras vacinas se houver disponibilidade.” Os cientistas ressalvam, no entanto, que os resultados de eficiência da Pfizer, do Gamaleya e da Moderna não foram ainda publicados em revistas com revisão dos pares. Foram anúncios feitos pelas empresas que, inclusive, acabaram por valorizar suas ações nas bolsas de valores.

Taxa de transmissão volta a passar de 1, diz Imperial College
O Brasil voltou a registrar aumento nas taxas de transmissão do coronavírus segundo dados divulgados nesta terça-feira, 17, pelo Imperial College de Londres. A taxa de transmissão do vírus chegou a 1,10 no País. Há três dias o índice era estimado em 0,94.  

Uma taxa de transmissão de 1,10 significa que cem pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 110. A partir de abril, o País apresentou taxas acima de 1, situação considerada "fora de controle". Em agosto, o índice baixou.

Além do Brasil, países como Portugal, Itália e Reino Unido foram classificados pelo Imperial College em fase de crescimento da doença. Nações da América Latina, como Argentina (0,85) e Colômbia (0,93), estariam em fase de declínio. Dentro da margem considerada pela instituição britânica, a taxa de transmissão do Brasil pode variar de 1,05 a 1,24. 

O relatório divulgado pela instituição britânica apresenta previsões de óbitos pela doença e análise de tendências de notificação de casos para 72 países com transmissão ativa.

O Imperial College recomenda cautela na análise dos dados uma vez que “o registro de mortes e casos no Brasil está mudando frequentemente”, segundo o relatório divulgado nesta terça. Nas últimas semanas, houve falhas nos sistemas de registro do Ministério da Saúde e, portanto, subnotificação de infecções e mortes pela covid-19. 

Especialistas também consideram que é preciso acompanhar a taxa de infecção por um período prolongado de tempo para identificar tendências. Atrasos no registro de infecções também têm impacto no cálculo da taxa, assim como o tipo de teste realizado. Outro problema do dado é que ele se refere ao Brasil como um todo e não considera avanços ou declínios regionais da doença. 

Desde o início da pandemia, a instituição faz projeções matemáticas do crescimento da pandemia e avaliações das ações em andamento. 

Para Evaldo Stanislau, médico infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a taxa do Imperial College sinaliza que há uma tendência de expansão da doença no Brasil. "Essa taxa significa que a pandemia se autoperpetua", diz o especialista, membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia.

Segundo Stanislau, o número é um dado a mais, um sinal laranja, para a contaminação no Brasil. "Não é o melhor marcador, mas é preocupante. Outros indicadores ainda mais subjetivos e que precisam ser compilados preocupam, entre eles a taxa de positividade dos exames que estão sendo feitos, que está aumentando, e a taxa de ocupação de leitos em vários hospitias."

Seguindo a tendência observada, o Brasil pode registrar aumento de mortes pela doença - e medidas de proteção já conhecidas, como uso de máscara e distanciamento, têm de ser seguidas à risca.  "Cada indivíduo tem de ser o seu próprio país e colocar as suas fronteiras, ficando a pelo menos um metro de distância de outros e usando a máscara corretamente", diz Stanislau.

Os dados de aumento da taxa de transmissão coincidem com uma alta das internações por covid-19 já registrada em São Paulo e em outros Estados. A média diária de novas internações ligadas à covid-19 em São Paulo subiu 18% na última semana, segundo dados divulgados na segunda-feira, 16, em coletiva de imprensa.