Ministro da Saúde quer prioridade para 1ª dose da vacina contra a covid-19

Publicação: 2021-01-12 00:00:00
O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse ontem que o programa de vacinação contra a covid-19 pode priorizar inicialmente a aplicação da 1ª dose na população, para acelerar uma imunização em massa e reduzir a atual transmissão, que tem crescido nas últimas semanas. E só depois todos receberiam a 2ª dose. Estratégia semelhante foi adotada pelo Reino Unido, que vive seu pior momento na pandemia. Pazuello, porém, evitou mais uma vez definir uma data para iniciar a vacinação no Brasil.

Créditos: ARQUIVOVacinação terá início simultâneo em todos os estados, segundo o Ministério da SaúdeVacinação terá início simultâneo em todos os estados, segundo o Ministério da Saúde

saiba mais

"Com duas doses vai a 90 e tantos por cento (a eficácia da imunização da vacina de Oxford). Com uma dose, vai a 71%. Com 71%, talvez, a gente entre para imunização em massa. É uma estratégia que o CVS (Centro de Vigilância Sanitária) vai fazer para reduzir a pandemia", disse Pazuello, em visita ontem a Manaus, região que tem visto uma escalada de 80% nas mortes pela covid-19 nos últimos 14 dias. "Talvez o foco não seja na imunidade completa, mas na redução da contaminação. E aí a pandemia diminui muito. Podendo aplicar a 2.ª dose depois de um tempo", acrescentou.

O discurso de Pazuello se inspira na decisão emergencial adotada pelo Reino Unido, que sofre com ocupação quase total dos leitos de UTI. O país europeu começou a vacinar sua população em 7 de dezembro com o imunizante da Pfizer, seguindo os protocolos dos testes, com duas doses no intervalo de 21 dias. Mas, com o agravamento da pandemia, mudou o cronograma e passou a oferecer a 2.ª dose 12 semanas após a 1.ª. A Pfizer, em comunicado, refutou. "Não há dados que mostrem que a proteção após a 1.ª dose seja mantida após 21 dias." O mesmo será adotado para a vacina de Oxford.

Especialistas veem a proposta com ressalvas. "O que foi testado é o que temos evidências. Qualquer mudança nesse esquema, ainda que em situação de emergência de saúde pública, a gente acaba indo para um terreno de incerteza", critica Ethel Maciel, epidemiologista da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). "Os ensaios não foram desenhados com uma dose só. Corre o risco de não fazer efeito, de acontecer uma perda de eficácia", enfatizou ela, que participou das discussões do plano nacional de imunização a pedido do governo federal.

No mês passado, a médica Lily Yin Weckx, coordenadora do Centro de Referência de Imunobiologia Especial da Unifesp, responsável por coordenar o estudo clínico da vacina no Brasil, disse ao Estadão que foi observado grau de proteção de 70% após a 1ª dose, mas em um período de observação curto, de três semanas após a aplicação. Com as duas doses, segundo ela, a quantidade de anticorpos é maior e há mais chance de duração maior da proteção.

Ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina Neto critica a cópia de planos estrangeiros, mas não acredita que a ideia deva ser ignorada. "Não é um absurdo. Está sendo discutido no mundo inteiro. Só que é uma decisão muito técnica e tem que ser tomada pela sociedade do ponto de vista científico", disse ele, sanitarista e colunista do Portal do Estadão.













Leia também: