MIró, “Miró até agora” (2019, CEPE Editora, 226 p.)

Publicação: 2019-10-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves, Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

Best seller com quatro reimpressões, a presente coletânea de 2012 agora ganha segunda edição contendo atualizações (leia-se poemas cortados pelo autor). De todo modo, não é a poesia completa do autor, seguindo em ordem inversa dos poemas de “DizCrição” (2012) e terminando na estreia com “Quem descobriu o azul anil?” (1985).Na orelha sem autoria, ele é tido como “uma das vozes mais inventivas da poesia independente do Brasil” (difícil é descobrir como mediram isto). Na orelha da contracapa, o modernoso escritor Marcellino Freire aponta que o recifense nascido em 1962 seria um “desses gênios engenhosos” (sem comentários). No texto não assinado da contracapa, relata-se que a poesia de Miró “aponta o dedo na cara e dá nome aos bois”. Perante tanto exagero, já desde sua primeira obra se tem a base de toda a sua poesia, repleta de cenários e personagens urbanos (Recife e São Paulo à frente) em uma via crucis que amalgama problemas sociais – miséria e violência abrem alas – e um lirismo enviesado pelas micro cenas do cotidiano, incluindo aí certo apelo erótico sobre a figura feminina vez ou outra.

Nos versos do pernambucano, também renomado por suas declamações e performance, a coletânea direciona o leitor para o poema de página única e muitos haicais abrasileirados, excetuando os textos “Ilusão de ética” – isso, você não leu errado: influente presença do trocadilho advindo da Poesia Marginal –, “São Paulo é fogo” e o por deveras  longo “Confesso que também vivi meio século”, contendo mais de 200 versos. Este último termina com uma sentença para lá de atual: “quando criança foi jogado num caminhão/ pois a classe média precisava construir/ seus arranha-céus/ taí esse inferno”, claro recado sobre a especulação imobiliária, a irresponsabilidade governamental e seus efeitos nocivos sobre os habitantes da urbe.

No geral, o recifense passeia por uma visível ingenuidade quase incabível na lírica dos anos 2000, caso de poemas como os minúsculos “Previsão do tempo” (pipas no céu/ crianças nas nuvens) ou “O gari vai varrendo o mundo” (e nada fica limpo/ a sujeira tá no coração do homem). Por outro lado, Miró ganha força quando consegue enveredar por um incisivo tom mais narrativo. No papel, o que acaba ficando na memória – e irregular como ela – é a exposição de um Brasil pouco poético, fato evidente no decadente “Botecos na Luz” (homens esperando mulheres/ para o sexo relâmpago/ [...]/ beijos com gosto de torresmo/ cocaína e Sula Miranda), na resposta ao poema-engenharia de João Cabral em “Reflexões sobre a construção civil” (cimento na cabeça/ dos outros/ é isopor) e na devassidão social de “Outras ostras” (lá vai Recife/ em mais um dia de tarde/ [...]/ unhas na lama/ e a classe média/ comendo ostras). Inteligente ironia permeia também se diz presente em várias composições, caso de “Deus não inventou nada” ou “Meu lado Greenpeace” (por falta de árvores/ o beija-flor invade meu apartamento/ e beija as flores artificiais). Mas ainda há esperança no eu lírico de Miro, como no utópico “Trago agora notícias boas” ou no temporal “Calma mente” (a vida passa devagar na praia/ um roupão vai cobrindo/ as varizes do tempo). Isso tudo é Miró, até agora. De vida errática (problemas com alcoolismo renderam complicações ao autor), o recifense já lançou mais três outros livros após este volume, talvez um dos últimos poetas marginais do lado de cá dos trópicos com algo ainda a dizer.





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