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Rubens Lemos Filho
Mirandinha, dor infinita
Publicado: 00:00:00 - 26/06/2022 Atualizado: 12:21:33 - 25/06/2022
De 1979 a 1982, período do tetracampeonato soberano do América, o ABC passou por gestões precárias e viveu a consequência delas em derrotas humilhantes provocadas por barangas coletivas irremediavelmente ruins.

O ABC chegava a ter quatro (de) formações num campeonato, de 30 a 40 cabeças de bagre apanhando nos clássicos contra o América e Alecrim em 1982.O Alecrim venceu todas as partidas contra o ABC em 1982. 

O negócio era tão desastrado, que houve cartola, mantido no anonimato por respeito póstumo, que fez mandinga pulando muro de cemitério na madrugada. A ordem do “guia espiritual” era arrancar areia do chão sagrado dos mortos para despejar em despacho contra o América. 

O despacho aconteceu. O América despachou o ABC por 3x0 em 1980, gols de Marinho Apolônio, nos meus dias, melhor jogador do Estádio Castelão(Machadão) , que fez dois gols  e deu o terceiro ao fraco atacante Mário, de erudito apelido: “Chupa-Chapa”. 

O ABC era aquele analfabeto solene. Defecava a céu aberto e queria a Frasqueira respirando perfume da Coty, um dos mais charmosos da França. Em 1981 e 1982, foi tão mal, que nem vice conseguiu ser, ficando de fora até da Taça de Prata de 1982(foi o Baraúnas) e 1983(Alecrim).

Chorava toda noite de domingo ao chegar do ainda Castelão, que teria identidade legitimada com o nome histórico de João Machado em 1989, ideia do saudoso vereador Marcílio Carrilho, sancionada, pela não menos inesquecível prefeita (na ocasião), Wilma de Faria Maia. 

O ABC desandou e matraqueou igual digitação em velha máquina de escrever: contratava contingentes, ruins, com exceções. O meia Neto Maradona foi uma. Craque em campo, acusado de suborno em jogo de Loteria Esportiva, o ABC perdeu de 2x1 para o lanterna Ferroviário e Neto bateu um escanteio recuando a bola ao goleiro Caetano.
 
Na última leva, desesperado o ABC, vieram o zagueiro Marco Antônio (quebrou o nariz no primeiro treino ), o ponta-esquerda Peri e a atração maior: o atacante Mirandinha, da seleção brasileira em 1974. 

O ABC, superando-se em asneira, demitiu o técnico invicto Erandy Montenegro para trocá-lo pelo veteraníssimo Waldemar Carabina. Erandy foi tricampeão pelo América em 1981, ano da lambança. 

Decisão do segundo turno, entro de mascote  com Mirandinha. Simpático, passou a mão na minha cabeça imensa de 10 anos de idade, corremos ao meio do campo, fomos vaiados por americanos e saudados, sem maiores animações, pelos castigados alvinegros de arquibancada lotada de parca esperança . O América levou o returno com empate em 1x1. 

Mirandinha não jogou nada. Fugia às divididas. Eu, intrometido, consegui lhe perguntar se esquecera da fratura da perna esquerda em choque de terror com o zagueiro Baldini, do América de São José do Rio Preto(SP)(foto) em novembro de 1974. Ficou dois anos fora dos gramados. 

Respondeu mais ou menos assim, tenho boa memória, mas não sou Deus pra lembrar da íntegra das palavras tristes do atacante: “Moleque(de forma carinhosa), ninguém se recupera do que passei. “De fato, ia com trauma nas bolas, sua carreira acabou na dividida com Baldini, mesmo ele tendo sendo campeão brasileiro de 1977. No São Paulo.

Entre todos os farsantes do ABC do período assombroso, a imagem de Mirandinha ganha meu respeito. Jogava porque precisava sobreviver, disputou Copa do Mundo em tempo de vacas esqueléticas. Sua dor grita alto no inconsciente até sempre.  Perambulou até parar em 1985, aos 33 anos. Hoje, é técnico desempregado em São Paulo. 

Vieram outros tempos e um potente ABC em 1983 ,  a máquina montada pelos dirigentes Rui Barbosa e Sebastião Medeiros,  sinfônica  dos 114 gols. A maravilha em arte, de Dedé de Dora, Marinho Apolônio e Silva, três supercraques, com a cara e o principal, a vocação e o futebol dos vitoriosos. 

Maratona 
Contra o Retrô, o América vai começar uma maratona decisiva de dois jogos fora de casa. O América, antes de qualquer esquema tático, deve fazer seus adversários temerem sua tradição e a sua história, ambas as mais importantes da quarta divisão. 

Subir
Num incômodo quarto lugar, o América precisa trazer ao menos dois pontos contra o Retrô(PE)  e o Afogados(PE), para chegar à ponta da classificação ao mata-mata na Série D. 

Arrumando a casa
Se não está bem no futebol, o América presidido pelo craque Souza está sendo arrumado administrativa e financeiramente, com medidas concretas e apoios obtidos na iniciativa privada. É o que dizem nuvens de vento direto da Rodrigues Alves. 

ABC 70
 Uma rodada antes de ser campeão, o ABC bateu o Alecrim por 2x0, dia 27 de junho de 1970, para 4 mil pessoas no Estádio Juvenal Lamartine. Gols de Alberi e Petinha. Arbitragem de Luiz Meireles(Cobra-Preta), Jáder Correia e Ailton Messias. 

Times ABC:
Erivan; Preta, Edson, Josemar e Marinho Chagas; William e Correia; Maia, Alberi, Petinha e Burunga. Alecrim: Bastos; Biu, Pádua, Ivan Matos e Anchieta; Ubirajara(Adeíldo) e Soares; Zé Maria, Elson(Tiquinho), Icário e Josenildo. 

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