Mirza Seabra: “Educação é para formação humana, é para ensinar a pensar”

Publicação: 2019-09-22 00:00:00 | Comentários: 0
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Mirza Seabra é doutora em Educação pela UNB e pesquisadora

Quais são as principais diferenças pedagógicas entre uma escola militar e civil?
As diferenças entre as escolas militares e as civis são muitas. Começa pela infraestrutura das escolas militares que recebem os melhores prédios da Secretaria de Educação. As escolas civis têm infraestrutura precária, sem quadras, material didático, bibliotecas, laboratórios e espaços educativos variados. As escolas militares têm professores do próprio Estado, são funcionários efetivos da secretaria de educação, lecionam nas áreas para as quais foram formados. Nas escolas civis, grande parte dos professores possui contrato precário, pois há muitos anos não há concursos para professores da educação básica. Grande parte também lecionam disciplinas para as quais não foram formados, por exemplo, pedagogo, que é formado para as séries iniciais do ensino fundamental lecionam disciplinas da área de exatas, para os anos finais do ensino fundamental e também para o ensino médio. Essas diferenças fragilizam as escolas civis. Além disso, as escolas militares cobram contribuições das famílias gerando uma renda que as escolas civis não possuem. Esses recursos das famílias facilita a gestão porque sempre há um recurso para manutenção da escola. Esse pagamento seleciona os alunos, pois as camadas mais pobres da população não podem estudar nessas escolas porque as famílias não têm esse recurso. Tudo isso é muito injusto.

Em Goiás, as outras escolas públicas civis, fora do plano militar, foram marginalizadas em investimentos, ensino e índices?
É o que disse antes. A cobrança de contribuições e o fardamento que é caro trazem um diferencial nos alunos, pois eles já chegam às escolas em nível superior de formação. Se você for conferir no site do Inep sobre as notas de Ideb das escolas verá que as militares têm alunos de maior índice socioeconômico, o INSE, que inclui na sua medição a renda familiar e os insumos existentes na casa, como televisores, geladeiras, computadores, etc. As diferenças são preexistentes e se ampliam na escola ao terem uma instituição com melhores condições físicas e também por professores efetivos, que têm formação adequada e são mais estáveis no sentido funcional. As escolas civis convivem, além de tudo com faltas e troca de docentes.

Na avaliação da senhora, o aluno que não se 'encaixa' na estrutura militar pode ser excluído da comunidade escolar, seja pela evasão ou tendo que buscar uma escola mais distante de casa?

As escolas militares já excluem na matrícula, pois só as famílias que podem arcar com os custos dela é que matriculam seus filhos nas escolas militares. Aqui em Goiás, ela tem sido requerida pelos pais de classe média que tendo dificuldades de pagar escolas nas escolas particulares acabam fazendo opção pelas escolas militares. Se o aluno não se “encaixa” nas regras rígidas das escolas militares ele é “convidado” a deixar a escola. Ou ele aceita a disciplina rígida e a obediência sem questionamentos dos comandantes que fazem a gestão da escola ou sai da escola. A questão não é ter de ir para uma escola mais distante da casa. Há mais escolas civis que militares, felizmente, e enquanto os colégios militares em geral se localizam em setores melhores, mais centrais, as escolas civis estão em todos os bairros porque seu objetivo é atender aos direitos das famílias de matricularem seus filhos em escola pública, como dizem as leis, pois o direito à educação é direito constitucional.

Qual seria a alternativa pedagógica para o ensino básico das escolas públicas brasileiras ao plano do MEC, na sua avaliação?

Se você está dizendo sobre a proposta das escolas cívico-militares considero um equívoco enorme, pois o decreto que as instituiu, Decreto nº 10.004, de 05.09.2019, quer transformar o Brasil em um grande quartel! Os professores são alijados de todos os debates, não são ouvidos e são eles que terão afetada sua vida profissional e são eles que se formaram para esse trabalho e eles é que sabem e conhecem bem as necessidades dos estudantes e das famílias. O decreto traz a expressão “melhoria da qualidade do ensino” cinco vezes, mas não explicita o que entende por isso. Analisando o decreto se entende que querem melhorar o índice de desenvolvimento da educação, avaliado por testes nacionais e os educadores sabem que esses índices não retratam a realidade e nem o sentido da educação escolar recebida pelos estudantes. O sentido da educação na vida de um aluno é tão amplo que os testes nacionais que medem conteúdos são insuficientes para avaliar o que significou a educação escolar no dia a dia das crianças, dos jovens e no restante da vida deles. Além disso, o decreto fala em trazer militares do Exército, das polícias e do corpo de bombeiros para atuarem em todas as áreas da escola, inclusive como professores. Isso explicita que querem mesmo quartéis escola. Isso é errado, pois educação é para formação humana, para ensinar a pensar, saber argumentar e sentir parte da sociedade e ser responsável pelo seu desenvolvimento e melhoria das relações sociais. E além de se formarem para exercer profissões, com responsabilidade social e compromisso em colaborar para uma sociedade mais solidária. A alternativa para a educação brasileira não é apenas pedagógica, é política! É preciso que a educação seja prioridade além dos discursos eleitoreiros. Educação requer recursos financeiros, recursos humanos, espaços educativos adequados ao objetivo de humanizar e formar profissionalmente os seres que passam por ela. A escola precisa de boas bibliotecas, espaços de lazer para os jovens, precisa de material didático de boa qualidade, precisa de bons professores, formados na área em que atuam, professores engajados e estimulados com bons salários e reconhecimento social. Isso a sociedade e os governos estão devendo aos professores.

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