Cena Urbana - Vicente Serejo
Missão de paz
Publicado: 00:00:00 - 15/01/2022 Atualizado: 01:18:08 - 15/01/2022
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Divulgação


Naqueles anos, de poderes concentrados em famílias, um pressuroso deputado marcou uma conversa com Luiz Maria Alves. Pediu que de preferência o encontro com o diretor fosse fora do jornal para ser o mais discreto possível. Nesses casos, as conversas eram sempre na sede velha do Diário, no fim da Avenida Rio Branco, nos aposentos onde Alves passava suas noites marcadas pela insônia feroz que herdou do tempo em que era telegrafista da Western Telegraph. 

Assim foi feito. O apurado parlamentar, segundo Alves revelaria dias depois, não parecia tingido pela vingança. Queria prestar um serviço, como um pacificador em busca de oferecer um gesto de boa-fé. Naquele final de manhã, deve ter encontrado o diretor no seu café: uma fatia de mamão coberta com levedura de cerva, algumas castanhas e ameixas, tudo para combater a sua crônica prisão de ventre que roubava muito do seu bom humor, além de um pequeno café forte. 

Como também, de vez em quando, era chamado a ouvir suas recomendações reservadas, imagino Alves de cueca samba-canção na naquelas velhas cadeiras de balanço.  Ouviu, então, que as relações do jornal com o governo e a Assembleia poderiam ser bem mais fáceis se fosse possível aquietar o que lhe parecia ‘duas feras’, embora sem carimbar com esta classificação. Dois colunistas que poderiam ajudar muito, digamos: Cassiano Arruda Câmara e este cronista.

Alves, velho bruxo de redação, ouviu sem interromper, como era do seu estilo - e como contou - mas já afiando aqueles olhos miúdos e fulminantes. Terminada a breve e cuidadosa exposição, aparentemente garantida pelos argumentos da paz, passou a ouvir o que certamente não esperava. Irônico, Alves explicou que um jornal não se faz apenas com os bons e mansos, sob pena de fracassar. E que a imprevisibilidade era, no seu jornal, um princípio inegociável.

Contou - ‘com toda a brutalidade da franqueza’ - como gostava de dizer, que se o jornal não fosse imprevisível, nem ele, o pacificador, seria seu leitor. Mas, para consagrar o estilo, foi além. Como não abria mão da palavra de ordem, e já se referindo ao Diário como ‘no meu jornal’, advertiu: “Aqui quem diz a hora de subir as escadas do Palácio Potengi e da Assembleia, e a hora de começar a descê-las, sou eu. No dia que não for mais assim, entrego as chaves”, arrematou. 

Relembro o episódio para mostrar um pouco como era a luta do Diário naqueles anos de paz pública. E diga-se, para registrar talvez o detalhe mais importante: a forte polarização Diário versus Tribuna interessava aos dois, Aluízio Alves e a Luiz Maria Alves. E os dois acertaram no ponto convergente, sem abrir mão da liberdade e dos interesses de cada um. Não interessava a entrada de um terceiro jornal na concorrência. Eles já sabiam que a paz pública não seria eterna...   

TIRO - Foi de uma maldade soberba o rebote do senador Jean-Paul Prates na resposta ao ministro Rogério Marinho: “Ele é o pai do desemprego”. Se colar, na sua campanha, pode ser devastador.  

ALIÁS - Foi assim com Aluízio Alves. Seu avô, Djalma Marinho, acusou os eleitores de Aluízio de ‘gentinha’. Anos depois, chamou Agenor Maria de ‘marinheiro tatuado’. Perdeu para os dois.

HUMOR - De um emedebista histórico, rindo: “Só a imprensa acha que os tucanos estão em crise. Na hora, uns voam para o lado de lá, outros para o lado de cá, e alguns ficam na reserva”. 

JUNDIÁ - Tem nome do peixe nativo e por isso se chama assim para cumprir a tradição do lugar: Jundiá. É uma boa cachaça, macia como mão de moça para alisar a garganta e afagar os desejos.   

EXPO - De 9 de fevereiro a 7 de agosto, no Sesc 24 de Maio, São Paulo, está aberta a exposição ‘Raio-que-o-parta’ reunindo rupturas pioneiras e lances transgressivos do modernismo brasileiro.

EX - Do Rio Grande do Norte foi selecionado o artista natalense Erasmo Xavier - a capa número um da revista Cigarra e a colagem do próprio artista bancando o lutador de box na sua magreza. 

MAIS - O profissionalismo do Sesc São Paulo ficou demonstrando nos cuidados com as obras de arte que selecionou no Brasil: embalagens de proteção, avaliação de valores e seguro integral. 

RAÍZES - O Sebo Vermelho lança hoje, das 9 ao meio-dia, o estudo de Olavo de Medeiros - “Origens genealógicas dos Morais Navarro no Nordeste Brasileiro”. Tiragem de 300 exemplares.  

SUCESSÃO - Com a nomeação de Dom Magnus Henrique Lopes, potiguar, capuchinho, hoje bispo diocesano de Salgueiro (Pernambuco), para a Arquidiocese do Crato (Ceará), são nulas as chances de ser nomeado Arcebispo de Natal. A considerar a velha tradição da Santa Madre Igreja. 

MAS - Não parece impossível aos bons observadores a nomeação do padre José Valquimar Nogueira do Nascimento para Bispo de Salgueiro. Neste caso, estaria mais próximo de ser o novo arcebispo de Natal Dom Paulo Jakson Nóbrega de Souza que atualmente é bispo de Garanhuns.

MAS - A sua nomeação enfrenta uma inconveniência: quebraria uma tradição da Igreja que é a de nomear arcebispos do clero potiguar. Com a exceção de Dom Marcolino Dantas, um baiano. Dom Jakson Nóbrega é mestre em Exegese Bíblica e Doutor em Teologia, diplomado em Roma.   

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