Moda começa a acordar para a sustentabilidade

Publicação: 2019-11-26 00:00:00
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Augusto Bezerril
Colunista de moda

Os sinais dos efeitos negativos do consumo sobre a vida no planeta entrou finalmente na dinâmica do calendário da moda brasileira. O sucesso da terceira edição do Brasil Eco Fashion Week, realizado em São Paulo, não deixa dúvida sobre o protagonismo de novos players - cujo discurso revela a urgência em torno do respeito ao planeta e ao ser humano - em contraponto à uma lógica de consumo desenfreado que teve ápice no chamado fast fashion. Os dias de moda sustentável mostraram que o ciclo da moda se perpetue como vetor de proteção, estilo, sem causar tanto impacto ao meio ambiente.  A Bemglô - loja colaborativa capitaneada pela ex-modelo Betty Prado e a atriz Glória Pires - mostrou na passarela que existe estilo a partir do carimbo de peças do artesanato do Acre ou de sandálias feitas de látex, produzidas pela Seringô - grife oriunda do Pará.

Créditos: DivulgaçãoWeena é a grife criada por uma estilista nativa indígenaWeena é a grife criada por uma estilista nativa indígena
Weena é a grife criada por uma estilista nativa indígena

No showroom, a grife O Jardim apresentou quimonos, vestidos e peças de lingerie produzidos em tecido biodegradável e tingidos com catuaba e pau brasil. Sim, a mesma tintura que aparece na época do descobrimento.

A grife Comas mostra que é possível exibir na passarela roupas de estilo urbano e cool reutilizando roupas no que se convenciona chamar redesenho ou upcycling. Além de comprar, o BEFW introduz o verbo compartilhar no glossário da moda. O projeto A Gaveta tem como fundamento troca de roupas entre assinantes, sem custos.

A Bumpbox criou uma modalidade de aluguel roupas voltado para grávidas, de modo que a peças ganhem longevidade ao serem reutilizadas. Um dos pontos altos do evento foi apresentação da Weena - criada pela cantora  de origem indígena nativa Weena Tikuna.

 A leveza dos motivos da floresta fizeram contraponto ao urbano looks feitos de feltro por Leando Castro e as diferentes gramaturas de seda ornadas por alfinetes por Eneas Neto. Uma prova que existe pluralidade e identidade no criativo sustentável.

Nem tudo que parece deve ser tomado como ecologicamente correto. Américo, diretor da Amuse - agência responsável pela beleza dos desfiles - não usa cosmético que tragam elementos oriundos o petróleo. Elza Barroso, diretora da Face It Vegan, garante que os batons tem longa duração e estão livres de metais pesados, parabenos derivados de petróleo, ingredientes de origem animais e não são testados em animais. Por isso, tem selo do PETA e Eurecicle - certificado de economia circular de cumprimento de normas resíduos sólidos. A formulação tem óleo de mamona, manteiga de karité e óleo de coco. A make do desfile Bemglô, por exemplo, foi toda Face It Vegan.

O BEFW abriu espaço para painel Plataformas para Colaboração e Transparência na Moda. Embora existam grupos de whatsapp, o compartilhamento de informações sobre produtos de efeito negativo à natureza ainda é pequeno no Brasil.

 Outro desafio da moda sustentável é dialogar no espaço. Paulinho Moreira, um dos criadores da Oriba, identificou comportamentos diferentes entre os públicos das lojas da marca. O público da Oscar Freire, localizada nos Jardins, apresentava um padrão de consumo conservador. A loja Oriba, localizada em Pinheiros, é ponto de encontro de moradores. A convivência é tão afetiva que a grife tem por hábito distribuir flores aos moradores. O consumidor, diz Paulinho, não tem ânsia por consumo. E entende o apelo de moda masculina, básica e de qualidade da grife. Ao participar do talk sobre shopping center, Moreira atentou, para quem pensa na ideia, sobre o impacto no custo da roupa e a dinâmica de consumo própria dos shoppings centers. Ou seja: é preciso que centro comercial esteja aliado ao modelo de comprar respeitando o meio ambiente.

O Brasil Eco Fashion Week terminou com talk comandado por André Carvalhal e desfile da grife Ahlma. Autor de livros, Carvalhal firmou um conceito de marca sustentável a partir da Ahlma e hoje desponta como um dos maiores influenciadores do chamado consumo consciente. Fazendo uma revisão histórica do surgimento das blogueiras e influencers, apoiadas em produtos inacessíveis, consumo desenfreado, imagem e dinâmicas mercantilizadas, Carvalhal acredita na delimitação de um ciclo. "Eu  acho que as pessoas estão começando entender que isso é cafona. Acho que o novos influenciadores propagam o auto cuidado, a preservação do planeta, o cuidado com as pessoas. Eu vejo futuro como uma evolução do trabalho feito, lá atrás, por blogueiras de consumo. Agora estamos em outra logica: outro pensamento", reflete.

 Sem definir o instante em que a nova ética de consumo se torne popular, o estilista observa que a crescente queimada na Amazônia e a poluição das praias brasileiras com petróleo faz que a população "sinta na pele" a urgência nos processos de consumo. O estilista lançou a marca ao perceber o volume de tecido não utilizado pela indústria. A estimativa é 175 mil de toneladas por ano.

A nova marca faria o uso do destaque e agregaria novos valores conscientes.  O desfile da Ahlma contempla o reciclo, o compartilhamento entre grifes, a procedência do produto e o respeito a quem produz a roupa. Sem perder, claro, um milimetro no sentido fashionista. Autora da trilha sonora do desfile, a cantora Letrux "Eu amo roupa de brechó. O mundo não pode seguir para outro lugar senão para o caminho da moda sustentável", resume.

Algodão orgânico e o RN
O imperativo sobre o futuro do planeta tem despertado grandes marcas. A Renner, gigante do fast fashion, apresentou looks a partir de matéria-prima ecologicamente correta no BEFW. O algodão orgânico, utilizado no desfile da paraibana Natural Cotton Color e nas coleções de marcas como a Demodé, expande a produção além das fronteiras paraibanas. Com apoio da C&A que garante a compra do produto, faz florescer lavouras na Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e, sim, Rio Grande do Norte.  Segundo Gilvan Barbosa, representante da Embrapa, o Governo do Rio Grande do Norte articula um programa em torno de algodão orgânico. ]A Arezzo lançou, dois dias após ao BEFW, a linha ZZBio.  Produzido com o fio de poliamida Amni Soul Eco fornecido pela Rhodia, que ao contrário das fibras sintéticas que demoram décadas para se decomporem, o novo modelo da Arezzo promete ser totalmente eliminado em menos de três anos, quando descartados corretamente em aterros sanitários.

A novidade têxtil foi motivo da apresentação de Mayra Montel, gerente de marketing da Rhodia, na semana de moda paulistana. Mas já havia sido utilizado em oficinas de tingimento, em outubro, no Minas Trend. O que todas as ações simbolizam? O consumo consciente entra em compasso com a dinâmica do sistema moda. Vale observar, como frisou André Carvalhal, o sistema do "novo" que move a moda se apresenta no desejo de trocar modelo de celular, carro e outros produtos. Qual o propósito? Respostas aos questionamentos estão presentes nos livros "A Moda Imita a Vida", "Moda com Propósito" e "Viva o Fim", todos escritos por André Carvalhal. O jornalista Jackson Araújo apresentou o livro "Trama Afetiva". E, finalizando a parte cultural do evento, o filme "Florestania - O Despertar da Floresta",  dirigido por Cristiane Torloni e Miguel Przewodowski  foi exibido no último dia da semana de moda. O futuro começou.



*Jornalista viajou a convite BEFW









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