Monteiro Lobato em Portugal

Publicação: 2010-11-30 00:00:00
A proibição de um livro de Monteiro Lobato ( Caçadas de Pedrinho) pelo Conselho Nacional de Educação chega a Portugal e é comentada por um dos principais jornalistas portugueses, João Pereira Coutinho, também escritor e professor, que assina uma coluna quinzenalmente na Folha de S.Paulo. Ano passado, a editora Record lançou o livro Av. Paulista, reunindo dezenas de crônicas de JPC publicadas na Folha entre os anos de 2005 e 2008. Lá se encontra de Política à Literatura, passando pelo Futebol, outras artes, viagens  e sexo também, em enredos que acontecem pelo mundo afora. João Pereira Coutinho é graduado em História da Arte e doutor em Ciência Política. Escreve no Correio da Manhã, de Lisboa. Seu artigo “O caso Monteiro Lobato”, publicado ontem na Folha contém a melhor análise que já li sobre esse absurdo da proibição do livro de Monteiro Lobato nas escolas públicas do Brasil. Vai na íntegra:

- A minha infância foi pobre. Televisamente falando. Não poderia ser de outra forma. Nasci depois da “Revolução dos Cravos”, que enterrou a ditadura portuguesa de 1974. A televisão lusa dava os primeiros passos em liberdade e a programação era, digamos, incipiente.

- Mas havia excepções. Uma delas era “O Sítio do Picapau Amarelo”, uma produção da TV Globo baseada na obra de Monteiro Lobato (1882-1948). Lembro-me das aventuras de Pedrinho e Narizinho com a mesma gratidão com que me lembro das aventuras de Lucy ou Edward nas crónicas de Nárnia de C.S. Lewis, que li na mesma idade, teria uns 7 ou 8 aos. Sem falar da boneca Emília, de Dona Benta e da Tia Nastácia. Puro encantamento.

- Por causa de Monteiro Lobato, conheci melhor o folclore brasileiro; e, claro, a própria literatura brasileira. Depois da série, li Monteiro Lobato “lui même”. E, por causa do autor, fui entrando no cânone. Primeiro, “O Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos, desde logo porque havia um “portuga” na trama. O livro fez um sucesso em Portugal digno de J.K.Rowling. E depois passei a dietas mais pesadas, com Lima Barreto, Nelson Rodrigues. E o notabilíssimo Rubem Fonseca.

- O racismo de Monteiro Lobão incomodou-me? Nem pensei nisso. Não penso nisso agora. O que não significa que Monteiro Lobato não o fosse: as suas referências a “pretos” podem ser desconfortáveis para uma audiência moderna. Mas se as audiências modernas apenas lessem o que se ajusta ao cânone politicamente correto do momento, que obras ficariam nas nossas bibliotecas? Precisamente. Poucas. Quase nenhuma. Todas as épocas têm suas fogueiras.

- Por isso pasmo com a decisão do Conselho Nacional de Educação de sinalizar com pânico radioativo e institutos censórios a obra “Caçadas de Pedrinho”, publicadas por Monteiro Lobato em 1933. O caso já chegou à imprensa portuguesa, que tem dedicado alguma atenção ao assunto. Deveria dedicar mais porque estamos na presença de um exemplo clássico de ignorância cultural. E, ironicamente, de preconceito ideológico.

- Segundo leio, o livro “Caçadas de Pedrinho” tem referências que não são agradáveis à população negra. Uma princesa, por exemplo, aconselha Emília a não beber café. Para não ficar “morena”. E a Tia Nastácia, que cozinhava os melhores petiscos da minha infância, é referida como “pobre preta”.

- Isso, para o Conselho de Educação, é intolerável. A função do ensino, para o nobre órgão, é inculcar os valores certos na cabeça das crianças, afastando qualquer ofensa às minorias. Sou capaz de entender a generosidade do Conselho de Educação. Mas se a função do ensino é afastar do currículo tudo aquilo que ofende a sensibilidade moderna, repito, não fica nada para mostrar.

- Apagar o passado que nos interpela com seu rol de ofensas e preconceitos é apagar Platão ou Aristóteles, dois conhecidos escravagistas com intoleráveis tendências migósinas. É apagar os versos de Dante na sua “Comédia” com passagens islamofóbicas. É apagar Voltaire pelas mesmas razões, a começar pela sua peça “Maomé”. É apagar Mark Twain pelos mesmos motivos que nos levam a censurar Monteiro Lobato. É não permitir que Shakespeare nos contamine com seu esporádico antisemitismo. E por falar em antisemitismo, é jogar no lixo a poesia de T. S. Eliot, o maior de todos os modernistas. E etc. etc. etc. A lista não tem fim.

- Avaliar a cultura passada com as lentes ideológicas do nosso tempo não é apenas um grosseiro erro de anacronismo. É vandalizar esse passado pela destruição do mundo que ele expressa; é, no limite, uma privação cultural.

- E esse crime não é apenas um crime que cometemos sobre o passado. É também uma porta que abrimos para crimes futuros; para que as gerações vindouras, dominadas por seus próprios valores ou preconceitos, passam usar a guilhotina sobre os nossos valores ou preconceitos; sobre a nossa voz singular e presente; sobre nossos vícios e virtudes; sobre nós. Uma inquisição permanente que não tem descanso.

- O caso Monteiro Lobato é mais um exemplo de como o objetivo do pensamento politicamente correto não é “corrigir” o pensamento politicamente incorreto. É criar um mundo de silêncio, transformando o passado num imenso cemitério.

Cidadãos

Às 10 horas desta terça-feira a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte realiza  sessão especial para homenagear a Maternidade Escola Januário Cicco nas comemorações de seus 60 anos. Na mesma sessão, o médico Kleber de Melo Morais, diretor da MJC, recebera o título de Cidadão Norte-Riograndense.

Começo da noite, 18 horas, na Câmara Municipal de Natal, será a vez do professor Jose Ivonildo Rego, Reitor da UFRN, recebe o título de Cidadão Natalense.

Do tempo

Choveu  ontem no sul do Piauí. Chuvas também no noroeste da Bahia. A previsão do CPTEC-Inpe para hoje é de possibilidades de chuvas no centro-sul do Piauí e tendência de pancadas de chuvas no oeste de Pernambuco e sul do Ceará.

Grana

Como Iberê havia garantido, começou ontem o pagamento de novembro do funcionalismo estadual. Agora é esperar dezembro e o 13º. Amanhã já é dezembro Ufa!.

Governo

Dezembro começa amanhã e não se tem notícia do secretariado da governadora eleita Rosalba Ciarlini. Faltam 31 dias para a sua posse.