Morar na praia, comer e andar de táxi pesam mais em Natal

Publicação: 2011-07-31 00:00:00 | Comentários: 6
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Andrielle Mendes - repórter de Economia

Viver em Natal custa caro. Foi o que o estudante de mestrado Fabrício Costa Silva, 24 anos, descobriu depois de mudar-se para a capital potiguar há pouco mais de um ano. Natural de Caetité, a 750 km de Salvador, Fabrício desembarcou em Natal em março de 2010. Percebeu, logo na primeira compra, que desembolsaria um pouco mais para levar os mesmos itens para casa. Natal tem a cesta básica, a locação de apartamento e a bandeirada de táxi mais caras do Nordeste. Enquanto a locação de um apartamento com três quartos (um suíte), na orla de Natal sai por, aproximadamente, R$1,5 mil. Em Salvador, fica em torno de R$800. No máximo, R$1 mil.

A explicação é simples. Pelo menos, na ótica do corretor  Pedro Viegas, especialista em locação de imóveis, da ReMax imobiliária – que está presente  em todos os estados do Nordeste - que faz os cálculos: “em Salvador, a oferta de apartamentos é bem maior”. De acordo com Viegas, a lei da oferta e da procura, uma das mais conhecidas leis do capitalismo, está por trás do alto custo de vida em Natal. A justificativa dele é amparada pelo pensamento de economistas como o professor Willami Pereira, do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O argumento também se estende a outros segmentos, além do  imobiliário. “Temos poucas indústrias e a oferta de bens primários é pequena para uma população que cresce de forma significativa. Essa pequena oferta frente a grande demanda - fruto tanto do crescimento da população como da renda - provoca fortes elevações nos preços internos. Há também um problema vinculado a cartelização de algumas atividades produtivas que encarecem os produtos. Soma-se a essa pressão entre oferta e demanda a ineficiência de determinados órgãos públicos em fiscalizar, regular e dificultar os aumentos generalizados”, analisa Willami.

A lei da oferta e da procura explica o que ocorre com a locação de apartamentos, principalmente os localizados nas orlas das capitais, que são os mais procurados. Mas e o táxi? Por que Natal tem a bandeirada mais cara do Nordeste? A tarifa de táxi, segundo Alexis Manguinho, presidente do Sindicato dos Taxistas de Natal, acabou de ser reajustada em 7%. Isso, segundo ele, fez a bandeirada de Natal - o valor fixo registrado no taxímetro quando começa a corrida - se sobressair na região e até no País. “Quando as outras tarifas forem reajustadas, as outras capitais nordestinas vão encostar em Natal”, prevê. Manguinho também tem outras justificativas. “Nosso trabalho é diferente; nossa cidade é pequena; nossas corridas são menores; o passageiro passa pouco tempo no nosso carro; nossa frota é de alta de qualidade; nossos motoristas passam por capacitação constante. Tudo isso influencia o preço”.

A cesta básica de Natal, segundo último levantamento realizado pelo Dieese-RN, também é a mais cara da Região. Levar os mesmos 12 itens para casa custa R$5,03 a mais em Natal do que em Fortaleza, capital com a segunda cesta básica mais cara no Nordeste. Segundo Melquisedec Moreira, supervisor do Dieese/RN, vários fatores interferem no preço final da cesta básica.

“A maioria dos natalenses prefere comprar em grandes redes, que praticam preços mais elevados. Isso eleva um pouco o preço”, afirma Melqui. Impostos e importação de alguns produtos também pesam na conta. “O estado não produz praticamente nada ou muito pouco do que está na cesta básica. A produção não é suficiente para baixar os preços”, complementa Marcus Guedes, economista. O preço da cesta básica, como ele lembra, repercute no valor cobrado pelos restaurantes e barzinhos da capital, mais alto em cidades turísticas.

Por que temos a bandeirada mais cara do Nordeste?

O nosso trabalho é diferente. Nossa cidade é pequena; nossas corridas são menores; o passageiro passa pouco tempo no nosso carro; nossa frota é de alta de qualidade; nossos motoristas são capacitados e passam por capacitação constante. Tudo isso influencia o preço”.

Alexis Manguinho - presidente do Sindicato dos Taxistas de Natal

Por que temos a cesta básica mais cara do Nordeste?

Alguns fatores interferem no preço final da cesta básica. A majoração dos preços aqui é mais forte que nos outros Estados. A maioria dos natalenses prefere comprar em grandes redes, que praticam preços mais elevados. Isso eleva um pouco o preço. Em João Pessoa, por exemplo, 40% das compras são feitas em mercados públicos e feirinhas populares. Aqui é diferente. Impostos e importação de alguns produtos também pesam na conta. Além disso, há um pouco de especulação.

Melquisedec Moreira - supervisor do Dieese-RN

Peso leva à mudança de hábitos

O custo elevado de itens como alimentação, roupas e táxi, em Natal, levou o estudante de mestrado, Fabrício Costa Silva, 24 anos, a mudar alguns hábitos. Há pouco mais de um ano na capital potiguar, o baiano teve que cortar vários gastos para não extrapolar o orçamento (R$1,5 mil). “Tive que me adaptar quando cheguei a Natal. Achei as roupas bem caras. Senti logo a diferença no preço. A mesma roupa que comprava lá na Bahia, achei aqui até R$20 mais cara. Decidi comprar só o que precisava. O que era mais urgente”. Mas não são só as roupas que custam mais em Natal, segundo constatou Fabrício.

arquivo/TNApesar de pagar mais pelos mesmos serviços em Natal, Fabrício não pretende retornar para a Bahia quando concluir o mestradoApesar de pagar mais pelos mesmos serviços em Natal, Fabrício não pretende retornar para a Bahia quando concluir o mestrado
“A alimentação também é mais cara. Para comer algo com a mesma qualidade que comia na Bahia, gasto o dobro aqui. Posso até pagar a mesma quantia, mas não fico satisfeito com a qualidade. Na Bahia, faço uma boa refeição com R$7. Aqui gasto, no mínimo, R$ 15 - mais que o dobro”. Em Vitória da Conquista, a 509 km de Salvador, cidade onde morou durante cinco anos, Fabrício costumava almoçar fora nos finais de semana. Ia sempre para uma churrascaria “comer  feijão tropeiro, salada, carne”. Em Natal, limitou o número de saídas. Principalmente, durante a noite. “Não tenho carro”, justifica. Mas essa não é a única razão para, de uma hora para outra, Fabrício ficar mais ‘caseiro’. “Vitória da Conquista é menor que Natal. Aqui, dependendo do lugar, vou gastar muito com táxi. Isto é um problema. Muitas vezes prefiro não sair”, afirma. A tarifa de táxi em Natal, a mais cara do Nordeste, como admite o próprio Sindicado dos Taxistas de Natal, não é o único empecilho para Fabrício sair com os amigos durante a noite. “Sair à noite custa muito caro em Natal. Tem barzinho que cobra R$20 só para você entrar. Lá dentro, você vai consumir, e gastar, muito mais. Lá na minha cidade, a gente sai com pouco dinheiro, come, bebe, e ainda volta para casa de táxi”, relata.

Apesar de pagar mais pelos mesmos serviços em Natal, Fabrício não pretende retornar para a Bahia quando concluir o mestrado. “Aqui a qualidade de vida é muito boa. O custo-benefício compensa. Algumas coisas são bem caras, mas é bom viver aqui nesta cidade”.

Reduzir impostos ajudaria a baratear cidade

Parar barrar a elevação dos preços e tirar Natal da lista de capitais nordestinas mais caras, o economista Willami Pereira recomenda a redução de impostos sobre bens e serviços relacionados ao consumo popular e a ampliação da infraestrutura de transportes para reduzir os custos das empresas que utilizam esses transportes. Ele também propõe o estabelecimento de um IPTU progressivo para evitar especulação nos poucos terrenos existentes em Natal e imediações.    

Estímulos e subsídios ao transporte público para reduzir o uso de carros particulares e consequentemente promover redução no consumo de combustíveis poderiam puxar os valores para baixo também. “Várias medidas podem ser adotadas pelos governantes e pela sociedade para reduzir essa “cultura” de altos preços na cidade”, resume Willami Pereira, do Departamento de Economia da UFRN. “Para atenuar a elevação de preços é fundamental que a população pesquise e consuma regradamente, e o governo, através dos órgãos pertinentes,  fiscalize e  amplie a oferta por parte dos produtores”, acrescenta.

O estímulo a oferta de bens primários e industriais pode frear a elevação dos preços em Natal e reduzir o custo de vida na capital potiguar. Embora faça uma série de recomendações ao Estado e aos natalenses, o economista não vê a posição de Natal de forma pessimista. “É necessário apenas ampliar os investimentos e  estímulos para não ficarmos muito atrasados em relação aos outros estados, em particular aos três grandes (Bahia, Pernambuco e Ceará)”.

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Comentários

  • marialenira.oliveira

    Isso aí não é novidade. Natal é a cidade mais cara do nordeste. Fato! Tudo é caro e o pior, ainda tem quem pague por isso. Não é só estrangeiro não...natalense também tem um bolso bom. Não que ganhe muito, aliás, muito pouco em relação a outros estados, mas gasta muito, só pelo prazer de gastar. O rapaz aí deve sentir muito por não poder desfrutar das maravilhas de Natal, mas é assim mesmo..gosto daqui só pelo fato de ser uma cidade que ainda não é metrópole como Fortaleza, Salvador ou Recife. Eu não nasci aqui, mas não troco Natal por nada. As pessoas são sempre acessíveis, honestas. Problemas sempre vão existir em qualquer lugar do mundo, independente de sobrar dinheiro no final do mês ou não.rsrs

  • uchoamelo

    Comentarios corretos mais pergunto vc veio a natal para comer em restaurantes e passeio ou vei para se dedicar ao estudo.

  • haroldoar

    sem logica a justificativa dada pelo mpresidente do sindicato dos taxistas de natal, quando diz que a bandeirada em natal é maior porque a cidade é pequena, menores que natal são: aracaju, joao pessoa e teresina e maceio é um pouquinho maior. gostaria de avisar aos taxistas natalenses que não se esquessam do mau exemplo dado pelos comerciantes da praia de ponta negra que tanto explorarem os fregueses tanto turistas como os nativos, hoje estão quase falidos, com seus estabelecimentos medingando clientes , que não são mais otarios e abandonaram a linda praia.

  • u1956

    É Fabricio, você tem toda razão. Só que acho que este custo-beneficio não está muito bem ajustado. Nem sempre os serviços são bons para justificar os altos preços. O problema é que Natal vive de turismo e grande parte dos turistas são estrangeiros e trazem uma moeda mais valorizada, tudo gira em torno do turismo e o nativo, coitado, termina pagando a conta. Faz só 1 ano que você está aqui, espero que fique mais tempo e aí vai descobrir outras coisas sobre Natal que ainda não deu tempo ver. A cidade exerce uma magia a quem chega, mas com o tempo, o encanto se vai e você percebe coisas que antes não via. Tenho varios exemplos de pessoas que se encataram com a cidade, decidiram morar nela, mas quando o encanto acabou, voltaram para seus lugares de origem.

  • edmariap

    Acho que o Senhor Alex Maguinho nunca precisou usar os serviços de taxi de Natal. Pois, se tivesse usado, não diria que os taxistas passam por capacitação. Eu que de vez em quando, preciso utilizar deste serviço, posso dizer que os taxistas de Natal são altamente despreparados, até mesmo mal educados. Em algumas vezes eu estava com muitos pacotes nas mãos e tiver que fazer malabarismos para abrir a porta do taxi porque o taxista não teve a iniciativa de descer do taxi e abrir a porta pra mim. Em outa vez estava chuvendo muito e o taxista não teve coragem de pegar o guarda chuva e me deixar na porta do meu trabalho. Acho isso um absurdo, serviço de péssima qualidade e muito caro. Não justifica a tarifa tão cara.

  • regina.natal

    o q este rapaz fala, é verdade..porque qdo se vem a Natal a passeio, férias, vemos um lado, mas qdo decidimos vir pra morar, é outra coisa. aluguel caro, comida mais caro ainda, passagens caras, vida noturna alto demais, mas infelimente os governantes, só visam os bolsos deles e da familia, não tem melhoria em nada, viim mor aqui tem 7 anos e pouco se vou ficar o resto da minha vida não sei......