Morre o sociólogo do humor

Publicação: 2020-10-01 00:00:00
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Eram onze horas e vinte e um minutos da manhã em Buenos Aires, quando explodiu no Twitter a notícia que a Argentina e o mundo temiam acontecer. Na sua conta pessoal, o editor Daniel Divinsky, fundador das Ediciones de la Flor, que desde 1970 publica historietas da personagem Mafalda, anunciou: “Quino morreu. Todas as pessoas boas no país e no mundo vão chorar por isso”. Em minutos toda a imprensa mundial e as redes sociais repercutiam a informação.

Joaquin Salvador Lavado, famoso no planeta como Quino, foi talvez o artista gráfico latino-americano que alcançou mais popularidade com sua criação, a menina que saltou das tirinhas cômicas para as revistas, os livros, a televisão, o cinema e os corações e mentes do mundo, tornando-se um dos grandes símbolos da década de 1960. No dia anterior à morte do criador, a criatura fez aniversário, nascida em 29 de setembro de 1964; uma guria de 56 aninhos.

Mafalda surgiu como publicidade na encomenda de uma agência. A ideia da tirinha não foi aproveitada, e Quino a entregou ao jornal semanal Primera Plana, criado em 1962 inspirado nos estilos das revistas do Time e Le Monde.

A menininha de cabelos negros, espirituosa, rebelde, contestadora, curiosa e incitantemente doce era, na verbalização das suas dúvidas e preocupações, uma extensão do posicionamento político do criador, uma lente de aumento.

No ambiente da ficção de Mafalda, Quino acrescentou o nicho social da universalidade real, um retrato social de bairros e famílias da América Latina. E inseriu no contexto da personagem o caldeirão cultural e político dos anos 60.

Junto com a menina, ele criou familiares e amigos, o pai Pelicarpo, a mãe Raquel, o irmão Guille, os amigos Felipe, Manolito, Miguelito, Susanita e a garotinha Libertad com um nome panfletário, além da tartaruga Burocracia.

Quino tinha cidadanias argentina e espanhola, começou a desenhar aos 13 anos pouco depois da morte da mãe. Aos 17, perdeu também o pai. E decidiu que faria histórias em quadrinhos, deixou a escola e foi na busca de editoras.

Seu primeiro trabalho foi em 1963, uma coletânea de quadrinhos de humor, “Mundo Quino”, mas ainda sem os textos sociológicos que definiriam a marca de Mafalda. Com a menina, ele construiu um quadro de conjuntura atemporal.

Nele se reproduziu um fenômeno comum onde a criatura se torna maior que o criador, já que a militância ideológica mais radical do artista não era exatamente o posicionamento constante nos questionamentos da menininha. 

No contexto das artes, a independência da criatura consagra o legado do criador, como nas relações Cervantes-Quixote, Maurício-Mônica, Ziraldo-Menino Maluquinho, Conan Doyle-Sherlock, Stan Lee-Homem-Aranha... 

Não há nada mais chato e complicado do que um militante, de esquerda ou direita, obter sucesso na doutrinação de terceiros. Mas quando se é artista, a mensagem se torna mais palatável, quando carregada de doçura e perspicácia.

A ausência física de Quino pode provocar essa tristeza imposta pela morte, mas seu talento artístico continuará impregnado nos pensamentos dos leitores e fãs da Mafalda. As redes sociais estão desde ontem prenhes de orfandade.

A professora de letras, Cellina Muniz, diz que “estão órfãos os espíritos libertários que almejam uma sociedade de respeito às diversidades e coletividade”. A relação de Mafalda e Manolito, a menina que ama os Beatles e questiona a vida, e o menino que detesta a banda inglesa e adora dinheiro, é mais ou menos isso. No humor sociológico de Quino, a convergência dos contrários.

Créditos: Divulgação

Aulas
A Femurn, federação dos municípios, fez enquete entre os federados sobre a volta das aulas presenciais nas escolas. Até ontem, 35 prefeitos tinham dito “não” e nenhum sequer para dizer “sim”. Mas os comícios seguem no interior.

Aulas II
Alexandre Garcia lembrando que as escolas da Europa fecharam por poucas semanas, enquanto no Brasil os prefeitos e governadores dão ouvidos a comitês ideológicos e tentam, disfarçadamente, instituir de vez o ensino virtual.

Injustiça
No Brasil pelo avesso, um juiz condena um padre a pagar R$ 400 mil de multa por ter evitado um aborto. E o Supremo decide inocentar uma enfermeira que transformou aborto em comércio, praticando mais de trezentos assassinatos.

Água
O ministro Rogério Marinho postou no Twitter que o leilão da estatal dos serviços de água e esgoto em Alagoas foi um absoluto sucesso, arrematada por mais de R$ 2 bilhões. Quem sabe um dia o RN repita o êxito com a Caern.

Previdência
O sindicato dos funcionários da administração indireta está com um filme na TV batendo duro na reforma previdenciária do governo Fátima Bezerra. Aliás, as reformas da esquerda e da direita se assemelham na rejeição da sociedade.

Sem apoio
O candidato a vice de Rosalba, em Mossoró, se arvora candidato de Bolsonaro, mesmo sabendo que o presidente não concorda. Aliás, nem mesmo o chefão do PSL, Luciano Bivar, apoia a aliança e já pensa em intervir no RN.

Gago 
No debate presidencial americano, Donald Trump provocou tanto Joe Biden que lhe devolveu momentaneamente uma gagueira que o marcou na infância, agravada principalmente por bullying nas investidas dos meninos maiores.







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