Morrer de amor

Publicação: 2019-07-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Em 26 de janeiro de 1995, enquanto eu, meus familiares e amigos velávamos o corpo da minha mãe morta, vislumbrei chegando ao centro de velório a figura do hoje saudoso Padre Sabino, que conhecia desde o período 1979/80.

Convocado por uma cunhada minha para celebrar uma missa, e sabedor do meu questionamento aos dogmas religiosos, ele me pediu breve informação sobre mamãe e a causa mortis, para improvisar um sermão satisfatório.

Dona Nenzinha faleceu de repente, durante um simples exame periódico. Aos 73 anos, o único sinal de fragilidade física veio naqueles dias posteriores à partida de Seu Luís, com quem vivera 54 anos. Avisei Sabino: morreu de amor.

Já tinha lido sobre casos em que a saudade provocava dores lancinantes na alma e que o fim do amor feria o corpo, fato ilustrado em cotovelos magoados. Nas artes, então, o assunto sempre esteve em voga ao longo dos séculos.

O cantor e poeta Leonard Cohen viveu uma experiência assim com sua Marianne Ihlen, musa inspiradora da sua obra. Mesmo separados, se mantiveram unidos como exemplos de almas gêmeas até a morte dos dois.

Quando Marianne estava desenganada, em julho de 2016, num hospital da Noruega, o autor do clássico So Long Marianne vivia em Los Angeles. Enviou uma carta que ela leu e faleceu em seguida. Ele partiu atrás em novembro.

Ontem lembrei do mítico casal e também dos meus pais ao ler sobre as mortes dos americanos Herbert DeLaigle, de 94 anos, e Marilyn Frances, de 88, casados durante 71 anos até a última sexta-feira, quando se foram juntos.

Ele se apaixonou em 1925, tinha 22 anos e ela apenas 16. A menina trabalhava num café de uma cidadezinha da Virgínia (EUA) e enquanto atendia os clientes era contemplada todos os dias pelo jovem em sua timidez.

Um dia o enamorado resolveu criar coragem e convidou a garota dos sonhos para ir ao cinema, começando ali uma linda e sólida história de amor que gerou seis filhos, dezesseis netos, vinte e cinco bisnetos e três tataranetos.

No ano passado, Herbert e Marilyn foram entrevistados em alguns sites e jornais por motivo dos 70 anos de casamento e, principalmente, por exibirem no cotidiano os gestos e sentimentos do nosso imaginário sobre grande amor.

O casal morreu no mesmo dia, na última sexta-feira, com pouco mais de dez horas de diferença entre uma partida e outra, como se os amantes tivessem um encontro marcado do outro lado da morte, se é que há cafés por lá.

O médico que atendeu Marilyn, morta logo depois de Herbert, escreveu no prontuário a causa da morte como sendo “síndrome do coração partido”, quando hormônios do estresse e da dor avançam pela corrente sanguínea.

Pode ser incoerente morrer de amor quando o amor é para ser fonte de vida. Mas os poetas acreditam que possa ser, comprovando o que cantou Florbela Espanca: “não és sequer a razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida”. E quando o amor que é vida se vai, a força vital vai com ele, como aconteceu com Marilyn e com minha mãe. (AM)

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