Morte causa comoção e muda os rumos do Brasil

Publicação: 2014-08-24 00:00:00
O suicídio de Getúlio Vargas deixou a nação perplexa e a comoção se estendeu por muitos anos. Nas casas de pessoas nas capitais e no interior do Brasil era comum ver a carta-testamento do presidente emoldurada e colocada em local de destaque na sala. Dos que estiveram no centro dos acontecimentos, muitos já morreram. Os mais velhos lembram do 24 de agosto como se a tragédia tivesse acontecido há poucos anos.
Simon lembra que polícia, empresas e sede do Partido Libertador foram atacados em Porto Alegre
O senador Pedro Simon (PMDB-RS), de 84 anos, é um deles: “As reações populares foram imediatas. Em Porto Alegre, onde eu vivia, atacaram a sede da polícia, de empresas americanas, do Partido Libertador. Houve incêndio e quebra-quebra — conta ele, que na época tinha 24 anos e era líder estudantil e militante do PTB, partido de Vargas.

O enterro de Getúlio foi em São Borja (RS), sua cidade natal. Por essa razão, a frequência dos voos entre Porto Alegre e a cidade fronteiriça aumentou e Simon conseguiu embarcar para assistir ao sepultamento. Ele se recorda da multidão que foi dar adeus ao líder e de cópias de sua carta-testamento — célebre pela frase “saio da vida para entrar na história” — sendo distribuídas na cerimônia.

“João Goulart, Tancredo Neves e Osvaldo Aranha [que haviam sido ministros do governo Vargas] fizeram discursos fantásticos. O de Osvaldo Aranha foi emocionante. Ele contou que Getúlio era rígido nos princípios, não tinha preocupação com as coisas materiais e colocava o bem da sociedade acima de tudo”,  lembra o senador.

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Pouco depois, Simon participou de um debate sobre o suicídio. Ele ouviu de colegas que, segundo a fé católica, os suicidas não vão para o céu.” Discordei. Não se pode dizer que a morte de Vargas foi um suicídio a rigor. Ele morreu para evitar o derramamento de sangue e uma crise de consequências imprevisíveis. Foi um ato de heroísmo. Teria sido um mero suicídio se ele tivesse sido deposto, regressado para São Borja e só então se suicidado. Com sua morte, Getúlio retardou o golpe militar em dez anos - afirmou Simon.

Para Simon, ele foi um grande presidente. Por exemplo, lembra o senador, deu início à modernização e à industrialização do Brasil, fundou a Petrobras e a Companhia Siderúrgica Nacional, instituiu o voto secreto.

Bate-papo
Antônio Barbosa - historiador

Por que Getúlio Vargas se matou? Os militares de fato dariam um golpe?
Getúlio sabia que haveria um golpe para depô-lo. Na última reunião que fez com o ministério, pouquíssimas pessoas ficaram do seu lado. Já idoso [tinha 72 anos] e experiente das lutas políticas, Getúlio sentiu que o cerco havia se fechado e preferiu o gesto dramático do suicídio. Foi, na minha avaliação, o gesto mais inteligente que poderia ter feito. Quando deu o tiro no peito, ele estava, claro, pensando em si, em sua biografia, mas também estava pensando muito no Brasil. Ele sabia que o suicídio impediria de chegar ao poder aquelas forças que lutavam contra ele, contra o trabalhismo e contra as reformas sociais que vinha implementando. Com o suicídio, as emoções afloraram pelo Brasil afora e Getúlio conseguiu reverter a oposição que já estava ganhando as ruas. O suicídio mexeu com o imaginário do país inteiro. Em toda a história do Brasil, não houve nenhum outro presidente que tenha se suicidado. O país levou um susto tão grande que os adversários do presidente perderam as forças para tomar o poder. O golpe que se planejava teve de ser abortado. Em outras palavras, o suicídio de agosto de 1954 retardou em dez anos o golpe de Estado. A ditadura militar só seria imposta em 1964.

Por que a situação de Getúlio ficou insustentável a ponto de a oposição cogitar um golpe?

No primeiro semestre de 1954, a corrupção chegou a pessoas muito próximas de Getúlio [um de seus filhos foi acusado de fazer negócios escusos] e isso o desgastou muito. O presidente, entretanto, nunca foi corrupto. Cito um caso corriqueiro para ilustrar. Depois que foi deposto, em 1945, após 15 anos no Catete, ele voltou para o Rio Grande do Sul. Lá, teve a intenção de ampliar um pouco sua fazenda, comprar alguns hectares de terra. Para isso, ele precisou tomar um empréstimo no Banco do Brasil. Veja a situação: aquele que havia sido o homem mais poderoso do país simplesmente não tinha dinheiro suficiente para ampliar sua fazenda. Em 1954, Getúlio não foi capaz de enxergar os desvios que ocorriam ao seu redor, de perceber que pessoas muito próximas faziam negócios à sombra do Estado e enriqueciam. A oposição aproveitou bem a oportunidade e conseguiu criar a imagem de um governo submerso na corrupção.

A oposição era tão forte assim?
Getúlio não mantinha boas relações com o Congresso nem respondia de forma adequada às críticas da oposição. Tal inabilidade se explica pelo fato de Getúlio simplesmente não saber conviver com a democracia. Isso, de certa maneira, é compreensível. Ele era um homem saído do século 19. Para ele, a centralização do poder era indispensável para que o Brasil se desenvolvesse. Foi por isso que, entre 1937 e 1945, governou como ditador. Em 1951, porém, voltou ao poder pelo voto popular. Sob o regime democrático, enfrentou dificuldades crescentes para governar. Getúlio foi incapaz de lidar com o contrário, típico da democracia, e sucumbiu.

Em 1945, poucas semanas depois de ter sido derrubado da Presidência, Getúlio foi eleito para o Senado. Como foi o Getúlio senador?
Getúlio Vargas é um exemplo clássico do político sem a menor vocação para o Legislativo. Posso compará-lo a Leonel Brizola, que em 1962 foi eleito deputado com a maior votação da história do Brasil, mas jamais se notabilizou na Câmara. Nenhum dos dois nasceu para o debate parlamentar, para o discurso. Eles foram feitos para o Executivo. A passagem de Getúlio pelo Senado foi muito apagada.