Mosaico

Publicação: 2019-07-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Confesso. É o texto que gostaria de ter escrito mesmo sendo impossível, pela crueza do tempo e a diferença abissal de talento. É a narrativa tensa do jornalista Ney Bianchi, célebre nos anos dourados, sobre os primeiros minutos de Brasil 2x0 União Soviética na Copa de 1958.

O primor de Garrincha triturando a dribles o esquema assombroso e científico do fantasma vermelho, está no esplendor da peça de reportagem merecedora da área nobre do memorial da comunicação brasileira. É a síntese da supremacia do craque sobre teorias, conspirações e esquemas.

Acompanhem comigo a descrição do indescritível pelo homem dominando a imparcialidade diante de um gênio em flor e fúria. Na Revista Manchete Esportiva: “Monsier Guigue, gendarme(guarda civil) nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: são 20 segundos.

“Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetsov cai e fica sendo o primeiro "João" da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetsov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro, Todo o estádio levanta-se. Kusnetsov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kustetsov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos.

Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados pela grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos.”

Lá vai Mané e Ney Bianchi nem pisca: “Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A plateia delira. Garrincha volta para o meio de campo, todo desengonçado. Agora é aplaudido.”

Prossegue Ney Biancha : “A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kusnetsov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. ”

 O arremate emocionado e seguro : “O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol de Vavá, aos 3 minutos.”

Montagem

Detalhe
Ney Bianchi é raro na maestria de um traço perdido e fundamental no jogo: o detalhe. O detalhe morreu no futebol. O detalhe da sensibilidade, o detalhe da ginga, do gestual da plasticidade.

 Nenhuma locução coberta por imagens impecáveis digitais será igual ao relato que o mítico jornalista, testemunha de duelos heróicos no Ex-Maracanã, ofereceu aos seus leitores, de alucinar o ritmo do coração acompanhando os olhos e o cérebro processando a exuberância do espetáculo. Ney Bianchi ganhou três prêmios Esso de Jornalismo.

 Pedi ao meu filho, jovem publicitário, que reunisse numa só, cinco fotografias da Fifa, marcantes para mim sobre Copas do Mundo. Caio Henrique – elogio de pai vale porque o pai é rigoroso -, fez um trabalho impecável, ele que é torcedor de quatro em quatro anos.

 Juntou uma foto representando o texto de Ney Bianchi, no momento em que Garrincha dispara na trave do goleiro Yashin(grafado por Bianchi como Iashin), o maior do século passado e outras quatro de posteridade. De lendas. De verdade.

Tem Pelé sendo abraçado e tietado pelo zagueiro Julie Gustavsson, por ele chapelado na grande área antes do chute no gol mais bonito da final contra os suecos em 1958.

 Há Maradona enfileirando ingleses em 1986. Maradona começou driblando em seu campo, cortando dois súditos chamados à contradança. Humilhou o terceiro, o quarto, fintou o goleiro e empurrou para as redes. Maradona em estado puro e limpo. Tudo durou 1 minuto e 19 segundos que parecem intermináveis tantas vezes são repetidos na tela do computador.

Na edição feita pelo meu filho, tem Romário enfrentando o zagueiro norte-americano Alex Lalas. Em pleno 4 de julho de 1994, um mulato atarracado, abusado e maravilhoso superava a maior potência do planeta. A imagem personifica o malandro de gafieira aplicando um “sapeca”no Tio Sam.

 Também tem Zidane na sequência de lençóis em Ronaldo Fenômeno nas quartas de 1998, Zidane imperativo na sutileza, Ronaldo vencido e observado pelo dentuço, espantado e igualmente perdido xará gaúcho.

Cinco épicos do futebol, cinco pedaços, cinco detalhes, cinco provas definitivas de que a doce soberba do artista supera qualquer teorema. O sorumbático César Luiz Menotti, treinador argentino ortodoxo pela habilidade dizia: “Um craque de futebol pode ser transformado num atleta. Um simples atleta, um bruto, nunca será sequer um jogador de futebol”. Verdades do mosaico fotográfico de eternidade.

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