Natal
MPF pede extradição de Anthony Armstrong para o Brasil
Publicado: 00:00:00 - 04/11/2020 Atualizado: 23:33:33 - 03/11/2020
Luiz Henrique Gomes
Repórter

Após a prisão do ex-presidente do Alecrim Futebol Clube, o inglês Anthony Armstrong, nos Emirados Árabes na semana passada, o Ministério Público Federal (MPF) quer a extradição do empresário para o Brasil. O processo de extradição foi autorizado pela Justiça Federal no dia 29 de outubro, mas o pedido ainda não foi formalizado porque o MPF precisa realizar a tradução dos documentos necessários à extradição para o idioma árabe. Anthony Armstrong é acusado de desviar, pelo menos, R$ 75 milhões de quase dois mil investidores em dois anos.

Junior Santos/Arquivo TN
No Rio Grande do Norte, Anthony Armstrong desembarcou como um empresário bem sucedido em diversos ramos da economia e com planos de lucros inusitados

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O empresário foi denunciado pelo Ministério Público Federal junto com outras sete pessoas – dentre elas, a enteada Gabriela de Oliveira — em março deste ano por ter praticado crimes contra o sistema financeiro nacional por 214 vezes, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Na apresentação da denúncia, o MPF pediu a prisão preventiva do empresário e da enteada. Os dois eram sócios de uma empresa que captava investimentos no exterior para depois desviá-los para outras quatro empresas e utilizá-los em proveito próprio.

Segundo a Justiça Federal, ambos foram colocados na lista de procurados da Interpol após a denúncia. Entretanto, antes de serem presos, Gabriela de Oliveira conseguiu um habeas corpus que anulou o pedido de prisão preventiva. No último dia 27, após sete meses foragido, Armstrong foi preso nos Emirados Árabes, onde estava morando. A Justiça Federal não detalhou as circunstâncias da prisão.

Além do empresário e da enteada, outras seis pessoas foram denunciadas pelo MPF. Cinco delas eram contadores na Ecohouse Brasil, empresa que captava os investimentos internacionais, e outro é um funcionário da Caixa Econômica Federal.

Modus operandi
De acordo com a denúncia, o esquema acontecia através da captação de recursos de investidores internacionais para a Ecohouse Brasil, empresa que construção civil. Para conseguir os recursos, eles alegavam que a empresa construía casas pelo programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, e prometiam um lucro de 20% em 12 meses sobre o capital investido. O lucro seria proveniente da venda das casas após a construção.

A Ecohouse chegou a captar recursos de 1,5 mil investidores que movimentaram R$ 75 milhões em dois anos, segundo o MPF. Entretanto,  a empresa nunca construiu as casas e sequer chegou a possuir convênio com a Caixa Econômica Federal para participar do programa Minha Casa, Minha Vida. O dinheiro era desviado para quatro empresas – o Alecrim FC, um restaurante, uma empresa de segurança que tinha a Ecohouse como único cliente e outra empresa totalmente de fachada – ao chegar à Ecohouse. 

Para enganar os investidores internacionais, os empresários possuíam uma declaração falsa que atestava a prestação de serviço da empresa para o programa Minha Casa, Minha Vida. A declaração foi assinada por um funcionário da Caixa Econômica Federal, denunciado pelo MPF por falsidade ideológica. No entanto, a Caixa Econômica Federal informou ao MPF que a empresa nunca possuiu convênio para participar do programa de habitação.

Segundo a denúncia, o suposto convênio com a Caixa ficava à disposição dos investigadores no site da empresa e dava garantia de que se tratava de uma empresa com credibilidade. De acordo com o depoimento de uma advogada responsável por representar 400 investidores, Anthony Armstrong “anunciava que o seu grupo era o único autorizado pelo   Governo   Brasileiro   a   atuar   no  programa  de   habitação   popular   denominado   'Minha Casa Minha Vida'.”

 A fraude também acontecia através de atestados falsos feitos pelos contadores da empresa que diziam que as obras transcorriam normalmente e de visitas a canteiros de obras. Os investidores eram levados a esses canteiros para atestar a veracidade dos investimentos, mas, segundo depoimentos de empregados da empresa, essas obras jamais ficaram prontas.

Direitos trabalhistas
A prisão de Anthony Armstrong reacende a esperança de dezenas de antigos trabalhadores das empresas que ele mantinha no Rio Grande do Norte. A maioria deles acabou sem emprego logo após os desdobramentos da Operação Godfather e muitos, ou quase todos, não tiveram direito a nenhum benefício trabalhista. A Ecohouse Brasil, por exemplo, não efetivava os depósitos do FGTS dos servidores.

“Não pagou  meu INSS, nem FGTS. Além de me dever três meses de salários. E olha que eu fui um dos menos afetados. Lembro que teve gente que pedia comida da empresa porque não tinha salário fazia um tempão, a geladeira estava vazia e eles dizendo que no mês que vem pagava. Terrível", declarou um dos ex-funcionários da Ecohouse Brasil que pediu sigilo de identificação. Somente a esse ex-trabalhador, Armstrong devia R$ 16 mil à época do fechamento da empresa em Natal.

Com a detenção do empresário, eles acreditam que a Justiça irá bloquear bens e valores em contas bancárias, além de leiloar empreendimentos que, porventura, ainda estejam no nome de Armstrong para quitar as dívidas trabalhistas.











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