"Muitas crianças não aprendem por não ouvir”

Publicação: 2013-12-15 00:00:00 | Comentários: 1
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3 por quatro por Anna Ruth Dantas

« Antonio Pereira Júnior »

O neurocientista Antonio Pereira Júnior traz na sua pesquisa um desafio: unir a educação com a neurociência, focando em pesquisas que possam promover o desenvolvimento da educação a partir dos conhecimentos da neurociência. O cientista, integrante da equipe do Instituto do Cérebro (ICe),  desenvolve um projeto de pesquisa na Escola Juvenal Lamartine.

Neste momento, desenvolve projeto voltado para alfabetização. E nesta abordagem já trouxe uma constatação pouco conhecida: as dificuldades auditivas das crianças.

O projeto de Antonio Pereira Júnior é ousado e propõe a implantação do método de alfabetização. Ele explicou que a proposta é voltada para um aprendizado que envolve a parte sensorial, como a da visão.
EMANUEL AMARALAntônio Pereira Júnior, neurocientistaAntônio Pereira Júnior, neurocientista

Ouvindo o neurocientista falar com empolgação das atividades desenvolvidas e voltada para neuroeducação é pouco provável que o espectador imagine estar diante de um engenheiro mecânico. Mas é isso mesmo, Antonio Pereira Júnior teve a sua graduação no curso de Engenharia Mecânica e logo depois enveredou pela neurociência.

Neste momento o trabalho do cientista é totalmente voltado para neurociência e ele parte do princípio que os professores conhecendo um pouco mais do que ocorre no cérebro é possível trazer uma eficácia maior para o ensino.

O 3 por 4 de hoje traz um assunto palpitante, um cientista que se põe desafios, uma abordagem de dois grandes temas: a educação e a neurociência

Qual a relação da Engenharia Mecânica, onde o senhor se formou na graduação, com a Neurociência? O que lhe inquietou?

Eu acho que sempre tive uma paixão adormecida pela biologia, que eu não reconheci cedo. Quando estava no final do curso entrei em contato com a Neurociência e fiquei maravilhado com as possibilidades. Rapidamente  decidi que queria ir mais fundo e na época mais fundo significaria fazer uma pós-graduação. Foi isso que me motivou. Foi a paixão instantânea.

Nos seus estudos o senhor enveredou pela Neuroeducação. Explique melhor?

Ela é uma tentativa de unir duas disciplinas veneráveis do conhecimento humano. Educação é mais antiga na trajetória humana do que as Neurociências. Mas a Neuroeducação é uma tentativa de unir essas duas disciplinas e seus conhecimentos em prol do ser humano. Ambas lidam com o cérebro, só que até agora elas não tinham interagido muito. A partir de um tempo recente as pessoas conceberam essa falha e essa conversa começou. É uma conversa inicial porque, como toda nova disciplina, precisa passar por uma fase até meio conturbada, de acomodação inicial. Eu tenho vários projetos nessa área. Eu tenho alguns projetos de pesquisa. Um deles é focado nos atores principais desse processo educativo, que são os professores. Então é informar os professores sobre o cérebro. Então, nesse ponto, tenho atuado em duas frentes. Uma é na formação de graduação. Estou oferecendo duas disciplinas optativas no curso de Pedagogia. Uma é Neurociência básica no processo de aprendizagem. E a outra disciplina é Neurociência da Leitura. Então são essas duas disciplinas que ofereço na graduação sempre em par com alguém da área de pedagogia e as duas (disciplinas) tem sido um sucesso muito grande. Eu tenho tido retorno muito positivo dos alunos que fazem a disciplina. O outro projeto é em termos de formação continuada para os professores que estão atuando já no ensino. Eu ofereci há uns dois anos um curso de aperfeiçoamento em Neurociência para esses professores e vai ter uma edição brevemente desse curso.

O senhor parte do princípio que o professor precisa conhecer a Neurociência e entender o que ocorre com o cérebro do aluno?

Exatamente. A gente precisa ter noções básicas do cérebro para entender o sistema com que ele está atuando. Uma coisa básica, por exemplo, é com relação ao desenvolvimento  do cérebro. Ele passa por várias etapas de desenvolvimento essas etapas são muito peculiares em termos das características comportamentais associadas por elas. É muito importante que o professor conheça essas etapas para poder lidar com o aluno, de maneira mais informada e guiar melhor o processo de aprendizagem. Claro que isso não é novidade para Pedagogia, eles sabem disso das etapas de desenvolvimento da criança. Eles (os professores) sabem disso. Mas o que a gente está trazendo é uma abordagem das Neurociências, da ciência do cérebro. Mostrar para eles como isso ocorre no cérebro mesmo.

Esse seria um instrumento também para os professores entenderem as limitações dos alunos?

Exatamente. O professor entende que os cérebros são individualizados, os ritmos de desenvolvimento são individualizados. E ele (o professor)  aprende uma coisa mais importante ainda: ele aprende o potencial do cérebro. Um aluno que, por exemplo, parece limitado, na verdade a limitação decorre de um erro na maneira como você está lidando com o aprendizado daquele aluno. Outra abordagem poderia fazer com que ele florescesse de uma maneira mais adequada.

A Neuroeducação pode levar a uma exploração maior do próprio aluno?

Sim. Esse entendimento pode permitir com que o aluno desenvolva melhor o seu potencial. O potencial do cérebro é muito grande e já foi demonstrado que o ambiente onde o desenvolvimento ocorre é fundamental para que esse desenvolvimento floresça e gere frutos da melhor maneira possível.

Trazendo o seu estudo para realidade Brasil. Como o senhor concebe a aplicação nas escolas públicas do país, inclusive por esse momento delicado em que vive a educação brasileira?

Recentemente a gente teve uma notícia ruim que foi o resultado do este PISA, que é um teste internacional que avalia a educação de crianças em vários países do mundo. O Brasil está em uma posição pouco confortável. O teste PISA avalia basicamente leitura, matermática e ciência. Em todos estamos ruins. Desses, claro que todos são importantes, mas o que me deixa mais preocupado é a leitura porque ela (a leitura) é um catalizador para o aprendizado de todas as outras disciplinas. E esse estudo demonstra uma coisa que a gente já suspeita, que esse é o calcanhar de Aquiles da educação brasileira. Quando você compara os índices de leitura com os outros países que participam do teste de PISA, observa que há uma correlação muito alta entre a competência leitora e o índice de desenvolvimento humano desses países. Acho que é uma das chaves, um dos nós que temos que desatar na educação brasileira, que é a aquisição da competência leitora. E não apenas a leitura básica. A gente precisa formar leitores funcionais e que interajam com o texto de maneira rica e estamos longe disso ainda. Isso é um exemplo de como as Neurociências podem conversar com os outros atores que participam do processo de educação no Brasil para tentar entender o que está ocorrendo, buscar fazer um diagnóstico e propor soluções baseada em evidências científicas. A outra parte da minha atuação nas escolas é baseada nisso. A gente tenta entender e propor soluções para os problemas da escola brasileira baseada em evidência científica. A gente vai para escola, eu montei laboratório em um núcleo de cognição de uma escola aqui de Natal e aquele é nosso laboratório, onde a gente tenta entender os problemas e propor alguma solução.

Nesse laboratório que o senhor instalou na Escola Juvenal Lamartine, em Natal, o que o senhor já identificou de realidade posta e que tipo de solução propõe?

O problema da leitura a gente já identificou. Naquele universo, que é representativo do que ocorre em milhares de escolas no Brasil, é um problema crítico. E com relação a solução: estamos testando uma proposta nova para melhorar a alfabetização das crianças brasileiras. Temos uma parceria com o Ministério da Educação e estamos realizando na Escola Juvenal Lamartine. A partir desse estudo a gente pretende propor um método que poderá ser usado em qualquer escola do Brasil. É um método para alfabetização e também para o texto literário.

É uma mudança na forma de apresentação para alfabetização?

A alfabetização é focada em uma abordagem enativa no aprendizado das letras, ou seja, é um aprendizado que envolve a parte sensorial, como a da visão, por exemplo, quando você aprende as letras está olhando para elas. Mas também envolve o sistema motor. Isso é uma abordagem enativa. E também tem uma abordagem baseada em metáforas. A gente quer engajar a compreensão de texto a partir de uma abordagem metafórica. Os resultados têm sido muito bons. Usamos um critério científico para avaliar. A gente está há três anos com o laboratório na escola. Outro projeto que temos nesse laboratório é com relação a audição. Fizemos um diagnóstico da audição das crianças e observamos que o quadro de percepção auditiva dessa amostra na escola, que é representativa de outros, é muito crítico. Ou seja, existem muitas crianças que não aprendem porque não conseguem ouvir. Há um índice muito grande de crianças com problemas auditivos.

bate e volta

Neurociência e Neuroeducação: a neuroedução se insere na neurociência. O objetivo último da neurociência é entender o cérebro humano. Quando a gente entender o cérebro humano vamos ter resposta para várias perguntas básicas que nos acompanham há milênios. A neuroeducação é uma subdisciplina da neurociência e está envolvida nessa busca última de entender o que nós somos e contribuir para processo importantíssimo que é entender o que nós somos.

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Comentários

  • michelleporfirio

    Muito interessante!