Mulheres são 10% do mercado de construção civil no RN

Publicação: 2019-07-05 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Às 9h em ponto, a sala de aula do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) da comunidade de Pium, localizada no município de Parnamirim, já estava lotada. As 33 mulheres aguardavam para receber as notas da última prova e  começar a aula do dia, uma das últimas do curso de construção civil voltado para alvenaria do qual participam desde março.

Créditos: Magnus NascimentoA descoberta de novos talentos com o curso voltado para a construção, vem sendo incentivo para as alunas que já projetam outras atividadesA descoberta de novos talentos com o curso voltado para a construção, vem sendo incentivo para as alunas que já projetam outras atividades
A descoberta de novos talentos com o curso voltado para a construção, vem sendo incentivo para as alunas que já projetam outras atividades

Criado em uma parceria entre a Prefeitura de Parnamirim e uma empresa privada, a Mirante Empreendimentos, o curso tinha dois principais objetivos: capacitar as mulheres para trabalhar na área da construção civil e permitir que, ao final do curso, elas pudessem ser contratadas para trabalhar no próximo empreendimento da empresa, de 1.072 unidades habitacionais no município.

A ideia do curso, explica a gestora de qualidade da Mirante, Faíse dos Santos, veio a partir da observação do desempenho das próprias mulheres que já estavam na empresa. “Na administração a gente já tinha um grupo feminino bem grande e a gente viu que o desempenho era muito bom. Conhecendo a competência, o planejamento e o senso de responsabilidade que muitas dessas mulheres tinham para esses serviços, pensamos: por que essas habilidades não são aproveitados em todas as áreas?”, relata a gestora.

No mercado da construção civil brasileiro, apenas 9,9% dos trabalhadores eram mulheres, de acordo com dados da Relação Anual de Informação Social (RAIS) de 2016. O número, apesar de pequeno, é o mais alto que já foi registrado de participação das mulheres nesse setor no país, e vem crescendo anualmente. Em 2006, 7,1% das mulheres compunham o contingente total de trabalhadores do ramo. Nos anos seguintes, o número oscilava sempre entre os 7% e 9%.

No Rio Grande do Norte, os números estão um pouco acima da média nacional: das 30.550 pessoas ocupadas na área da construção civil em 2017, 3.276 (10,7%) eram mulheres, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Créditos: Magnus NascimentoGestora da empresa, Faíse dos Santos, fala sobre a iniciativa de incluir as mulheres no setorGestora da empresa, Faíse dos Santos, fala sobre a iniciativa de incluir as mulheres no setor
Gestora da empresa, Faíse dos Santos, fala sobre a iniciativa de incluir as mulheres no setor

Mirante e Prefeitura, então iniciaram uma parceria: a empresa entraria com a parte técnica das aulas, e a Prefeitura cederia o espaço e de uma série de palestras voltadas para a conscientização sobre direitos, saúde e mercado de trabalho para as mulheres.

“A procura surpreendeu. Foram 100 mulheres inscritas, que foram passando por várias etapas, seleções... essas mulheres que estão aqui hoje têm uma grande identificação com a área, e muita vontade de aprender sobre tudo”, relata a vice-prefeita do município e também secretária municipal de assistência social, Elienai Cartaxo.

A turma é diversa: são mães, donas de casa, mulheres jovens com formação em outras áreas mas desempregadas, pessoas que nunca se imaginaram atuando na área da construção civil. Em comum, dividem o entusiasmo pelos temas estudados e a curiosidade sobre todas as etapas necessárias à construção.

“Eu vi o curso nas redes sociais e achei algo muito novo. Com a falta de emprego que estava tendo, eu achei que era uma oportunidade diferente, e estou me descobrindo aqui em todos os aspectos.”, conta Ruth Rochelle, de 27 anos. Originalmente formada como técnica de enfermagem, Ruth estava com dificuldade em encontrar emprego. “Me diziam que eu não estava mais na fase do primeiro emprego e precisava de experiência. Mas ninguém queria contratar para dar a experiência”, conta.

Ela viu, no curso, uma alternativa para poder juntar dinheiro e comprar equipamentos para se especializar na sua área original. “Quero trabalhar, juntar dinheiro, comprar um computador para poder estudar, me qualificar, e aí quem sabe conseguir um na minha área. O que é mais incrível disso tudo é que eu acabei descobrindo que eu gosto também da construção.”, conta. 

O gosto pela construção também acabou sendo descoberto por Amanda Paiva, de 34 anos. “A gente não tem o conhecimento de como é feito todo esse processo. Nesse curso a gente aprendeu a ter outros olhos, outra visão, saber como funciona tudo. Tudo é interessante, novo”, diz Amanda. Hoje, ela trabalha fazendo bicos, principalmente como “motogirl”.

“Me encanta porque a gente tem um olhar diferenciado. Estou aprendendo como as coisas funcionam e não só isso: como fazer da melhor forma para o meio ambiente, com cuidado, com um olhar que acredito que a mulher acrescenta à área, e não subtrai”, completa.

Fora da sala de aula, no entanto, o ambiente não é tão acolhedor. Todas as mulheres relataram já terem ouvido comentários desencorajadores, de parentes, amigos ou conhecidos sobre o curso. “Todas as pessoas para quem eu falo que estou fazendo esse curso recebem a notícia com surpresa: “mas você é mulher! Como assim?" Mas a resistência sou eu mesma, não dou ouvidos, e até indico, dizendo que seria um aprendizado muito bacana para todos”, afirma Iara Carolina, de 25 anos.

Natural da Colônia de Pium, o primeiro contato de Iara com a área da construção civil foi quando ela e seu marido trabalharam para construir a própria casa. “Nunca imaginei que pudesse chegar a fazer um curso, me especializar. Hoje, vivo animada aguardando pelas aulas práticas”, conta Iara.

“Eu fui acompanhando a construção da nossa casa e via aquilo ali como uma obra de arte. Estava há três anos fora do mercado de trabalho, porque tenho três filhos pequenos, e comecei a me interessar por aquilo”. Depois que acabar o curso, Iara conta que tem a ideia de utilizar os conhecimentos adquiridos para empreender. “O terreno que temos é grande, e pretendo ganhar dinheiro futuramente fazendo um condomínio nesse espaço. Quero aprender mais e usar esses conhecimentos pra empreender, produzir”.

Turma se envolve em apoio mútuo
Se todas ouvem comentários desencorajadores do lado de fora, dentro da sala de aula há uma rede coletivo de apoio entre as mulheres. “A gente se cuida e se ajuda muito. Quando alguém chega e diz que uma não pode fazer, a gente vai lá dizer a ela que ela pode. Pra todo mundo aqui isso é novidade, é uma descoberta nova por dia, e é muito especial poder se sentir parte disso”, diz Ruth.

“Foi por isso que vimos que não fazia sentido apenas oferecer a capacitação para essas mulheres, mas também dar oportunidade para que elas ingressem no mercado, nas diferentes áreas da construção”, conta titular da SEMAS, Elienai Cartaxo. Após uma seleção, as mulheres interessadas vão ser contratadas pela Mirante Empreendimentos mas, de acordo com Elienai, a ideia é que elas estejam aptas a trabalhar em qualquer lugar.

Ao receberem as notas da última prova do curso, de segurança do trabalho, a alegria na sala foi geral: nenhuma nota abaixo da média, muitas notas 10 distribuídas. “Agora vamos pensar os próximos passos. Muitas disseram que têm interesse na área da pintura, então vamos pensar um curso de pintura e reboco. Elas têm muitas ideias e já disseram que pretendem continuar”, diz Faíse dos Santos.