Mulheres na música independente

Publicação: 2019-07-10 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Repórter

Vive-se uma época de crescente protagonismo feminino na sociedade brasileira. É um movimento que está nos mais diversos segmentos, inclusive o artístico. O sentimento é de avanço, mas nem sempre é possível ter dados reais que mostram de fato a maior presença de mulheres em lugares de destaque. Na música, especificamente na cena independente, um recente levantamento joga luz sobre a presença feminina na programação de importantes festivais do Brasil. O estudo é da produtora cultural Thabata Arruda e foi publicado no início de julho na revista digital Zumbibo, do Selo Sesc.

Créditos: DivulgaçãoAna Morena está à frente do Festival DoSol como idealizadora e produtora executiva, acredita que é preciso pensar no equilíbrio, apesar do meio musical ser masculinoAna Morena está à frente do Festival DoSol como idealizadora e produtora executiva, acredita que é preciso pensar no equilíbrio, apesar do meio musical ser masculino
Ana Morena está à frente do Festival DoSol como idealizadora e produtora executiva, acredita que é preciso pensar no equilíbrio, apesar do meio musical ser masculino

Segundo o trabalho, que analisou 76 festivais entre os anos de 2016 e 2018, observa-se que a participação feminina em cada um dos três anos (seja como solistas ou em bandas formadas só por mulheres) não ultrapassa margem de 20%. Isso considerando a soma dos festivais, porque se o olhar for isolado em cima de alguns eventos, a realidade é que tem programação montada sem sequer uma única atração feminina (solista ou banda só com mulheres), como é o caso do Abril Pro Rock de 2018, em Pernambuco, e o Goiana Noise de 2018, em Goiás.

MADA e DOSOL, os dois principais festivais de música independente de Natal estão no levantamento. No ano passado, o Mada somou 38% de participação “solista” de mulheres na sua programação. Foi, conforme a pesquisa, o terceiro festival com mais participação feminina, ficando atrás do Popload (SP), com 44%, e Vento Festival (SP), com 41%. Neste mesmo ano o Dosol somou pouco mais de 10%. Se for observado as atrações com formação mista (com pelo menos uma mulher no grupo), o Dosol obteve 40% de sua programação com atrações nessa categoria. O Mada, por sua vez, obteve pouco mais de 50%.

Se for analisado os anos anteriores, vê-se que os dois festivais potiguares deram menos espaço para as mulheres. Em 2017, o Mada teve quase 30% de atrações femininas, e o Dosol esteve na casa dos 10%. Em 2016, a realidade foi bem mais difícil: menos de 10% de solistas femininas tanto no Mada quanto no Dosol.

Segundo a reportagem da Thabata Arruda, a carência da representatividade feminina nos eventos estudados tem sua raiz na “estrutura do mercado musical”, que, ainda segundo a autora, é “historicamente operado através das mãos e decisões de homens, em sua grande maioria”.

Nesse sentido, Thabata vê como essencial iniciativas que abram espaço para artistas mulheres dentro do mercado da música, seja no âmbito da educação musical ou incentivando a apresentação no palco. “Negar o espaço da mulher dentro do ambiente artístico, criativo e técnico nos coloca e mantém no lugar da invisibilidade. Algo histórico, mas totalmente reversível”, diz a autora da pesquisa.

O VIVER ouviu os responsáveis pelos dois festivais locais para saber o que eles acham do cenários atual e saber como eles montam suas programações. Também foi ouvida a produtora e musicista Camila Pedrassoli, proprietária, junto com Juliana Furtado, da Guria, uma das mais importantes produtoras de palco do Rio Grande do Norte, para saber como é a realidade por trás dos palcos.

Jomardo Jomas*
Festivais como o Mada tem uma responsabilidade junto ao seu público e a sociedade de abrir espaço à diversidade. E juntando isso tem o fato de que hoje temos uma cena com inúmeras mulheres com trabalhos maravilhosos. Então não podia ser diferente na hora de pensamos a programação com essa forte presença feminina. E além da programação hoje temos nossa produção sendo tocada por 80% de profissionais mulheres, desde a montagem, produção, marketing e direção.

Créditos: Lenart VeríssimoJormardo Jomas, fundador e produtor do Festival MADAJormardo Jomas, fundador e produtor do Festival MADA
Jormardo Jomas, fundador e produtor do Festival MADA

Sem duvida as mulheres conquistaram mais espaço na produção nos últimos 20 anos, mas desde o início tivemos uma forte presença feminina em todas as áreas do festival Mada e esperamos que esses espaços cada vez mais se ampliem e que reverberem em outros setores da sociedade.

Ana Morena**
Ano passado o Dosol teve as duas noites encerradas por mulheres (Céu e Letrux) e várias outras artistas passaram pelo palco. Também nos preocupamos em termos muitas mulheres na equipe técnica. Mas é uma luta diária e árdua para equilibrar a representatividade feminina em todos os setores da nossa sociedade. Então nos festivais não é diferente. Se tem uma banda foda com mulher e uma banda foda só com homens, ambas com disponibilidade de agenda, nem se preocupe que a nossa escolha vai ser pela banda com mulher. Só assim a gente vai começar a equilibrar isso.

No entanto, mesmo com esse foco é difícil programar de uma forma equilibrada porque o ambiente da música ainda é muito masculino. Mas temos paciência. Eu vi uma matéria falando que atualmente mais de 50% dos compradores de guitarra são mulheres. Então há esperanças. E em Natal temos umas das cenas com mais mulheres que tenho visto quando viajo por aí. É uma maravilha e só tem aumentado.  Em Natal vamos bem e é só o começo.

*Fundador e produtor do Festival MADA
** Idealizadoras e produtora executiva do Festival DOSOL








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