Mulheres representam 35% dos doadores de sangue no RN

Publicação: 2020-01-17 00:00:00
A+ A-
Yuno Silva
Repórter

Doar sangue não leva mais de 15 minutos, cada doador ajuda a salvar até quatro vidas, e ao contrário do que muitas pessoas pensam: doar sangue não dói o tanto que imaginam. “Para não dizer que não dói, dói só na hora da furada da agulha; depois para. Faço minha doação em 10 minutos, sem dor. Sempre foi muito tranquilo e o pessoal aqui no Hemonorte atende muito bem”, tranquiliza a estudante Taynah de Souza Gomes, 22, que desde criança tinha vontade de ser doadora. Vale frisar que o organismo repõe todo o volume de sangue doado nas primeiras 24 horas após a doação.

Créditos: Adriano AbreuNas festividades, como carnaval, as doações tendem a cair quando há maior necessidadeNas festividades, como carnaval, as doações tendem a cair quando há maior necessidade
Nas festividades, como carnaval, as doações tendem a cair quando há maior necessidade

Ela é doadora desde 2017, lembrou que o pai já precisou de sangue, e disse que dessa vez veio doar sangue para uma pessoa específica: um  amigo da igreja que está em tratamento contra um câncer. “Sinceramente acho um ato muito lindo, super importante. E se a pessoa está bem de saúde e tem condições, por que não ajudar outras pessoas?”, questionou.

Taynah faz parte de um grupo cada vez mais relevante para a manutenção do banco de sangue disponível no Rio Grande do Norte: as mulheres. Em 2017 elas representaram 24% dos doadores do Hemocentro Dalton Cunha, mais conhecido por Hemonorte. No ano seguinte esse índice passou para 29%, e em 2019 35% das doações foram feitas por mulheres.

“Considero uma grande conquista. Trabalhamos bastante nesse sentido (de atrair mais doadoras) nos últimos quatro anos, e tivemos um crescimento significativo diante da predominância histórica de doadores homens”, avaliou Miriam Mafra, chefe da Divisão de Serviço Social do Hemonorte.

Miriam informou que o nível de sangue disponível no órgão que coordena a política pública de sangue e hemoderivados no Estado muda todos os dias: “A quantidade de sangue no estoque varia todos os dias, e um nível seguro é começarmos o dia com 1 mil bolsas (de 450 ml cada) de sangue de tipos sanguíneos diferentes”, explicou. Para evitar que o estoques caiam, o Hemonorte permanece em constante campanha para incentivar as doações.

Na última quarta-feira (15), quando a reportagem da TRIBUNA DO NORTE visitou o Hemonorte, o estoque estava assinalado como “Adequado” com uma disponibilidade de 650 bolsas no meio da tarde. “É um estoque bem dinâmico, e trabalhamos para manter um patamar de adequado para seguro. Só para a urgência e emergência do Hospital Walfredo Gurgel enviamos cerca de 100 bolsas de sangue por dia para atender a demanda”.

Além de “adequado” e “seguro”, são utilizados outros dois marcadores para identificar o nível do estoque de sangue e hemoderivados: “mínimo” e “crítico”. “Se o estoque chegar a crítico, abaixo de 200 bolsas de sangue disponíveis, podemos dizer que o Hemonorte está na UTI”, destacou a chefe da Divisão de Serviço Social do Hemonorte.

Queda
De maneira geral, a maior necessidade de doação de sangue se concentra nos períodos de feriados prolongados, e eventos maiores como as festas de Natal e Ano Novo, Carnaval e férias. “Nesses períodos há uma baixa, em média, de 30% no número de doadores. Isso em todos os hemocentros no País. Por isso o Hemonorte promove campanhas anuais nesses períodos, para trazer as pessoas e evitar que essa baixa seja sentida nos estoques”, pontou Miriam Mafra.

Para doar sangue o voluntário preciso ter idade a partir de 18 anos, e ter peso a partir de 50 kg. No dia da doação é preciso estar bem alimentado, descansado e ter dormido bem; o doador não pode ter ingerido álcool nas últimas 12 horas. Após a doação não se deve fazer esforço, beber muito líquido e não ingerir bebidas alcoólicas. Em média os homens podem doar sangue até quatro vezes por ano, e as mulheres três vezes por ano.

A partir da segunda doação o doador recebe uma carteirinha que permite meia entrada em eventos culturais e esportivos, e isenção de taxa em alguns concursos públicos. O doador ainda pode solicitar atestado médico no dia em que for doar sangue. Se a doação for para alguém específico, p doador deve informar o nome da pessoa e em que hospital ela está internada.

O protocolo para lidar com doadores LGBT está sendo revisto, e Miriam Mara ressalta que a orientação é para que todos os candidatos e candidatas a doar sangue sejam avaliados da mesma forma: o atendimento padrão passa por assistente social, exames básicos para verificar sinais vitais (pressão, temperatura, peso e se há sinais de anemia), mais entrevista e avaliação médica.

Rede pública é abastecida pelo Hemonorte
Para o Hemonorte dar conta da demanda por sangue no RN e garantir sua distribuição no Estado, foi estruturada uma 'hemorrede' que potencializa as doações e facilita o acesso da população. Essa hemorrede é formada pela coordenação central que fica na sede do Hemocentro em Natal, que fica na Av. Alexandrino de Alencar; mais dois hemocentros reginais funcionando em Mossoró e Caicó; e outras duas Unidades de Coleta e Transfusão (UCT) em Pau dos Ferros e Currais Novos.

Todo o sangue coletado em qualquer unidade do Hemonorte passa por avaliação antes de ser disponibilizado a quem precisa: exames laboratoriais de sorologia garantem a segurança do sangue ao identificar possível presença do vírus HIV/Aids, e de doenças como sífilis, hepatite e Doença de Chagas, entre outras verificações. Os exames levam cerca de três dias para serem concluídos.

Miriam Mafra, chefe da Divisão de Serviço Social do Hemonorte, informou que o órgão fornece sangue e hemoderivados para toda a rede pública de saúde do RN. “Nossa missão é abastecer de sangue toda a população do Estado, temos que ter o suficiente para cobrir 100% dos leitos do Sistema Único de Saúde (SUS). Também fornecemos para instituições hospitalares privadas caso for solicitado”.

A maior demanda por sangue é nas urgências e emergências dos hospitais; em segundo lugar estão as pessoas que tem algum problema hematológico como os hemofílicos, pacientes em tratamento de câncer e que fizeram transplantes.

O Hemonorte também coordena o cadastro de pessoas interessadas em se candidatar a ser doador de medula óssea. “O número de doadores de medula tem melhorado bastante no RN, nossa meta é cadastrar 6.6 mil pessoas por ano. Mesmo o procedimento sendo comumente realizado sem riscos, ainda existe tabu e receio em torno da doação de medula óssea. De todo modo a cota do RN foi superada em 2019: tivemos 7,6 mil cadastrados”, comemorou Mara.

Ela explicou que é possível se candidatar a ser doador de medula óssea pessoas com idade entre 18 e 55 anos, e que o nome do candidato fica cadastrado no banco de dados nacional do Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea) até ele completar 60 anos.

Unidade móvel
O Hemonorte possui uma unidade móvel, que circula em Natal por pontos determinados: todas as terças-feiras a coleta volante acontece no Partage Norte Shopping; toda segunda quarta-feira de cada mês a unidade móvel estaciona no Shopping Cidade Jardim, zona Sul de Natal; e na primeira quinta-feira de cada mês a coleta é feita no Shopping Via Direta. Em Parnamirim a unidade está toda última quarta-feira do mês em frente à Central do Cidadão. É necessário uma equipe de 16 pessoas para colocar a unidade móvel do Hemonorte na rua, de motoristas, eletricista e pessoal de serviços gerais a médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e assistentes sociais.

“A unidade móvel traz acessibilidade ao doador, e funciona a partir de parcerias”, disse Mirim, lembrando que o 'caminhão de sangue' também promove coletas quinzenais em frente à Catedral Metropolitana, na Av. Deodoro.

Depoimentos:

Renato Queiroz, 31, empresário
Veio doar para um parente de terceiro grau que está em tratamento contra um câncer. “Primeira vez que venho doar, vim por ter alguém precisando. E dependendo de como seja, se for  tranquilo, volto para contribuir com algo que considero muito importante”.

Ruan Nepomuceno Souza, 23, técnico em enfermagem
Veio ajudar um amigo da igreja que está em tratamento contra um câncer. “Essa é a terceira vez que estou doando sangue. Acho importante, um ato positivo, e se estou com saúde e posso ajudar outras pessoas não tem por que não doar”.

Priscila Nascimento Silva Santos, 22,estudante
Vai doar sangue para a amiga de uma amiga minha: “Acho muito importante. E agora que fiz o cadastro aqui no Hemonorte vou ficar vindo fazer minha doação. É muito gratificante poder ajudar a salvar vidas”.

Flávio Bezerra Rodrigues, 32, motorista de aplicativo
Doador de primeira viagem, Flávio admite que não gosta de agulha mas acha importante. “Se não doer pretendo me tornar doador constante. Acho que todo mundo deveria ser doador, pois ninguém sabe a hora que vai precisar”.