#MulheresNoEsporte: Virando o jogo

Publicação: 2019-03-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Anthony Medeiros, Ícaro Carvalho, Milka Moura
Repórteres

Lugar de mulher é onde ela quiser. Essa, sem dúvida, é uma das frases que ganhou novos contornos nos últimos anos para justificar a luta feminina nas diversas áreas do cotidiano: profissões, lugares, gostos, jeitos. Se elas tiveram as mesmas dificuldades para conseguir seus espaços em várias áreas da vida, no esporte não foi diferente. Nas arquibancadas, nas quadras, nos gramados, nos tatames. Ver a mulher num lugar que ainda é considerado para homem já passa a ser visto de outra forma pela sociedade. Na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, celebrado neste 08 de março, a TRIBUNA DO NORTE conta três histórias de mulheres potiguares que praticam esporte. São histórias de superação, sonhos, dificuldades, quebra de barreiras, mas principalmente, de como o desporto mudou suas vidas.

No entanto, antes de chegar aos dias atuais, em que a razão entre a participação das mulheres com os homens nos Jogos Olímpicos já beira os 45%, segundo dados oficiais do Comitê Olímpico Internacional (COI) na edição Rio 2016, o processo para a aceitação das mulheres no esporte foi longo e árduo. Para se ter uma ideia, nos Jogos Olímpicos, elas só participaram na segunda edição, em 1900, em Paris, com apenas 22 mulheres. Curioso para as modalidades, tênis e golfe, esportes "belos" e sem contato físico. A tenista britânica Charlotte Cooper se tornou a primeira mulher campeã nos jogos.

No Brasil, a entrada das mulheres nos Jogos também demorou: apenas em 1932, em Los Angeles, com a nadadora paulista Maria Lenk, que não ganhou medalha, mas quebrou ainda outro tabu por ter sido a primeira mulher sul-americana a participar da competição. As primeiras conquistas só viriam em Atlanta, 1996, com Sandra Pires e Jaqueline Silva (ouro) e Adriana Samuel e Mônica Rodrigues (prata), numa disputa inédita na final do vôlei de praia. O primeiro ouro em prova individual só veio em 2008, em Pequim, com Maurren Maggi no salto em distância. Do RN, mulheres como Magnólia Figueiredo, Virna, Joana Neves, Thalita Simplício, Edênia Garcia, Rildene Fonseca, Ana Raquel, Terezinha Mulato, entre outras, foram algumas potiguares que participaram da maior festa esportiva do planeta.

No futebol, esporte em que até os dias atuais as mulheres sofrem por falta de visibilidade e apoio, a primeira Copa do Mundo só foi acontecer em 1991, nos Estados Unidos. No Brasil, elas só puderam jogar futebol em 1979. Antes, um decreto do Governo Vargas, datado de 1949, proibia a "prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina". Ainda no país do futebol, o tradicional Campeonato Brasileiro só passou a ter a presença delas em 2013, com os clubes de futebol até hoje relutando em criar os departamentos femininos. Para 2019, será obrigação dos 20 clubes da Série A manter um time, adulto e de base, para participar do torneio.

Se com o passar dos anos a situação parece ir melhorando aos poucos, é porque mulheres quebraram barreiras, superaram obstáculos e ultrapassaram a linha de chegada para conquistar seu espaço no esporte. Conheça agora três histórias, de gerações e situações diferentes, de potiguares que lutam, sonham e principalmente, estão no mundo esportivo porque querem, podem e almejam chegar longe.

Futebol:
Clara Salviano, 26 anos

Lá vem a bola. A menina de cabelo preso logo recebe e domina com a perna direita, a sua de preferência. Logo se vê cercada por outras colegas de profissão, mas não se intimida: se desvencilha da jogada e encontra uma companheira. É o começo de uma rotina que se repete três vezes por semana. O fundamento serve para que as jogadoras entendam melhor o espaço em que se encontram e saibam ser objetivas e eficazes com a posse da pelota. A menina em questão é Clara Salviano, camisa 10 do Cruzeiro de Macaíba, que carrega no rosto a simplicidade e as marcas de uma mulher que escolheu o futebol e o esporte como profissão.

Clara Salviano

Natural de Lajes, Oeste potiguar, Clarinha, como é chamada pelas amigas, joga futebol desde criança. Aos 8 anos, no quintal da avó, começou a dar os primeiros dribles e chutes ao lado da irmã gêmea e da prima, passando a competir em torneios de futsal pelo colégio, posteriormente. Se em casa o apoio dos pais foi imediato, Clarinha logo teve de trombar com os zagueiros naturais que a vida colocou à sua frente.

"Porque até então nós jogávamos com meninos. Nos metemos lá no meio deles e batemos o pé: a gente quer jogar. Tinham aqueles que apoiavam, outros que não. Outros ficavam bravos quando a gente conseguia dar um drible neles também. Ficavam bravos por levar drible de uma mulher", relembra.

Depois de dar os primeiros passos com a pelota no futsal, Clara conseguiu bolsas de estudo em um colégio particular no Ensino Médio, em Natal, para jogar futsal. Morando há dez anos na capital, atualmente está terminando Ecologia na UFRN, ao passo que joga futebol e outros derivados do esporte bretão, como fut-7 e futebol de areia, todos esses, representando a universidade.

Por jogar todos esses torneios, Clarinha Salviano é enfática: "Eu vivo falando que as melhores coisas que eu consegui foram através do futebol. Pude conhecer pessoas e realidades diferentes, pude conhecer um mundo diferente através de tudo que o futebol me ofereceu", conta.

Se o futebol já lhe deu tantas oportunidades, atualmente não está sendo diferente: Clarinha vai disputar a Série A2 do Campeonato Brasileiro Feminino, com início no final deste mês, pelo Cruzeiro, atual campeão estadual. Se para uma jogadora de futebol não titubear na frente das adversárias é praticamente uma regra, Clarinha quer continuar driblando o machismo e aproveitar mais essa chance que a vida coloca na sua frente.

"Eu já vi homens falando que mulher não sabe jogar futebol, que mulher não é para aquilo.  Mas, como dizem, né? Lugar de mulher é onde ela quiser".



Halterofilismo:
Terezinha Mulato, 47 anos

“Minha vida começou aos 10 anos, quando comecei a andar. Andar só não era suficiente, então também queria nadar e voar. Hoje eu olho para trás e vejo que conquistei tudo o que quis. Por isso mesmo não quero deixar de sonhar nunca”. A frase é forte e é de uma das principais atletas do esporte potiguar. Aos 47 anos, Terezinha Mulato se orgulha em ser a primeira mulher halterofilista do esporte brasileiro e segue se preparando para novos desafios, sem colocar prazo para o fim da vitoriosa carreira.

Terezinha Mulato

A demora para começar a andar se deu pelo fato de Terezinha ter contraído poliomielite aos três anos de idade. Quando deixou a cama, aos dez anos, aprendeu os movimentos e passou, a partir daí, a dar os primeiros passos. Ela não só andou, como passou a demonstrar cada vez mais independência para fazer o que quis, quando quis e como quis. Ela não só nadou, como venceu seus traumas após quase morrer afogada, se tornando campeã de um regional de natação três meses após ter aprendido a nadar. Ela não só voou, como, através do esporte, viajou por países de todos os continentes levando o nome do Brasil graças ao seu desempenho no esporte.

A sua estreia nas competições de halterofilismo veio no mundial da categoria de 1997, disputado na Inglaterra, terra de uma das principais inspirações de Terezinha: a princesa Diana. A medalha de ouro veio mesmo com pouco tempo de dedicação à modalidade. Ali surgia a sensação de que uma vitoriosa carreira estava se desenhando. Hoje, Terezinha tem 22 anos no esporte e se atreve a eleger um só momento como o principal em meio a uma trajetória tão rica.  “Rio 2016, sem dúvidas. Eu não saberia se estaria lá, então treinei o máximo que pude e quando a confirmação veio, não segurei minhas lágrimas. Porém, eu nunca imaginei que sentiria o que eu senti lá naquelas Paralimpíadas. Gente do meu país torcendo por mim, me dando força. Sem dúvidas, foi a melhor sensação que o esporte me deu”, diz, emocionada.





Descrever tudo e não se emocionar é inevitável e mostra uma Terezinha humana, que abre totalmente o coração ao falar dos dois filhos. “Queria seguir a carreira e formar minha família e graças a Deus deu tudo certo. Meus filhos são meu tesouro, minhas principais conquistas”.

A preparação, agora, é para a uma competição internacional em julho, no Cazaquistão. Também é objetivo da potiguar conquistar uma vaga no Parapanamericano do Peru, disputada em agosto. Em meio a tantas conquistas, parar não é sequer cogitado. “Atleta que é atleta não tem limite e eu não enxergo o meu. Aprendi a conviver com a dor e vejo que isso faz parte do meu processo para se tornar uma atleta melhor”, diz.

Ginástica rítmica:
Maria Eduarda Moraes, 13 anos

O barulho da música ecoa em todo o ginásio. A canção é acompanhada por movimentos que visualmente alcançam a perfeição. A voz firme e precisa das treinadoras é o único som que ultrapassa a melodia. Elas corrigem e repetem cada movimento da atleta Maria Eduarda Moraes, de 13 anos, que treina como se não estivesse sendo corrigida a cada instante. Uma pausa para correção. Sem frustração. A música recomeça e tudo é repetido. A ginástica rítmica é uma modalidade esportiva que une movimentos corporais ao balé e à dança teatral.

Maria Eduarda Moraes

Logo cedo, os pais sentiram a necessidade de introduzir a filha a um esporte, mas foi o destino que juntou seus caminhos à ginástica rítmica. Com seis anos, ela começou e, hoje com 13, e estudante do 9º ano do ensino fundamental, é a grande inspiração da categoria no RN. Em 2014, ela foi campeã do regional Nordeste na categoria pré-infantil; em 2016 foi campeã no Estadual Infantil e, logo depois, conquistou a medalha de bronze no Campeonato Brasileiro na categoria Infantil, em Manaus. Ela também foi campeã brasileira na categoria infantil nos aparelhos arco e bola, e também conquistou o Pan-americano de Clubes em Rosario, Argentina.

Recentemente, Dudinha foi classificada para participar do Campeonato Mundial Juvenil em Moscou, na Rússia, que ocorrerá em Julho. A ginasta também participará do Pan-Americano de Ginástica Rítmica, previsto para o mês de junho. Duda faz parte da Associação de Ginástica (Aginat), que é uma instituição sem fins lucrativos que sobrevive do sonho de garotas ginastas e do apoio financeiro dos pais.

Todos os dias, a estudante treina após as aulas, o que dá em torno de quatro horas de treino, que são complementadas com aulas de Balé e sessões de fisioterapia. A rotina intensa quase não deixa espaço para outras atividades. Dudinha relata os sacrifícios que já fez em nome das vitórias, mas sem nenhum arrependimento. “São muitas renuncias, eu quase nunca saio com meus amigos, o foco é 100% na ginástica. Mas vale a pena”, diz a jovem ginasta.

 A história de Maria Eduarda se une com a da sua treinadora, Gilmara Lira, que a acompanha desde quando ela ainda tinha seis anos. “Maria Eduarda foi minha primeira ginasta a competir em campeonatos brasileiros e, desde o primeiro momento, teve bons resultados. Nós fomos crescendo juntas. Eu sinto muito orgulho de tudo que a gente construiu”, conta. A determinação da adolescente camufla sua pouca idade, e é isso que a mantém focada nos seus objetivos. Eduarda revela que o maior sonho de sua carreira é representar o Brasil em uma olimpíada. Quem a vê praticando, não tem dúvidas que ele se tornará realidade.
















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