Mundo-livro

Publicação: 2017-09-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves
Doutor em literatura e professor da UERN

BOB DYLAN, “Letras 1961-1974” (2017, Cia. das Letras, 648 páginas)

Na discussão se letras de canção pop sobrevivem sem o instrumental, o Nobel de Literatura 2016 (talvez um “mea culpa” do prêmio nunca ter ido para os beats, influência confessa de Dylan) vem colocar mais oxigênio no ar já poluído dos puristas. O original em inglês veio em volume único (1961-2012), mas aqui sai versão bilíngue em partes. Dylan surge com um lirismo forte desde sua estreia em 1962 (só havia duas canções autorais) e logo passa ao patamar de clássico do rock, com o hino da geração sessentista “Blowin’ in the wind” (do 2º disco dele aos 21 anos!) ou a catarse presente em “The-times-they-are-changing”, respectivamente, traduzidas como “Sopra no vento” e “Os tempos estão mudando”. Se a trilha sonora passeava pelo folk, blues, rock e country, os temas ora íntimos ora sociais que Dylan aborda são contumazes em seu olhar crítico. Ele conta estórias pouco comuns, seja ela o trágico episódio real de racismo em “A morte de Emmett Till” ou o irônico “Com Deus do nosso lado”, narrando sobre o período da Guerra Fria. O tradutor Caetano Galindo – Prêmio Jabuti por “Ulysses” (James Joyce), co-autor da tradução-livre-em-excesso de Lou Reed (“Atravessar o fogo”) – preferiu o sentido do texto, evitando as rimas (por vezes necessárias e possíveis em português) e a tradução perde muito do original. Ainda bem que há os discos com a voz anasalada de Dylan atravessando décadas, provando que a canção pop é, sim, obra de arte.

ELI DE ARAÚJO, “Poema-rio” (2016, Sol Negro, 532 páginas)

ELI DE ARAÚJO, “Poema-rio” (2016, Sol Negro, 532 páginas)

Escritas entre 1979 até 2014, as centenas de páginas precisam de fôlego extra para a leitura. Oficialmente desde “Vale feliz” (1991) – ele assinava Eli Celso até data recente –, os versos do natalense “cidadão do mundo” passeiam por temática místico-indagatória, por uma obsessão pela morte e pela passagem do tempo (temas milenares, diga-se de passagem), além do uso vocabular de linhagem filosófica. São nove obras aqui reunidas (todas sem reedição, como assim são os potiguares) e mais uma parte de “Inéditos (1979-2001)”, além de entrevista amistosa e textos sobre o poeta. Porém, não é obra completa, ficando de fora “Driftings, rotations & translations” (1999), escrita em inglês (!). Transitando do haicai abrasileirado ao poema em ritmo de prosa, da composição curta ao texto anti-verbal, o verso livre é carro-chefe, mas os intermitentes experimentalismos são de baixo impacto, reciclando a hoje utópica (palavra de um de seus criadores) Poesia Concreta. A compilação deve ser lida com parcimônia, como diz o eu lírico dele: “E como não sei duelar/ Sento nos fins de tarde/ E adelgaço o sol/ Contra contas de vidro”. De entonação intimista (e surreais como “Uma mulher” ou “Minha terra”), porém longe do sentimentalismo semi-pastoril impregnado na poesia potiguar em pleno século XXI, aqui estão múltiplas cartas de saída (comece pela obra “Muro/deriva”, de 2014) e algumas de perdição neste extenso rio poético.



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