Museu de Arte do Rio é inaugurado

Publicação: 2013-02-28 00:00:00
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Camila Molina/AE

Sobre os dois prédios que formam o novo MAR - Museu de Arte do Rio, na Praça Mauá, uma gigantesca superfície ondulada e branca, feita com 800 toneladas de concreto, remete a um pedaço fluido do oceano. A cobertura de 1,7 mil m², sustentada por 37 pilares, é marca arquitetônica da instituição cultural carioca que será inaugurada nesta sexta-feira (1) com a presença da presidente Dilma Rousseff e autoridades; no sábado (2), para convidados; e na terça-feira (5) para o público. Foram cinco anos de trabalho, dois anos de obras e reformas, para estruturar o museu que coloca lado a lado a arte e educação, como dizem seus organizadores. De um lado, o Palacete D. João VI, de 1916, é o complexo expositivo, com oito salões; do outro, um edifício da década de 1940 abriga a Escola do Olhar.
De um lado, o Palacete D. João VI, de 1916, é o complexo expositivo; do outro, um edifício da década de 1940 abriga a Escola do Olhar
“Podem nos cobrar depois”, diz o diretor cultural do MAR, Paulo Herkenhoff, sobre fazer um projeto intricado de arte e educação. “A gente tem de acreditar nos sonhos, pensar grande e o intelectual tem de fazer alianças com pessoas que podem potencializar os devaneios. Para mim, a questão básica, hoje, do museu é qual o lugar da arte na esfera pública. E quem responde a isso não são os órgãos públicos, não é o Estado, um partido político, uma burocracia, é a sociedade. O que os professores universitários esperam de um museu como instituição acadêmica?”, continua o diretor e curador-geral do MAR. A primeira meta da instituição é receber 600 mil alunos da rede de ensino da cidade em três anos.

Entretanto, o Museu de Arte do Rio nasce não apenas com seu mote conceitual, mas, fisicamente, superlativo. Além de ser inaugurado com quatro exposições de peso, já conta com 3 mil obras em seu acervo, mil livros de artistas, 5 mil livros em sua biblioteca, 5 mil peças de memorabilia e documentos históricos sobre o Rio, 42 fundos de doadores que já cederam ou vão ceder, diretamente, como pessoas jurídicas, empresas ou instituições, peças para a coleção do MAR (não em forma de comodato).

“Não vai ser um acervo eclético, mas enciclopédico”, afirma Herkenhoff. A coleção vai se formar a partir de “núcleos significativos” dedicados à iconografia sobre o Rio de Janeiro, cultura afro-brasileira, memória da escravidão, abstração geométrica, artes decorativas e livros. Artistas, entre eles, Adriana Varejão e Claudia Jaguaribe, também já doaram obras para a instituição, que conta ainda com peças de criadores estrangeiros como Louise Bourgeois e Sol LeWitt, por exemplo. “A vinda do Paulo Herkenhoff articulou essas doações”, diz Hugo Barreto, diretor-geral da Fundação Roberto Marinho, que concebeu o MAR a pedido da Prefeitura do Rio. Inicialmente, a instituição seria inaugurada em junho do ano passado.

“É o primeiro museu do município”, completa Barreto - a Fundação Roberto Marinho também está realizando as obras do Museu da Imagem e do Som (MIS) carioca e do Museu do Amanhã na zona portuário do Rio, com projeto arquitetônico do espanhol Santiago Calatrava. Para estruturar o MAR, com seus dois edifícios heterogêneos, foram convidados os arquitetos brasileiros do escritório Bernardes + Jacobsen Arquitetura. O palacete, tombado pela prefeitura desde 2000 e onde funcionava o Departamento de Portos do Rio, curiosamente, havia sido comprado pelo ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira antes de falir. Já o outro prédio abrigava em seu piso térreo a antiga rodoviária da cidade A cobertura fluida de concreto que os une, “como uma metáfora”, foi feita a partir de tecnologia considerada caso único no Brasil. Era tão complexo fazer a ondulação do concreto que, como conta Barreto, escultores da escola de samba Salgueiro ajudaram a fazer os moldes da obra em isopor.

No total, foram gastos R$ 76 milhões para realizar o MAR, sendo que R$ 62 milhões desse montante remetem a recursos diretos da Prefeitura do Rio. O museu vai ser gerido pela Organização Social Instituto Odeon, selecionada por meio de edital público. O orçamento anual da instituição ficará em torno de R$ 24 milhões, metade cedido pelo município e o restante a ser captado através da Lei Rouanet, diz Hugo Barreto. A equipe do MAR é formada por Paulo Herkenhoff, Luiz Fernando de Almeida, ex-presidente do Iphan, convidado a ser o diretor-executivo do museu; e por Janaina Melo, ex-Instituto Inhotim e responsável pelo educativo da nova instituição carioca.

MAR integra arte e educação

O projeto original do MAR previa que o museu se dedicaria a apresentar coleções de arte importantes. Duas das mostras inaugurativas indicam esse perfil, O Colecionador — Arte Brasileira e Internacional na Coleção Boghici (do marchand Jean Boghici, que teve seu apartamento incendiado no Rio) e Vontade Construtiva na Coleção Fadel, com preciosidades brasileiras - como um belo conjunto de Alfredo Volpi - do acervo constituído pelo advogado Sérgio Fadel e por sua mulher, Hecilda. Essa diretriz inicial pensada para o museu vai se diluir para que o MAR se firme mais à vertente da arte e educação. O diretor da instituição assina, ao lado de Roberto Conduru, a curadoria da mostra com cerca de 250 obras da Coleção Fadel. A exposição traz os highlights do concretismo e neoconcretismo brasileiros representados por criações de Lygia Clark, Sergio Camargo, Oiticica.

“O Rio é muito frágil no trabalho com educação”

Com experiência museológica desde a década de 1970, em sete instituições, entre elas, a Funarte e o Museu Nacional de Belas Arte, Paulo Herkenhoff, que também foi o curador-geral da 24.ª Bienal de São Paulo em 1998, diz que com o MAR foi “posto para voar”.

O que o amarrava nas experiências anteriores?
A burocracia, a pequenez das pessoas e a falta de empenho. Para mim, a questão básica, hoje, do museu é qual o lugar da arte na esfera pública. O MAC-USP, desde o Walter Zanini, é para mim o modelo de museu como instituição acadêmica para pensar a arte e não para fazer evento. No MAR, não estamos interessados em eventos, mas trabalhar o processo. A inscrição da arte na esfera pública e de novas possibilidades, e uma delas é a educação. O que um professor do ensino fundamental precisa e o que ele quer? Os professores são a chave do ensino. A Prefeitura do Rio tem 1.067 escolas, vai construir mais 200, temos de estar juntos nesse processo.

Como analisa a envergadura do projeto do MAR?
Nosso museu é vinculado à educação, temos a Escola do Olhar. O Rio é muito frágil no trabalho da educação nos museus. Estamos trabalhando com uma ideia de que devemos atender a população carente de uma maneira ampla e individualizar a experiência e mais uma vez o professor é chave. Digo que doar para o MAR é doar para a educação.