Museu de Cultura Popular renova acervo para pouco mais de 2 mil peças e amplia diálogo com o Nordeste

Publicação: 2019-10-31 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Em 11 anos de existência, o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão teve seu acervo ampliado de 1600 peças para pouco mais de 2 mil, segundo números atuais da Fundação Capitania das Artes (Funcarte). Tudo de autoria de artistas e artesãos potiguares – e referenciais do folclore local. A Funcarte quer ampliar ainda mais esse acervo. Na verdade qualificar, já que o foco curatorial nem é tanto na quantidade, mas na busca por peças significativas, abrindo do recorte local para o regional.

Créditos: Magnus NascimentoAlém da aquisição de peças de artistas do nordeste, a mais recente novidade no Museu de Cultura Popular é a reunião de diversos bonecos ao estilo João Redondo e MamulengoAlém da aquisição de peças de artistas do nordeste, a mais recente novidade no Museu de Cultura Popular é a reunião de diversos bonecos ao estilo João Redondo e Mamulengo
Além da aquisição de peças de artistas do nordeste, a mais recente novidade no Museu de Cultura Popular é a reunião de diversos bonecos ao estilo João Redondo e Mamulengo

De acordo com Dácio Galvão, diretor da Funcarte, já foram adquiridas três esculturas do artista Edilson Lopes, do Piauí: uma Maria Bonita, um Lampião e um Luiz Gonzaga, todos feitos em monobloco de madeira. “São obras que representam a escultura típica do Piauí. Começamos investindo nesse estado, mas vamos visitar toda a região Nordeste”, diz Dácio, que informa também ter obras representativas do Maranhão em negociação. “Não vamos adquirir muitas peças. A ideia é mostrar um diálogo com o que é produzido aqui”.

Alguns obras de artistas locais também foram adquiridas recentemente: uma xilogravura de Dona Militana, feita por Erik Lima, e uma pintura à óleo de Fabião das Queimadas, feita por Fábio Eduardo. Em negociação há uma cerâmica com a imagem do repentista e violeiro potiguar Severino Ferreira, feita pela artista Regina Guedes. Outro artista com obras em negociação é o bonequeiro Raul do Mamulengo. Ele está com uma exposição de seus bonecos de João Redondo montada no Museu.

Africana e ameríndia
Dácio lembra ainda que outras obras deverão entrar no acervo por meio de prêmio aquisição, a partir dos editais voltados para os segmentos de Matriz Africana e Ameríndia, Povos e Comunidades Tradicionais, e Arte e Cultura Popular. Segundo o diretor, até dezembro todas as novas aquisições devem estar devidamente alocadas no Museu, conferindo ao espaço uma repaginada na exposição – em vigor desde a inauguração em agosto de 2008.

“Tirando pequenas alterações, a exposição é praticamente a mesma desde a inauguração do Museu. Mas porque foi uma montagem muito bem feita, resultado de uma grande pesquisa e que contou com a colaboração de historiadores, museólogos, antropólogos, arquitetos, fotógrafos. É algo sem igual no estado, nosso acervo é o maior e mais abrangente do RN. O Museu é referência no Nordeste. Para o projeto, visitamos espaços com foco em Cultura Popular em Pernambuco, Bahia, Paraíba, Maranhão. Foi um trabalho enorme”, comenta Dácio. Além das novas peças, ele prevê melhorar o Museu com a reconsideração do aspecto multimídia e a revitalização da galeria Chico Santeiro, no Térreo, que deve ganhar exposição de arte primitiva (naif).

Lojinhas
O diretor da Funcarte também adianta que há uma proposta de requalificar as lojinhas que existem na parte térrea do Museu – lanchonetes e o ponto de venda da Natalcap, mas a maior parte está desoculpada. “Pensamos em fazer também uma rearticulação, via Secretaria de Serviços Urbanos, com as lojinhas da parte de baixo. Não há diálogo com o museu. Vamos tentar que pelo menos funcionem como um ambiente de acolhimento para os visitantes, com café, posto de informações turísticas”, argumenta. Para ele, o Museu Djalma Maranhão tem muito a oferecer à Natal. “O aspecto da identidade pode ajudar a vender a cidade. E nesse sentido o Museu precisa ser mais introjetado na corrente sanguínea de Natal”.

Acervo e visita guiada mas falta acessibilidade
Dentre as principais críticas daqueles que visitam o Museu Djalma Maranhão, está a falta de acessibilidade, já que o acesso se dá apenas por escada. Outro problema é a ausência de placas informativas sobre os diferentes setores, peças e artistas da exposição, além da falta de sinalização sobre onde é a entrada do museu. Também se questiona o não funcionamento dos equipamentos multimídia na exposição, e o calor na sala expositiva, uma vez que os ar-condicionados estão com defeito. Dos pontos positivos que se comenta, é o bom atendimento da visita guiada.

Créditos: Magnus NascimentoBonecos de Raul do Mamulengo estão em exposição no museu. O MCP também negocia obras do artista para o acervoBonecos de Raul do Mamulengo estão em exposição no museu. O MCP também negocia obras do artista para o acervo
Bonecos de Raul do Mamulengo estão em exposição no museu. O MCP também negocia obras do artista para o acervo

Diretora do Museu há pouco mais de um ano, a historiadora Graça Cavalcanti explica que a instalação de novos ar-condicionados já foi solicitado e está em processo. Sobre os equipamentos multimídia, ela conta que raramente são utilizados pelos visitantes, mas que, embora não estejam funcionando, o material está disponível para ser acessado para pesquisa no auditório.

O setor multimídia da exposição, onde eram exibidos documentários sobre Cultura Popular, atualmente está sendo utilizado para montagem de exposições temporárias. A mais recente é dedicada ao artista potiguar Raul do Mamulengo, representante vivo da tradição dos bonecos de João Redondo. À Mostra estão cerca de 100 peças, dentre bonecos, jaraguás, boizinhos e outros. Também recente é a mostra fotográfica do Grupo Araruna, com fotografias do acervo do Museu. Outro ponto dinâmico é a vitrine do painel de entrada da exposição, que a cada mês dá destaque a uma peça diferente do acervo.

Novas exposições
Graça conta que a partir de novembro e até o final de janeiro, novas exposições serão montadas no Museu, atraindo novos visitantes. Serão as exposições viabilizadas pelos editais de  Matriz Africana e Ameríndia, Povos e Comunidades Tradicionais, LGBTQI+ e Arte e Cultura Popular.

“Temos um fluxo de visita satisfatório. Nosso público principal é o das escolas, depois turistas, tanto brasileiros como estrangeiros. Semana passada veio um pesquisador americano que está estudando o Zambê. O raro aqui são os natalenses. A população vem muito pouco e muitos nem sabem que aqui funciona um museu”, comenta a historiadora. Ela tem longa relação com o Museu. Foi estagiária no primeiro ano de funcionamento do equipamento. “Precisamos muito melhorar a divulgação. Por exemplo, até hoje não temos redes sociais, que por decreto só pode ser feita pelo setor de comunicação da prefeitura. Com mais comunicação poderíamos divulgar melhor as ações que estamos sempre realizando no Museu e informando melhor a população sobre as curiosidades do acervo”.

O que
O Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão foi inaugurado em 22 de agosto de 2008, implantado na parte superior da Rodoviária Velha, na Ribeira. Está aberto ao público de segunda à sexta, das 8h às 17h. Seu acervo é composto de elementos da religiosidade local, do teatro de bonecos, brinquedos populares, esculturas, literatura de cordel, pintura naif, arte sacra e arte naval, representações dos quatro Autos Populares (Boi, Chegança, Fandango e Congo), representações da Lapinha, Pastoril e Caboclinhos, além de instrumentos das danças populares, desde o Zambê, de Tibau  do Sul, até a Sociedade Araruna, em Natal, tudo produzido por artistas e artesãos potiguares. Há também dezenas de horas de vídeos documentários sobre o folclore local e seus personagens.







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