Música perde o talento de Dosinho

Publicação: 2014-03-14 00:00:00
Yuno Silva
repórter

Momento de saudade e muitas lembranças durante o velório de Claudomiro Batista de Oliveira. Aos 87 anos, Dosinho, o mais famoso compositor não-pernambucano de frevos e marchinhas, foi sepultado na tarde desta quinta-feira no Cemitério Morada da Paz, em Emaús, onde seu corpo também foi velado. A despedida do artista, nascido em Campo Grande (RN), reuniu amigos, familiares e admiradores. A viúva Lauridete Benício de Oliveira, com quem Dosinho foi casado por 45 anos, manteve-se firme durante todo o velório. “Ele viveu intensamente. Viveu bem, como quis, e nunca deixou de fazer planos. Nunca se acomodou, não parava de escrever. Quero que lembrem dele sempre com muita alegria”, tranquilizou.

Dosinho passou 21 dias internado na UTI do hospital Promater, devido problemas renais e respiratórios. Estava em coma desde o dia 27 de fevereiro e faleceu às 4h40 de ontem. O cantor e compositor deixou esposa e dois filhos, Claudomiro Júnior e Isis Benício. “Ele nunca tinha tido um problema sério de saúde até outubro do ano passado, quando apresentou quadro de insuficiência renal.

“Dosinho era um grande compositor, dos melhores, e uma grande pessoa. Nós que ficamos temos que segurar a batuta, senão ‘doido também apanha’”, disse o músico Carlos Zens, parafraseando uma das principais marchinhas de Dosinho. Durante o velório, Zens tirou de sua flauta um breve pout-pourri de “Não se faça de doido não” e “Doido também apanha”. O flautista lembrou que Dosinho “atravessou os tempos, viveu um período de boa música ao lado de grandes compositores e intérpretes, e entrou para a história.

“A principal lembrança que temos de Dosinho era de sua alegria. Nos conforta ele ter vivido bem e intensamente”, disse a cantora Valéria Oliveira, que esteve no velório e considera o compositor de clássicos carnavalescos como “Eu não vou, vão me levando”, “Doido também apanha”, “Carnaval com Bin Laden”, Dólar na cueca” e “Não se faça de doido não” uma espécie de padrinho. “Dosinho foi nosso padrinho no projeto (CD) ‘Sem perder o passo’: ele nos levou para lançar o disco no Recife e participou dos shows aqui em natal. As músicas deles sempre fizeram parte do meu repertório”, acrescenta.

Para Valério Mesquita, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RN, Dosinho “é um patrimônio música potiguar e regional”. O presidente da Academia Macaibense de Letras, Cícero Macedo, lembrou que Dosinho tinha uma relação forte com Macaíba e casou com uma “filha” de lá. “Foi uma grande figura. É uma perda grande para a música, para a poesia e para a cultura do RN”.

A pesquisadora musical Leide Câmara, amiga da família, concluiu um trabalho de organização de todo o acervo que Dosinho acumulou ao longo de 59 anos de carreira, e garante que há muita coisa inédita para mostrar: “Planejávamos lançar um livro, com sua história e todas as letras de suas 168 composições. O trabalho foi concluído e ele ficou muito surpreso com o tanto de material que conseguimos reunir”, informou Leide, emocionada.

A pesquisadora identificou 168 composições e 250 gravações feitas não só pelo potiguar mas por nomes conhecidos como Antônio Nóbrega, Alceu Valença, Elba Ramalho, Claudionor Germano e Agnaldo Rayol – a clássica “Eu não vou, vão me levando”, por exemplo, teve 12 versões. No RN, Paulo Tito, Galvão Filho, Valéria Oliveira, Isaque Galvão e Expedito Baracho engrossam a lista de artistas que interpretaram as composições de Dosinho, que também é autor dos hinos oficiais do times de futebol ABC e Alecrim, e de um hino não oficial do América.

De acordo com Leide, ele também criou cerca de 200 jingles para campanhas políticas, fez o hino do Rotary Natal e o tema do projeto “De pé no chão também se aprende a ler”, iniciativa do prefeito Djalma Maranhão (1915-1971), de quem Dosinho era amigo. Contemporâneo dos pernambucanos Capiba (1904-1997) e Nelson Ferreira (1902-1976), Dosinho era o derradeiro entre os antigos compositores de frevos e marchinhas em atividade. O potiguar começou sua carreira na década 1940, no Rio de Janeiro, onde trabalhou na Rádio Nacional e na Gravadora Copacabana.