Na era de ouro da música

Publicação: 2018-09-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Nas primeiras décadas do século XX, Natal tinha mais de 20 mil habitantes, era uma pequena cidade provinciana, mas, curiosamente, a elite local tinha grandes aspirações modernas. Essas aspirações se refletiam nas transformações do espaço urbano, nos comportamentos e na cultura. Era a nossa Belle Époque tardia mas de grande efeito. Foi nesse período, por exemplo, que se viu a literatura ganhar espaço nas rodas de conversa, os cinemas se multiplicarem e a música clássica ditar a trilha sonora.

No início do século XX, Natal viu nascer uma geração de instrumentistas de destaque internacional, algo que nunca mais se viu na mesma proporção. São nomes como Nany Devos, Ítalo Babini, Waldemar de Almeida, Mário Tavares e Aldo Parisot, este último completa hoje cem anos de vida
Fábio Pregrave  • Violoncelista e professor da UFRN

Falando especificamente da música, Natal viu nascer naquele ambiente uma geração de violoncelistas de destaque internacional, algo que nunca mais se viu na mesma proporção – não importa a época ou região do Brasil. Nany Devos, Ítalo Babini, Aldo Parisot, Mário Tavares e Waldemar de Almeida Jr., jovens que aprenderam os segredos do violoncelo na capital potiguar e que cedo partiram da cidade para espalhar seus conhecimentos para o mundo.

Por trás de todos esses talentosos músicos existe um professor italiano: Thomaz Babini (1885-1949). Ele desembarcou em Natal em 1907 e zarpou para Recife em 1941. Mas sua estadia na terra potiguar foi suficiente para fazer história. Uma história que intriga estudiosos da música clássica, como o carioca Fábio Presgrave, violoncelista e professor da Escola de Música da UFRN.

Há 10 anos morando em Natal, ele tem feito um trabalho importante de resgate da memória da geração de ouro do violoncelo potiguar. Uma das ações em prol desses mestres é o ciclo de homenagens que une bate papos e concertos temáticos. Em anos anteriores já foram lembrados Ítalo Babini (1928-), Nany Devos (1925-1995) e Mário Tavares (1928-2003). O próximo homenageado é Aldo Parisot, que completou 100 anos de vida ontem (29). O evento, a VIII Mostra de Violoncelos de Natal, será entre os dias 12 e 16 de novembro.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Pregrave falou sobre um lugar no tempo e espaço que não sai da sua cabeça: a Natal da maior geração de violoncelistas que o Brasil já viu nascer.

Pupilo de Mário Tavares
Mário Tavares foi maestro da Orquestra Petrobrás Sinfônica, no Rio de Janeiro. Foi o primeiro regente com quem trabalhei. É um dos grande maestro da história do Brasil e causou um impacto grande na minha vida. Dei sorte de começar com alguém de nível altíssimo. Eu sabia que ele era potiguar. E quando decidi vir para a Escola de Música da UFRN, eu já sabia que no RN tinha alguma coisa diferente.

A curiosidade
O que sempre me deixou curioso foi saber como o [Thomaz] Babini, ao chegar em Natal em 1907, uma cidade pequena, conseguiu formar músicos de uma maneira que nunca mais se conseguiu formar na América do Sul. E isso sem internet e telefone. Sempre achei essa história fantástica. Estudando, cheguei a algumas respostas.

Respostas para o milagre da geração de ouro
O Babini teve um ambiente que o acolheu muito bem. Não só pelo governador Alberto Maranhão, mas pelo professor Severino Bezerra também [pai da Nany Devos].  Outro fator é que Babini era um músico muito completo. Tocava violoncelo e piano muito bem. Também era professor de teoria. Era uma figura holística, disposta a tratar de vários aspectos. É um perfil que não existe mais. Hoje em dia o professor de música é especializado em uma coisa apenas. O Babini não. Sozinho era uma escola completa. Foi assim que ele fez um milagre. Segundo o Parisot, o Babini foi o melhor professor de música que já existiu no mundo. Mas outras questões são difíceis de entender, como o alto nível que os alunos dele atingiram. É algo superior a qualquer coisa que o Brasil já conseguiu produzir.

Aldo Parisot
Estudei em Nova Iorque na mesma escola em que o Parisot é professor. Era um nome comentado. Mas só vim conhecê-lo melhor, ele e o irmão Ítalo Babini, quando cheguei em Natal. Tenho contato com os dois. Eles acompanham com muito carinho o movimento de ressurgimento do violoncelo em Natal. Parisot é um nome do cello que qualquer artista da música clássica conhece, independente do instrumento.  Assim que cheguei em Natal fui atrás de conhecer sua história. É o maior artista potiguar vivo. Com 100 anos, está lúcido. Se não me engano, Aldo é o último colaborador do Villa-lobos vivo. E era um colaborador próximo.

Concertos de antigamente
Natal tinha um movimento de música clássica fortíssimo. E não era só cello. Tínhamos grandes pianistas da escola do Waldemar de Almeida. Por exemplo, o Oriano de Almeida. Tinha também o irmão do Mário Tavares, o outro irmão do Parisot, que era violinista. O TAM era um dos lugares mais movimentados. Na última vez que o Ítalo veio a Natal, a gente encontrou nos arquivos do Teatro um programa de quando ele se apresentou lá com 13 anos. Mas, segundo o historiador Cláudio Galvão, outro lugar muito usado para concertos era o salão nobre do Palácio do Governo, hoje a Pinacoteca.

A cultura dos concertos de câmara
O concerto de câmara, de formação menor, como quarteto de cordas ou trio [violino, violoncelo e piano], é considerado o ápice do refinamento. Hoje em dia a gente não tem mais essas formações profissionais em Natal. Temos grupos na universidade, mas de viés acadêmico. Quando a gente olha para o passado você vê o ambiente cultural que tínhamos na cidade. Era um negócio assustador. Natal tinha até uma revista de música com participação de Câmara Cascudo. Era algo fascinante. Lamento termos perdido aquela movimentação.

O violoncelo como símbolo musical de Natal
A comunidade precisa ter orgulho do seu patrimônio imaterial. Quando a cidade tem algo muito forte, é legal se conectar a isso. O violoncelo é um exemplo. O renascimento do cello em Natal é interessante, porque já atrai gente de todo o Brasil pra Natal. Atualmente na Escola de Música da UFRN têm 37 alunos de violoncelo matriculados nos cursos regulares, fora os cursos de iniciação. Diego Paixão, que começou num projeto social na Zona Norte, entrou pra UFRN, estudou na França, Alemanha, hoje é um dos melhores violoncelista do Brasil e faz um trabalho lindo como coordenador artístico da Atitude Cooperação, uma Ong no Bom Pastor.

Novos gerações de cordas
Nas cordas, em Natal só foi surgir um movimento de novo lá para os anos 70, quando veio Osvaldo D'amore. E nessa época, foi preciso importar músicos porque não existiam na cidade. A orquestra do RN hoje é fruto do trabalho desses estrangeiros que ensinaram um monte de gente e formaram a orquestra. Foi um movimento sem ligação com o que teve antes. Agora os menino da nova geração já vem fruto de uma nova filosofia. Que surge com o crescimento absurdo da Escola de Música. Temos que cuidar bem dessa geração. Não queremos uma nova diáspora. Esses meninos estão começando a despontar no Brasil e no exterior. Seria uma pena não tê-los tocando na cidade, atuando nos projetos sociais.

Evitar a diáspora dos músicos
O dilema da gente agora é saber o que fazer com a nova safra de jovens músicos excepcionais de Natal. Tirando as apresentações na Escola de Música, que faz parte da produção acadêmica deles, não há agenda para eles na cidade. É preciso abrir mercado para eles. Senão, vai ser o que? A gente produziu esses músicos para que ele partam? É uma política boa deixar eles irem embora? Porque eles não vão ficar aqui se não tiver espaço. São músicos fantásticos que a população local poderia estar assistindo tocar. O meio profissional da música precisa se consolidar. Ter mais opções. Ter orquestras em Mossoró, formações de câmara em Caicó. Isso muda as cidades.

Lugar inspirador
Os instrumentistas do Nordeste têm um talento absurdo. E alguns são autodidatas. Sobre Natal, apesar da transformações da cidade, ainda acho que aqui um lugar inspirador. Tem talentos excepcionais. A geração nova está ai pra provar isso. Da música popular tem caras que poderiam ser mais lembrados, como Tico da costa e seu irmão João Salinas, que transitava pelo erudito com uma facilidade incrível. Natal realmente tem algo especial que mexe com os músicos.


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