Não dê milho aos pombos

Publicação: 2017-12-31 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Tádzio França
Repórter

Os pombos fazem parte da paisagem urbana de quase todas as cidades do mundo. São animais bonitos, simpáticos e que simbolizam a paz. Mas, apesar de toda “fofura”, essas aves também carregam transtornos que podem se intensificar ainda mais no verão. Os meses entre setembro e março costumam ser os mais propícios à proliferação de pragas urbanas nas cidades, devido ao tempo quente e úmido que facilita a reprodução desses animais. Apesar de não constituir uma epidemia,  a diversidade de doenças associadas aos pombos é grande, e exige atenção.

Higiene e bom senso ainda são as melhores iniciativas para evitar infecções e ter uma relação harmoniosa com os bichinhos. A dica para evitar contato com fezes é eliminando abrigo e alimento
Higiene e bom senso ainda são as melhores iniciativas para evitar infecções e ter uma relação harmoniosa com os bichinhos. A dica para evitar contato com fezes é eliminando abrigo e alimento

Os pombos geram preocupação pela sua forte presença nas cidades. Circulam por praças abertas e movimentadas onde costumam ser alimentadas pelas pessoas, e também se beneficiam do lixo acumulado nos locais. Fazem seus ninhos em telhados, forros, caixas de ar condicionado, torres de igrejas, e marquises, onde deixam seus dejetos. Em Natal, lugares como a Cidade Alta e Neópolis registram os maiores focos – e há relatos de vários outros espaços localizados na capital.

“As aves em geral possuem fezes muito ricas em nitrogênio, o que as tornam substratos para fungos e variadas infecções”, afirma o infectologista Kleber Luz. A grande quantidade de fezes que os animais deixam nos pontos urbanos onde ficam concentradas,  se não forem limpas, podem ressecar sob o calor forte, ter os resíduos levados pelo vento, e serem mais facilmente aspirados pelas pessoas. A inalação dos fungos pode ocasionar a criptococose, uma doença que atinge os pulmões, considerada a mais comum entre essas aves.

Kleber, no entanto, afirma que esse tipo de infecção só é mais suscetível entre pessoas que, por algum motivo, estejam com as defesas imunológicas baixas. “Quem está passando por algum tipo de tratamento e estiver vulnerável a infecções em geral, deve evitar ao máximo o contato com as fezes desses animais. Nessas condições elas são altamente contagiosas”, ressalta.

Lei Federal proíbe qualquer tipo de maus tratos a animais silvestres
Lei Federal proíbe qualquer tipo de maus tratos a animais silvestres

A criptococose é a doença mais conhecida ocasionada pelos pombos. Ela infecta primeiramente os pulmões, podendo se espalhar pelo organismo e causar um tipo grave de meningite. No começo parece qualquer gripe, mas pode piorar rápido. O tratamento é feito com o uso de remédios antifúngicos.

Há outras doenças que podem advir de pombos. Entre elas a salmonelose, causada pela ingestão de alimentos (geralmente frutas e vegetais) contaminados pela poeira das fezes secas; ácaros provenientes de aves e ninhos podem causar dermatites, erupções e coceiras semelhantes às de picadas de insetos; alergias (rinites e bronquites) ocasionadas pela inalação de penugens; histoplasmose, clamidioses, e até mesmo a toxoplasmose, doença mais associada aos gatos – ressaltando novamente que as moléstias atingem mais a pessoas de sistema imune enfraquecido, como grávidas, idosos e crianças.

Nunca alimente os pombos
Higiene e bom senso ainda são as melhores iniciativas para evitar infecções e ter uma relação harmoniosa com os bichinhos. “Os cuidados devem ser voltados ao manejo desses animais, principalmente no que diz respeito ao contato com as fezes”, ressalta Úrsula de Sousa, gerente técnica do Centro de Controle de Zoonoses. “Caso tenha existência de pombos é importante não deixar as fezes acumularem e, na hora de retirá-las, proteger o nariz e a boca com uma máscara e umedecê-las com água e depois limpá-las com água sanitária”, explica.

Úrsula ressalta que a dica é afastá-los, eliminando fatores de sobrevivência tais como, abrigo, água e alimento como uma maneira de prevenção de doenças. Entre outras medidas de controle, recomenda-se que ninhos e ovos sejam retirados de locais centrais; vedar buracos ou vãos entre paredes, telhados e forros; colocar telas em varandas, janelas e caixas de ar condicionado; não deixar restos de alimentos que possam servir aos pombos, como rações de cães e gatos; utilizar grampos em beirais para evitar que as aves pousem, e acondicionar corretamente o lixo em recipientes fechados. E a mais difícil de todas: nunca alimente os pombos.

Apesar de aparentemente conviverem bem com os humanos, os pombos não foram criados para viver naturalmente em espaços urbanos e populosos. “Eles precisam de água, alimento e abrigo, por isso acabam ficando perto da população, mas as grandes cidades não são os melhores ambientes para eles”, afirma Úrsula.

Os “petiscos” oferecidos pelas pessoas não são a alimentação ideal para os bichos, além de deixa-los viciados. Utilizar os procedimentos para desalojá-los dos espaços urbanos faz com que eles procurem locais mais adequados para viver, com alimentação correta e longe dos perigos das cidades. Estima-se que um pombo na cidade vice em média quatro anos, enquanto em seu habitat natural, essa marca pode chegar até 15 anos.

Sem violência
No entanto, Úrsula faz questão de ressaltar que o controle de pombos não deve jamais passar por atos violentos. A Lei Federal de Crimes Ambientais proíbe qualquer tipo de maus tratos a animais silvestres, nativos ou em rotas migratórias. “Há pena de multa para quem praticar algum tipo de violência contra os pombos, já que têm importância ambiental assim como outras aves”, ressalta. 

A gerente técnica do Centro de Zoonoses enfatiza que o uso de armas de fogo, envenenamento ou capturar os animais são medidas terminantemente proibidas. “O importante é a população ter consciência de que não devem alimentar os pombos para que eles tenham sua função na natureza e sua população permaneça controlada”, completa. Portanto, não oferecer abrigo, alimento e água já é um bom começo para evitar a presença e a fixação desses animais em determinados espaços.

Úrsula de Sousa conta que o Centro de Zoonoses costuma receber denúncias sobre focos de pombos em Natal, alguns já notificados como os bairros de Neópolis e Cidade Alta. Quando acontece essa identificação, os órgãos responsáveis costumam tomar iniciativas para o controle. “Nesses locais o Núcleo de Vigilância de Reservatórios e Animais Amplificadores atua de forma educativa, dando as devidas orientações aos moradores da comunidade”, diz. Ela ressalta que até o presente momento não houve notificações de doenças relacionadas à transmissão de pombos em Natal.


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários