Não se reprima

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter
Colaborou - Cinthia Lopes
Editora

O primeiro mandamento da dança é: não se reprima. Soltar o corpo é um processo que conduz a variados benefícios que conectam corpo e mente. O poder terapêutico da dança tem sido tão valorizado quanto suas vantagens físicas. O efeito que os movimentos possuem sobre as emoções podem auxiliar nos tratamentos de distúrbios mentais como a depressão, baixa autoestima, e outras questões emocionais. O salão é um divã onde o autoconhecimento se obtém passo a passo.
Aula de dança flamenca no Studio Corpo de Baile atrai público adulto, interessado em realizar um desejo antigo de dançar novos ritmos
Aula de dança flamenca no Studio Corpo de Baile atrai público adulto, interessado em realizar um desejo antigo de dançar novos ritmos (foto: Alex Régis)

A dança preenche um espaço significativo no cotidiano de quem a pratica. As escolas, academias e grupos de dança atestam que muitos integrantes procuram algo mais que   condicionamento físico. Segundo Ana Thereza Miranda, proprietária da escola Studio Corpo de Baile, as turmas para adultos são repletas de gente que está realizando um desejo antigo. “Certa vez tivemos filha, mãe e avó matriculadas. Boa parte dos adultos estão realizando uma vontade antiga que foi reprimida por vários motivos. Estão realizando um sonho”, diz.

A Studio possui turmas de balé clássico para adultos, uma modalidade geralmente voltada para crianças e adolescentes. A grande procura levou à divisão das turmas por níveis, do iniciante ao avançado. “E já que essas aulas não têm a motivação profissional, o direcionamento é outro. As pessoas praticam mais à vontade, elas relaxam”, diz. Alguns alunos fazem questão da sapatilha de ponta. E outros até optam por participar dos espetáculos de fim de ano da escola.  As aulas de flamenco também despertam as mesmas paixões que o balé clássico funcional.

Reeducar o corpo

A professora de dança Poly Lima dedicou seu trabalho de conclusão de curso à aplicação da chamada 'educação somática' à dança. São processos corporais que derrubam barreiras pessoais impostas pela dinâmica social repressora de movimentos. Ao longo da vida, muita gente acumula uma série de frustrações, tensões e bloqueios emocionais que a impedem de se expressar. A dança é capaz de reorganizar a estrutura do corpo, e entregar uma pessoa mais leve ao dia a dia. “A educação somática e o ensino da dança dialogam muito, potencializando os efeitos positivos”, afirma. 

Poly integra o grupo de dança Obará, que atua há nove anos no mercado, e opta por um ensino personalizado ou para turmas de no máximo dez pessoas. “Em nosso trabalho o que mais objetivamos é o reequilíbrio corporal do aluno através da conscientização corporal”, afirma. Esse equilíbrio inclui a melhora do condicionamento muscular e da frequencia cardíaca, aprimora a coordenação motora, alongamento, flexibilidade, alivia o estresse, estimula o convívio social, amplia concentração, e promove o bem estar.
Cely Medeiros comanda projeto de salão: “cura através da dança”
Cely Medeiros comanda projeto de salão: “cura através da dança” (foto: Célio Freire)

Para o dançarino Sérgio Santos, integrante do Obará, a dança a dois, em especial, é um elemento de combate à depressão pela dinâmica de convívio social que ela promove. “A pessoa precisa confiar nela mesma e no outro, portanto ela se entrega e mergulha em si”, diz. Ele ressalta que, sob a orientação do profissional, a dança aciona e melhora o campo afetivo, levando o indivíduo a compreender melhor seu íntimo. 

A prática também leva o aluno dançarino a superar outras barreiras, como a insegurança. “O adulto costuma ter vícios de corpo, então procuramos trabalhar isso individualmente. Levantamos o histórico corporal da pessoa, identificamos e analisamos as limitações para que saibamos superá-las. Corpo e mente são uma unidade”, afirma Sérgio.

Poly Lima ressalta que o corpo não é impedido de aprender a dançar. “Ele apenas pode não estar organizado para receber a dança, e prepará-lo é o que o profissional deve fazer. Todos podem dançar”. A produtora cultural Cely Medeiros promoveu na semana passada o projeto “A vida virou paixão, dance com emoção”, festa que resgata o glamour e a nostalgia dos bailes sociais entre o público mais maduro. “Estamos gerando cura através da dança. Há de fato um comprometimento com a saúde”, afirma.
Na Evidance, público se solta ao dançar forró, zouk e tango
Na Evidance, público se solta ao dançar forró, zouk e tango (foto: Rodrigo Sena/arquivo TN)

Demetrius Gonçalves, professor de dança há 22 anos, atesta que a busca pela mente sã é o que realmente enche os salões. Lecionando na Evidance, uma das mais procuradas academias de dança da cidade, o professor sabe pela convivência que boa parte dos alunos vem em busca da superação de alguma barreira íntima, seja depressão, timidez, tédio, ou preconceito. “A linguagem corporal nasce antes da verbal, e ela costuma ser reprimida. A dança pode liberar esse potencial”, explica.

 O professor afirma que a leveza proporcionada pela dança libera tensões e influi naturalmente nos aspectos fisiológicos, estimulando o corpo e melhorando a qualidade de vida.   Em Natal, o forró é a porta de entrada para a dança, ressalta Demetrius. “O forró é ecumênico, inclui todo mundo, tem as turmas mais cheias”, diz. Após o arrastapé, as outras modalidades mais procuradas são o samba, bolero e zouk. Este último, em especial, faz muito sucesso. “O zouk é um ancestral da lambada. Tem origem africana, é bonito, sensual, e trabalha braço, perna e abdômen. As pessoas se sentem felizes com ele”, analisa.

Salva pela dança

A dança resgatou a dona de casa Elita Silva, 56 anos, de um grave quadro de depressão ocasionado por questões de saúde e família. Ela conta que em 2010 o pai deixou o interior para vir tratar de um melanoma em Natal. “Lidei sozinha com ele, foi um período muito difícil”, diz. Em seguida, ela mesma adoeceu gravemente por ocasião de um cisto, foi preciso operar. Em 2011 o pai faleceu e ela mergulhou numa depressão profunda. “Perdi a motivação de viver. Fiquei nove meses dentro de casa, isolada, sem fazer nada”, conta.

Até que, por insistência de uma vizinha e amiga, Elita se matricula num grupo terapêutico de dança oferecido por um posto de saúde. “Foi a luz no fim do túnel. O amor que eu já tinha pela dança aflorou, e eu não parei mais. Voltei a ter uma motivação pra acordar no outro dia e viver”, conta. A partir daí Elite foi para outros salões, procurando cursos e turmas no Complexo Cultural da UERN, e no conselho comunitário de seu bairro.

Hoje Elita integra o grupo Vidarte e se apresenta com ele dentro e fora do Estado. “Já fui para o Mato Grosso com eles, e foi  uma das maiores alegrias da minha vida”, afirma. Ela dedica as segundas, quartas e sextas de sua semana à dança, e adora ritmos como samba, forró, zouk e bachata. Na festa “A vida virou paixão” recebeu um troféu e afirma que se sentiu “uma diva”. “Eu me sinto uma adolescente. Meu corpo é flexível e tenho mais disposição que muitos jovens. A dança levanta minha auto-estima e me leva pra frente”, conclui.


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