Cena Urbana - Vicente Serejo
Não tem sentido
Publicado: 00:00:00 - 15/09/2021 Atualizado: 23:12:35 - 14/09/2021
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Divulgação


Talvez o melhor jeito, o menos doloroso, se é que é possível enganar a dor, seja olhar os dias vividos como uma derrota de todos os brasileiros. Uma banda - partamos meio a meio para evitar desgostos - por protestar contra as instituições sem o apoio da outra; e, esta outra, por ver milhares de cidadãos fantasiados de patriotas apoiando um governo que mesmo eleito e consagrado nas urnas, arrasta a grande tragédia de ameaçar e até agredir os esteios da sociedade democrática. 

Nada é pequeno num país continental. Tudo é gigantesco pelo tamanho de suas dimensões físicas e humanas. O bem e o mal já nascem grandes, como a desgraça coletiva do Coronavírus e a tragédia cívico-populista do 7 de Setembro. De um lado, o que fica nos registros que a História amanhã vai contar é o uso da linguagem de disfarce dos que tentam explicar o inexplicável e vão aos píncaros da farsa e recuam em nome da pátria que vilipendiaram na festa do instinto bovino.    

Quando vi as bandeiras verde-amarelas drapejando nas ruas e avenidas desse Brasil dito inzoneiro, e mesmo bem lembrado da frase do inglês Samuel Johnson - ‘O patriotismo é o último refúgio do canalha’ - nem assim fui tão longe. Fiquei antes. Naquele Grande Ponto que tinha medo da ditadura militar e emprestava, com gestos discretos, quase nascidos de mãos escondidas, o livro de João Ubaldo Ribeiro - ‘Setembro não tem sentido’, lançado em 1968, sob o fogo das paixões.

Por isso, Senhor Redator, tento a pobre paráfrase como se fosse justo adaptar o belo título do romance de estreia de João Ubaldo. Ainda tenho meu exemplar, de 1968, de José Álvaro Editor, com as marcas do manuseio e a sujidade dos anos, como diziam os velhos alfarrábios. Com seu verde e amarelo diluídos e o título na forma de losango. Salvou-se do tempo. Hoje, a nova edição tem na capa o peito e as patas de um cavalo, outra metáfora de um setembro ainda sem sentido. 

E diga-se, Senhor Redator: ‘Setembro não tem sentido’ é a prova perfeita da precocidade e premonição de João Ubaldo Ribeiro e quem atesta é seu prefaciador, colega de colégio: Glauber Rocha, quem mais lutou para o livro ser publicado. Foi escrito antes de João Ubaldo completar 21 anos. Seu tempo narrativo dura apenas cinco dias - começa dia 3 e acaba no dia 7, entre marinheiros que cantam o Cisne Branco e os aviões da Força Aérea que sobrevoam a Bahia de Todos os Santos.  

O livro estava concluído antes de 1968 e chega aos olhos de uma crítica que demorou a perceber que ali nascia um escritor genial, deflagrador da moderna ficção brasileira contemporânea e que um dia escreveria seu Magnum opus - ‘Viva o Povo Brasileiro’. O Brasil vivia a véspera do AI-5, editado a 13 de dezembro de 1968. João Ubaldo escreveu: ‘O Brasil é um país heroico”. E depois, com o travo de sua fina ironia: “Quero a minha bandeirinha. Quero a minha bandeirinha”.  

VOLTA - A UFRN encerra agora em setembro o primeiro semestre e inicia o segundo dia 18 de outubro com aulas gradativamente presenciais. Foi um exemplo de cuidado ao longo da pandemia. 

‘NÃO’ - A presidência da Assembleia não vai interferir na condução das duas CPIs. Seria ferir a autonomia das comissões e, depois, cabe a quem propôs, mantê-las sob a serenidade e a firmeza. 

BONZINHO - Para quem ainda acredita no ‘bonzinho’ é bom não deixar de fazer a leitura do livro ‘Ser bom não é ser bonzinho’, do escritor e palhaço Cláudio Thebas. Uma edição da Paidós. 

BECO - Estão fechados os acessos ao Beco da Lama para as obras de reforma que farão daquela área um novo espaço de lazer, fortalecendo os seus frequentadores e também os seus comerciantes.
  
ALIÁS - O Beco vem sofrendo com os vândalos que picham a obra dos grafiteiros, inclusive o belo retrato de Câmara Cascudo. É preciso, pois, uma campanha de valorização do Beco da Lama. 

TRAIÇÃO - De um entrevistado da antropóloga Mirian Goldenberg na sua pesquisa feita sobre as agruras e os prazeres da infidelidade amorosa: “Sou fiel por preguiça: trair dá muito trabalho”. 

AVISO - Aos navegantes de todas as etiologias: esta coluna não nega o direito de se discutir a legalidade ou ilegalidade da prisão de Roberto Jeferson. Desde que seja na Justiça, como deve ser. 

DOR - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, com seu olho de lâmia: “O candidato a imortal é um fingidor, como disse Fernando Pessoa. Ele finge sentir a dor que deveras sente”.

MISSA - O discurso do padre e teólogo João Medeiros Filho, na missa de sétimo dia do ministro José Augusto Delgado, no Bom Jesus das Dores, refletiu, em nome da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, toda a grandeza humana desse homem culto que a nossa instituição perdeu.  

PARADA - Os moradores da Redinha reivindicam ao prefeito Álvaro Dias a construção de uma parada de ônibus, na Rua Central, de aceso geral à vila, com proteção contra o sol e a chuva. Os ônibus param em qualquer lugar por falta de um ponto de embarque e desembarque. Fica o registro.   

LULA - A Companhia das Letras anuncia para o dia 16 de novembro o lançamento da biografia ‘Lula’, de Fernando Morais, a mais aguardada história do líder popular que o autor considera como o mais longevo, depois de Getúlio Vargas. Com 416 páginas, em papel e Kindle. Valor R$ 74,90. 








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