Não tente esquecer, Melodia

Publicação: 2017-08-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter
Com informações da AEstado

Luiz Melodia desceu o Morro de São Carlos, berço do samba carioca, para mostrar ao mundo muito mais que samba – mostrou jazz, blues, soul, rock, chorinho, forró. Suas canções traziam um suingue refinado e poesia única, ora romântica, ora social. Tamanha riqueza sonora faz embaralhar a cabeça de quem tenta definir o artista que estourou nacionalmente já no disco de estreia, “Pérola Negra”, lançado em 1973 e que ainda hoje causa impacto.
Após mais de dez anos sem gravar, Luiz Melodia lançou Zerima” em 2014. Aimagem marca o show de gravação do DVD ano passado, ainda não lançado
Após mais de dez anos sem gravar, Luiz Melodia lançou Zerima” em 2014

Afastado dos palcos desde que iniciou a luta contra um câncer de medula óssea, descoberto em julho de 2016, Melodia faleceu na sexta-feira (4), no Rio de Janeiro, aos 66 anos. Seu corpo foi velado na quadra da Escola de Samba Estácio de Sá e o enterro estava marcado para acontecer na manhã de sábado, no Cemitério do Catumbi. O artista deixa a esposa, a também cantora e compositora, Jane Reis, e dois filhos, Mahal e Hiran.

Artistas de todo o Brasil receberam a notícia da morte de Melodia com muita tristeza. “Morreu um dos maiores poetas do Brasil. Ele foi uma das trilhas musicais da minha obra e da minha vida", disse, por exemplo, a dramaturga Maria Adelaide Amaral. Nas redes sociais, nomes como Djavan, Zeca Pagodinho, Gilberto Gil, Ed Motta e Maria Gadú também fizeram homenagens ao músico carioca. O cantor e compositor deixou um DVD que deve ser lançado em breve e planejava a volta aos estúdios mesmo enfrentando diversos problemas de saúde nos últimos anos.

Influências locais

Ao VIVER, o músico potiguar Yrahn Barreto lembrou um dos shows de Melodia em Natal e reconheceu a influência do artista no seu trabalho. “Durante um tempo toquei músicas do Melodia no meus shows. Ele tem um suingue próprio, tem muito de soul, mas também mostra uma pegada nordestina em algumas músicas. Sempre me identifiquei com seu lado compositor e o fato de ser alternativo”, comenta Barreto.

“Fui num show dele na Cidade da Criança. Foi só o Melodia e o Renato Piau na guitarra. Lembro de ter ido falar com o Piau. O Melodia estava por perto, me olhou como se eu fosse parecido com alguém que ele conhecia. Me arrependo de não ter ido falar com ele também”, recorda o potiguar.

O show foi promovido pelo produtor Zé Dias, que chegou a trazer o cantor carioca em outras duas oportunidades para Natal e um em Mossoró. “Era uma figura extraordinária. Sempre na dele, mas acessível. Depois do show em Mossoró chegou a dar uma volta pela cidade, foi num barzinho, inclusive cantou um pouco”, conta Dias. “Era um marginal do bem, talvez o último malandro da MPB”.

Em Natal, o último show de Luiz Melodia foi em 2011, no Teatro Riachuelo. A produção foi de Alexandre Maia. “Cheguei a promover uns 30 shows do Luiz Melodia pelo Nordeste. Pra mim, era a melhor voz da MPB”, diz Maia, que também lembra o lado gentil e boêmio do carioca. “Sempre que estava em Natal ele me pedia para levá-lo lá na Vila Negra, um barzinho na Vila de Ponta Negra que funcionou nos anos 90. Era um cara que gostava de sair, às vezes amanhecia o dia”.

Estreia surpreendente

Luiz Melodia começou a cantar no início dos anos 1970, no bairro do Estácio, no Rio. Frequentadores assíduos do bairro, os poetas Wally Salomão e Torquato Neto se depararam com as composições do carioca e trataram de fazer a ponte do artista com Gal Costa. Em 1972, a cantora baiana lança o disco ao vivo “Gal Fa-Tal: a todo vapor”, com a canção “Pérola Negra”. No mesmo ano, Maria Bethânia grava “Estácio, Holly Estácio” no álbum “Drama”. O jovem compositor despontava no país.

No ano seguinte sua voz passa a ser conhecida nacionalmente com estouro que seu disco de estreia “Pérola Negra”. O álbum é composto apenas de músicas do carioca e se torna um clássico da Música Popular Brasileira, figurando nas mais diversas listas dos mais importantes discos nacionais de todos os tempos. Depois vieram outros álbum de sucesso, como “Maravilhas Contemporâneas” (1976) e “Mico do Circo” (1978), todos mostrando a versatilidade criativa como compositor e intérprete.

O artista também adquire reconhecimento internacional e chega a se apresentar em grandes festivais como Chateauvallon (1978) e o Focalquier (1992), na França, o Montreux Jazz Festival (2004) e Paléo (2008), na Suíça. Suas canções também passam a figurar em trilhas de novela e filmes.

Seu último disco lançado foi “Zerima”, em 2014. O trabalho lhe rendeu rendeu o Prêmio Música Popular Brasileira na categoria melhor cantor de MPB. Referência para muitos artistas da nova geração da música brasileira, Melodia também chegou a gravar com nomes como Céu, Black Alien e Karol Conka.

Entrevista: Renato Piau - violonista e compositor

Compositor e violonista Renato Piau conheceu Luiz Melodia nos anos 80. Desse encontro surgiram parcerias em várias composições, entre elas, "Cara a cara", "Morena da novela" e "Cuidando de você". Nesta conversa com o VIVER, Piau relembra o companheiro de palco e o amigo:

Vocês são amigos há muito tempo, não só de palco. O que mais te marcou da convivência com Luiz Melodia?
Sempre achei sua poesia muito bonita. Às vezes não entendia de cara e ele me explicava. Sua calma também impressionava. Tinha admiração por sua tranquilidade. Eu sou mais agitado e quando alguma coisa dava errada antes de algum show, quando estávamos atrasados, lembro dele me acalmar e dizer que o show só começa quando o artista chega. Li que a doença dele era mais comum em pessoas estressadas. É curioso, porque ele sempre foi muito calmo.

Você manteve contato com ele durante a doença?
Sim. Estive na casa dele na semana passada. Eu vinha acompanhando a doença dele. Pesquisei sobre o que ele tinha. Era uma doença autoimune, a gente sabia mais ou menos que o tratamento era difícil. O Luiz Melodia sempre foi um grande amigo. Quando perdi minha mãe fiquei arrasado. E ele esteve perto para me consolar. Mas o que vou guardar dele é a sua alegria. Ele tinha um negócio de brincar com todo mundo. Mas não gostava muito de piada. Quando alguém contava uma, demorava para cair a ficha. Só depois que ele ria.

Tinham músicas inéditas gravadas? Existia algum projeto novo?
A gente se apresentou na abertura das Olimpíadas no Rio e aquilo repercutiu bem. A gente tinha um monte de coisas marcadas. Mas com a doença dele tivemos que ir remarcando. Gravamos o DVD do álbum “Zerima” no Teatro da UFF, ainda vai ser lançado. O Melodia deixou muitas canções por ai, letras que ainda não musiquei. Mas também levou muita coisa com ele.

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