Na pandemia, Enem acontece sob novas regras

Publicação: 2021-01-17 00:00:00
Luiz Henrique Gomes
Repórter


Ana Clara de Souza se pôs a estudar na escrivaninha do seu quarto nos últimos dez meses durante oito horas, diariamente. Acordava, tomava café da manhã, ajudava a mãe nas tarefas domésticas, se sentava diante do notebook e ia atrás de videoaulas preparatórias para o Enem. Parava apenas para fazer as refeições; à noite, escolhia algum livro de ficção e lia até dormir. Há um ano, não imaginava que essa seria a sua rotina em 2020 e nas primeiras semanas de 2021. Sim, estudar para o Enem fazia parte dos seus planos, mas na escola, na companhia dos amigos do último ano do ensino médio da E. E. Winston Churchill: com a coroação de uma festa de formatura em dezembro. Mas veio a pandemia do novo coronavírus e tudo mudou.

Créditos: Adriano AbreuAna Clara a é uma das 129.101 pessoas do RN inscritas para prestar o Enem 2020 neste domingo (17)Ana Clara a é uma das 129.101 pessoas do RN inscritas para prestar o Enem 2020 neste domingo (17)

Ana é uma das 129.101 pessoas do Rio Grande do Norte e 5,6 milhões do Brasil inscritas para prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2020) neste domingo (17). O exame é a principal porta de entrada de milhares de brasileiros para o ensino superior público e, naturalmente, a maior apreensão do ano para grande parte dos estudantes que concluem o ensino médio. Mas esta edição é ainda mais apreensiva que as anteriores: realizada em meio à pandemia do coronavírus, o Enem 2020 tem uma série de singularidades dentro e fora da sala de prova.

A começar pelo modelo de aula e rotina de estudo dos alunos. As aulas presenciais das escolas públicas e particulares do Rio Grande do Norte foram paralisadas no dia 18 de março; a partir daí, parte dos estudantes – a maioria de escolas particulares – precisaram se adaptar às aulas remotas e estabelecer um cronograma de estudos sem incluir o espaço da escola. As dificuldades foram maiores para os alunos de escola pública porque a maioria permaneceu sem aulas e sem atividades remotas. Para muitos, estudar em casa também foi um desafio, seja por falta de espaço ou por falta de acesso à internet para assistir conteúdos gravados, por exemplo.

“Eu tive a sorte de continuar com as aulas e ter um espaço na minha casa para estudar, mas uma parte dos meus colegas não. Alguns têm mais dificuldades, não conseguem estudar em casa e estão muito desestimulados nessa reta final”, contou Ana Clara na sexta-feira. A E. E. Winston Churchill, onde estuda, foi uma das poucas escolas estaduais a terem aula remota durante a pandemia, mas isso não foi suficiente para garantir o acesso ao estudo para parte dos amigos da estudante de 18 anos.

Essa singularidade é a que mais contribuiu para uma desigualdade na preparação entre os candidatos este ano, na avaliação da doutora em Educação e ex-secretária de Estado da Educação, Claudia Santa Rosa. “A discrepância que já existia entre as formações ofertadas aos jovens de escolas públicas e particulares foi acentuada, de forma revoltante. Pouco ou nada se fez, em tempo hábil, para atenuar essa desigualdade”, criticou Santa Rosa, que também é diretora executiva do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE).

A desigualdade se reflete na saúde mental e autoestima dos estudantes que não tiveram condições ideais para estudar durante a pandemia, como os amigos de Ana. A estudante mostra confiança para o exame, no qual pretende ter nota suficiente para cursar Letras, mas não esconde a frustração de ver parte dos amigos desestimulados. “Converso com eles por telefone e vejo a dificuldade de cada um. 2020 foi uma frustração. A gente planejava aproveitar ao máximo a escola, ter uma formatura e fazer o Enem, mas muitos agora se sentem frustrados.”





Leia também: