Na Redinha, a gente pegava sol com a mão

Publicação: 2017-12-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Cinthia Lopes
Editora

Tão tradicional quanto a árvore de natal em dezembro, são os comerciais de uma conhecida cesta natalina. E há pelo menos 15 anos um mesmo rosto e voz anuncia na propaganda as boas festas de fim de ano: o cantor e compositor Gilliard. Sucesso nos anos 1980 com suas baladas românticas que arrancavam suspiros das fãs, o potiguar nascido em Natal cantou sua cidade em músicas como “Canto de Paz”, “Jangada do Potengi” e “Natureza”, que ganhou um clipe filmado na Redinha pela equipe do Fantástico.

A praia urbana do lado norte do Rio Potengi foi onde o cantor vivenciou grandes momentos de sua vida. “A Redinha é um lugar muito especial pra mim. Era onde eu encontrava paz e conseguia compor muitas coisas”, diz Gilliard, que há décadas mora em São Paulo, mas não deixa de visitar a terrinha para rever amigos e parentes.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, entre uma canção e outra entoada pelo telefone, Gilliard recordou vários causos passados na Redinha, além de histórias de sua carreira, como as apresentações no Programa do Chacrinha. O velho guerreiro também é lembrado com carinho pelo potiguar. “Era aparecer no programa do Chacrinha para sua música começar a tocar com força no rádio e os discos venderem”. Muitas dessas histórias contadas por Gilliard estarão num livro que ele está escrevendo e que deve ser publicado o quanto antes. “Por enquanto, o que posso dizer é que tudo que está escrito é verdade”. Gilliard também está no especial que vai ao ar neste domingo (24), na Rede TV, em ocasião do centenário do Velho Guerreiro. 

Nome presente no panteão do clássico romântico, Gilliard teve uma de suas canções ("Não Diga Nada") inserida e interpretada no longa de Monique Garbenberg, “Paraíso Perdido”, que reúne clássicos do estilo e conta com Julio Andrade e Erasmo Carlos, Seu Jorge e Jaloo.
Amor à primeira vista
Ícone da música romântica desde os anos 80, o natalense Gilliard vive em São Paulo há décadas, mas não esquece sua terrinha
Ícone da música romântica desde os anos 80, o natalense Gilliard vive em São Paulo há décadas, mas não esquece sua terrinha

A primeira vez que fui a Redinha foi num piquenique do colégio. Me apaixonei à primeira vista. Depois eu passei a ir lá todo fim de semana. Ia com amigos, fazia encontros na beira da praia, cantando até de manhã. A gente pegava o sol com a mão, literalmente. Lembro que as ruas tinham nomes poéticos. Nosso ponto de encontro era a Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes. A gente geralmente ia pela pista, mas tinha vezes que atravessava o Rio Potengi na balsa. Eu morria de medo.

Natureza

Na Redinha eu senti a primeira comunicação com o criador. Sempre fui muito ligado na fé. Sou filho da natureza e Deus é a natureza. Lembro de sair pelas fazendas compondo minhas músicas. A Redinha me mostrava tudo isso. Naquela época (anos 70) as estradas para aquelas praias depois da Redinha eram todas de barro. Era tudo natural. Sol, mar, coqueirais, dunas branquinhas.  A música “Natureza” saiu dessa experiência. Faço um percusso da Via Costeira até Jacumã.

Peixe frito com cachaça

Com essa música “Natureza” tem uma curiosidade. Tive que trocar um pedaço da letra a pedido da gravadora. Na versão final eu canto “da rua, da casa, da minha escola, da minha Redinha e das carambolas. Não posso esquecer dos amigos e do tempo em que sonhei”, mas o original era “Não posso esquecer dos peixes fritos e das cachaças que tomei”. A gravadora não achou legal falar de cachaça na música.

Clipe para o Fantástico

Chegamos pra gravar o clipe, em frente a Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes. Trouxemos um monte de equipamentos, carros, helicóptero, câmeras. Tinha muita gente pra acompanhar a produção. O pessoal fez até uma homenagem pra mim. Foi muito legal. O embolador Arnaldo Farias fez uma música. O clipe mostrava a casa onde eu dormia na varanda, sentindo a canção do mar, o assovio do vento. O clipe começou pela Redinha e terminou em Jacumã.

Cidade linda

Todo mundo que ia à Natal achava a cidade linda. Justamente por sua natureza. Viam as praias ainda virgens, sem tantas barracas. A Via Costeira estava começando. Mostrei Jacumã. Mostrei tudo isso no clipe. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Mostrar o lugar onde fazia minha conexão com Deus e busca inspiração.
Gilliard lembra da juventude entre serenatas na praia da Redinha e Festa do Caju
Gilliard lembra da juventude entre serenatas na praia da Redinha e Festa do Caju

Jangada do Potengi

Gravei a canção “Jangada do Potengi” de tanto ver o percurso dos pescadores. Pegava o peixe com eles, comia frito, com tapioca, tomava uma cachacinha. Na época as cachaças eram “Olho d'água”, “Muriu”, “Pitu” e a “Carangueijo”. Isso eu ainda garoto, mas sempre com boas companhias do lado. Sempre gostei de frutos do mar.

Futebol e violão

Gostava de jogar bola. Até hoje adoro. Conheci muita gente que depois jogou no ABC. Willian, Ari, Ivan, Rovenaldo, que jogou no América e depois foi pro Rio. Esses caras jogavam comigo. E eu era o mais novo. Sempre gostei de cantar. Ficava jogando bola com os amigos e depois pegava o violão. A gente fazia nossa festa, nos lugares simples. Afinal, naquela época o bom é que era tudo simples.

Festa do Caju

Cantei na Festa do Caju. Era uma festa grande na Redinha. Vinha gente de tudo que é canto. Fiz um show com “Os Terríveis”, um banda baile fantástica de Natal. Aprendi muito com eles. Me contratavam e me davam 50 minutos para se apresentar: “Baile d'Os Terríveis e participação especial de Gilliard”. Esse show não vou esquecer nunca.

O Velho Guerreiro

O Chacrinha foi o segundo programa de TV que eu fiz na minha vida. Você fazia o programa do Chacrinha no dia e no outro a música já tocava nas rádios de todo o país. Os fãs iam nas lojas comprar discos. Quando ele gostava de alguém queria a pessoa toda semana no programa. Tive esse privilégio de conviver com esse gênio da comunicação.

Comercial de cesta natalina

As vezes eu estou no avião alguém me para pra dizer que me viu no comercial da TV. Há mais de 15 anos eu compartilho desse comercial. Fui convidado pelo proprietário das cestas, o João Santana. Ficou muito forte essa relação das cestas de natal, com Natal e comigo.

Saída precoce de Natal

Era uma figurinha carimbada em Natal. Sai de casa muito cedo pra cantar. Me levavam para se apresentar em tudo que era lugar na cidade. Serenata, aniversário, concurso de calouro. Adquiri bastante experiência com essas apresentações, o que me ajudou quando sai de Natal. Sai muito novo daqui. Tive muitas pessoas que me encorajaram, que disseram que na estrada eu iria me encontrar. E me encontrei.

Livro e documentário

O livro tem relatos de tudo que vivi desde a infância. Histórias fantásticas, todas verdadeiras. Da primeira ligação com Deus, a descoberta de que minha missão era cantar, passando pelas minhas dificuldades, meus momentos de solidão, minhas conquistas, de como fiz algumas músicas. Tudo isso estou escrevendo.  Também estou concluindo um documentário para o meu DVD.

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