"Nós não trabalhamos com doutrinação, mas com teorias."

Publicação: 2018-11-11 00:00:00
Entrevista: Alexsandro Galeno, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor do departamento de Ciências Sociais da UFRN

Créditos: DivulgaçãoAlexsandro Galeno, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor do departamento de Ciências Sociais da UFRNAlexsandro Galeno, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor do departamento de Ciências Sociais da UFRN

Qual é a natureza do movimento Escola Sem Partido? Tem precedente em outros locais?

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É uma organização que faz parte de um movimento internacional, de retirar o pensamento, digamos, 'livre' das escolas – e eu chamo de 'livre' o pensamento que trabalha com as teorias plurais na escola. Tem uma grande tradição americana, que tem os movimentos No Indoctrination e Students for Academic Freedom. O grande problema desse projeto do meu ponto de vista, além de comprometer a liberdade de cátedra e de expressão dos educadores, é o fato dele não definir o que é doutrina. O que é doutrinação.

O senhor acha que a falta dessa definição pode abrir o precedente para que qualquer coisa que desagrade seja visto como doutrinação?
É. Como é que, eu, que sou professor de sociologia, vou falar da família sem relacioná-las com o contexto histórico. Como elas surgiram, as suas relações políticas, econômicas. Imagina, por exemplo, eu destacar famílias importantes na política do Brasil sem contextualizá-las. O juízo de valor é um juízo individual de cada um, mas os contextos e a expressão, o educador tem a obrigação de colocar isso porque são fatos. E nós não trabalhamos com doutrinação, nós trabalhamos com teorias. Você dizer, por exemplo, que o movimento feminista cumpriu um papel histórico importante nos Estados Unidos para a liberdade individual das mulheres... o que há de doutrinação nisso? São fatos históricos. O que há de ideologia de gênero? Que, aliás, é um conceito que nem existe.

E como se deve definir “doutrinação”?
Tanto a religião, quanto o sistema político e as ciências são as ideologias. Ideologia é um sistema de ideia e todos esses trabalham com ideias. Agora, nas ideologias você tem que fazer essa distinção entre aquilo que é doutrina e o que é teoria. A doutrina é um sistema fechado. As religiões e algumas tendências políticas, por exemplo, operam muito nesse sistema. Você não questiona. Alguém, por exemplo, estuda o Marx e acha que tudo que o Marx diz tem que se aplicar ao século XXI. Isso é dogmatismo, mas quando você faz a abertura você reatualiza esse processo e abre para a teoria. Você abre a possibilidade de uma 'releitura' de Marx, por exemplo. O clássico só é clássico no sentido que ele ilumina o presente, mas ele também é humano, está situado naquele tempo histórico dele.

Muito se fala nos valores familiares que devem ter continuidade na escola...
A universidade e a escola trabalham com a formação para a aprendizagem. O ensino da escola pode ser técnico, mas também é para a formação ética e moral. A primeira parte dela é no grupo familiar, obviamente, mas a escola não pode ser a continuidade da família. São grupos diferentes,  de formação diferentes. Senão, você vai subordinar a organização da escola e a profissão aos valores dos pais. É óbvio que os pais tem que continuar participando das reuniões de pais e mestres, dos conselhos, mas para temáticas gerais de condução escolar. Mas nenhum pai pode chegar e questionar a sua liberdade de dar aula, por exemplo. Até porque os conteúdos são definidos pelos parâmetros curriculares. Entende?Esse é um problema que eu acho muito grave.

Em que momento o contexto histórico situado em sala de aula pode virar opinião pessoal do professor?
Quando você emite juízo de valor. É impossível falar da Globo sem falar da família Marinho, por exemplo. Mas a partir do momento que eu emito a opinião se os Marinhos são bons ou ruins, é partidarização. E eu sou contra a partidarização de qualquer posição em sala de aula. Agora, não sou favor da neutralidade do conhecimento. Por isso, nós distinguimos teoria e doutrina. A teoria é um sistema aberto porque se coloca a refutação, tem o contraditório. Você imagina, por exemplo, a visão que nós tínhamos sobre a terra. Uma hora nós percebemos que a terra não era o centro do universo. Se não houvesse a possibilidade de refutar, ainda estaríamos nessa condição. Esse é o papel do conhecimento: refutar. Faz parte de um processo do avanço civilizatório. Portanto, se coloca sempre a refutação. Há pesquisadores e cientistas que especulam.

Como evitar que isso aconteça?
Você tem que ensinar distinguindo os papéis e deixando claro que as posições partidárias são individuais, garantidas pela constituição. O que eu não posso fazer é proselitismo em sala de aula. Isso eu sou contra, mas fazer um debate é importante. Por exemplo: ir com um broche do candidato que você vota para a sala de aula, eu sou contra; mas fazer um debate sobre as eleições, eu sou a favor. 

Apesar do Escola Sem Partido ser de 2004, ele ganhou muita ascendência nos últimos cinco anos, no máximo. O que explica essa 'fama' repentina?
Eu acho que a chegada dos grupos mais conservadores na Câmara dos Deputados contribuiu para isso. Aí isso foi transformado em um debate muito ideológico. Encontraram uma narrativa para combater o governo à esquerda da época. Pregaram que aquele tipo de projeto (de esquerda), e o discurso, eram contra a família. Ideologizou o debate, que a gente pode ver muito nas eleições de 2018.