Nós

Publicação: 2020-10-28 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Quando comecei a juntar livros de autores locais, ainda não havia o olhar severo dos mestres e doutores, mas já não deixava de existir uma certa desconfiança. Poucos entendiam o desejo de conhecer a vida literária do Estado, o que não é, necessariamente, conhecer a sua literatura. Ali estavam em volumes, revistas, opúsculos e separatas relegadas ao abandono as experiências e sensações dos que viviam aqui - a terra, a gente, hábitos, costumes e tradições. 

Com o tempo, descobri que o desprezo era antigo. Em 1921, quando Câmara Cascudo lançou ‘Alma Patrícia’, naquele título meio aportuguesado, foi muito criticado na província por teimar em olhar nossos poetas e prosadores. Mas, continuei. Reuni alguns poucos milhares de histórias, depoimentos, romances e poesias, a ponto de descobrir que nem tudo tinha o pecado da inutilidade. Quem, até hoje, passar o cascalho na bateia, vai descobrir suas pepitas de ouro.

Nem sempre fomos tão andrajosos, como hoje. Dou alguns exemplos, os mais vivos na memória, afinal escrevo longe dos livros. E, antes deles, basta passar os olhos nas fases mais antigas das coleções das revistas do Instituto Histórico e Geográfico e da Academia de Letras. Há edições monotemáticas que surpreendem pelo apuro, como a do centenário da Revolução de 1817 e a do centenário de 1922, indispensáveis ao levantamento de informações. 

Lembro bem que em 1947, numa edição simples, impressa na Typographia Galhardo, fomos capazes de uma modernidade que espanta. Organizamos ‘O Homem de Espanto’, sobre a figura de D. Vital, e com uma solução que brilhou há mais de setenta anos, assinando-se o nosso livro monotemático e coletivo: ‘Luís da Câmara Cascudo e outros’, reunindo nomes como Alceu Amoroso Lima, Jackson de Figueiredo, Otto Guerra, Manuel Rodrigues e outros.

Não é que tenhamos perdido o ouro das palavras. Ainda há coisas boas nascidas de esforços individuais. Mas, caímos no vale da mesmice andrajosa e mal arrumada, precárias e pedantes, quando não muito rasas, e que só empobrecem a nossa bibliografia. Principalmente no estudo das histórias, o que nos retirou das grandes coleções. Lá estivemos com Rodolpho Garcia, Aurélio Pinheiro, Garibaldi Dantas, Angyone Costa, Jayme Adour, Peregrino Júnior...  

Esta caverna de livros velhos, se não tem um zelador a altura de compreender melhor e mais profundamente a história que erguemos ao longo das décadas, tem o mérito de ser uma pequena cristaleira a refletir, na sua humilde vitrine, o retrato fiel de quase tudo que fomos e hoje não somos mais. Mas há os que resistem. O tempo é o único aliado dos que sabem de verdade. Ainda que abandonados pelas vestais nesta pobre Aldeia Velha de Felipe Camarão.

RISCO - O excesso de agressividade do delegado Sérgio Leocádio corre o risco de fazê-lo encarnar o caso clássico da criatura contra o criador. Lembrem: D. Quixote engoliu Cervantes. 

ORIGEM - Desde a primeira pesquisa do segundo governo de Wilma de Faria que a saúde se fixava acima da violência como prioridade. E na saúde Álvaro Dias é muito bem avaliado. 

CAMPO - Com a aprovação de sua gestão por 65% dos entrevistados pelo Ibope, o prefeito tem um grande campo de expansão no voto não declarado. E parece avançar sem obstáculos. 

AVISO - Na edição de domingo passado esta coluna informou que até nas pesquisas sigilosas, para leitura interna dos partidos, não havia sinal forte de segundo turno. O Ibope confirmou.

EFEITO - Os candidatos militares já sentiram que o fenômeno Jair Bolsonaro não cabe nem apertando nos seus figurinos. Os simulacros pecam pelo artificialismo. Daí o fracasso popular.

MAS - E uma explicação: Jair Bolsonaro não encontrou em Natal quem levasse ao eleitor a receita composta dos mesmos ingredientes. Nossos ‘bolsonaros’ são uns fantasmas piorados.  

SUCESSO - O livro do empresário Paulo de Paula - ‘Eu sou. Eu posso!’ - parte para a segunda edição com o selo da editora ‘Gente’. Já ostentando a capa a condição de best-seller na área. 

HUMOR - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, de olhar maroto, avaliando os números mais recentes do Ibope: “Não há candidatos de oposição. Há nomes na oposição”. 

ANOTEM - O maior personagem da campanha política é o fantasma da morte. Conquistou a confiança aquele que foi solidário na hora mais difícil, mesmo sem poder garantir vitória sobre o inimigo comum que é o Coronavírus. O gesto de enfrentar fixou-se no sentimento popular. 

LEITURAS - A Livraria do Campus - aberta de segunda a sexta entre 9 e 16h - recebeu o livro ‘A República das Milícias, os esquadrões da morte e a era Bolsonaro’, de Bruno Paes Manso e ‘Samuel Wainer, o homem que estava lá’, de Karla Monteiro, esta com mais de 500 páginas.

PRESENÇA - Dois ícones do Rio Grande do Norte são citados ao longo da vida e da luta de Wainer para manter a ‘Última Hora’: Café Filho e Aluízio Alves. Café a causar asco a Getúlio Vargas que o aceitou como vice para Ademar de Barros não romper. Café era inconfiável.










Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.