"Não existe país rico sem indústria forte"

Publicação: 2013-12-08 00:00:00
Sara Vasconcelos - Repórter

A construção de uma indústria brasileira realmente competitiva, na avaliação do presidente da Confederação Nacional das Indústrias Robson Braga, exige o firme enfrentamento das dificuldades estruturais, em infraestrutura, sistema tributário mais simples, desoneração dos investimentos e menos burocracia. “O Brasil  não pode prescindir de sua indústria”, frisou. O setor responde por 45% da arrecadação de tributos, 25% da mão de obra ocupada e paga 25% do montante dos salários.  Em entrevista a TRIBUNA DO NORTE, Braga teceu críticas a políticas do governo federal como o aumento da taxa Selic, que  ao passo que controla a inflação, compromete a produção. “O retorno à Selic de dois dígitos é um desestímulo aos investimentos”, frisou o presidente da CNI. Robson Braga é um dos palestrantes do Seminário Motores do Desenvolvimento do RN “Desafios e Orpotunidades da Indústria: 60 anos da Fiern”, que será realizado dia 16 de dezembro, no  Auditório Albano Franco, na Casa da Indústria/Fiern. O projeto é  realizado pela TRIBUNA DO NORTE, Salamanca Capital Investments, Sistema Fiern, Sistema Fecomércio/RN, com apoio do BNDES e patrocínio do Sebrae e Prefeitura do Natal. Confira a entrevista.
Robson Braga de Andrade é Presidente da Confederação Nacional das Indústrias
Como o senhor avalia o atual cenário da indústria brasileira?

O cenário, infelizmente, não é bom. Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre demonstram que a indústria está estagnada, com crescimento de apenas 0,1% sobre o trimestre anterior, de 1,9% sobre igual período de 2012 e de 1,25% no acumulado do ano até setembro. São números muito tímidos, reflexo, em parte, dos efeitos da longa crise econômica internacional e de fatores internos, como juros elevados,   investimentos baixos e queda na competitividade. A pesquisa da CNI Indicadores Industriais de outubro revelou recuo de 1,2% no faturamento real em relação a setembro, embora tenha registrado aumento no emprego e nas horas trabalhadas. O desempenho da indústria, este ano, está melhor do que em 2012, mas tem sido oscilante. Esperamos que o setor  industrial cresça, em 2013, em torno de 1%, o que é pouco.     

Quais são as projeções para 2014? A retração deverá se manter ou há possibilidade de retomada de fôlego?

Esperamos um 2014 um pouco melhor, com um crescimento do setor industrial ao redor de 1,4%. As concessões à iniciativa privada na área de infraestrutura e os investimentos na ampla cadeia de petróleo e gás, além da conclusão das obras para a Copa do Mundo, nos animam um pouco. Mas ainda assim será um desempenho abaixo das nossas potencialidades. 

O governo tem dado incentivos como a redução do IPI para alguns produtos e a desoneração da folha. Na sua avaliação, quais são os resultados dessa política?

Foram duas medidas acertadas, que reduziram custos e aumentaram o consumo num momento crucial dos efeitos, aqui dentro, da crise econômica internacional. Teríamos uma desaceleração da economia maior se não fossem as duas iniciativas, de caráter pontual. Precisamos, agora, para retomar o crescimento sustentado, de medidas de teor mais estrutural, como a melhoria da infraestrutura, que virá com concessões à iniciativa privada, sistema tributário mais simples, desoneração dos investimentos e menos burocracia, entre outros pontos.  

Na sua avaliação, a alta de juros, com o aumento da taxa Selic, ao passo que controla a inflação, compromete a produção?

Para tentar evitar que a inflação fuja da meta, o Banco Central tem aumentado a taxa básica de juros, o que é compreensível. Mas o retorno à Selic de dois dígitos, depois de 20 meses, é um desestímulo aos investimentos, que são a grande saída para reativar a economia brasileira. A contenção dos gastos públicos é uma boa alternativa para combater a inflação sem que seja preciso recorrer à elevação dos juros como único instrumento. 

Os números apontam para um cenário de retração do emprego na indústria nacional. Isso deve se prolongar em 2014?

Parece surpreendente que, numa economia desaquecida, como mostraram  a queda de 0,5% do PIB no terceiro trimestre e os números da indústria que acabamos de mencionar, o emprego continue estável. Nos Indicadores Industriais de outubro, o emprego cresceu 0,2% sobre setembro. Sua manutenção numa atividade econômica desacelerada se explica, em especial, porque a demissão é o último recurso do empresário, pois custa caro demitir e é difícil substituir mão de obra treinada. Não acredito que esse cenário mude em 2014, isso é, que haja reduções significativas no nível de emprego na indústria, até porque esperamos um ano melhor. 

A carência de mão de obra qualificada na indústria ainda é preocupante? O que tem sido feito e é necessário para melhorar esses índices?
É preocupante, sim. É um dos maiores problemas citados pelos empresários nas pesquisas da CNI. Mas vamos dar a volta por cima. O Programa SENAI de Apoio à Competitividade da Indústria Brasileira, executado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que faz parte do Sistema Indústria, vai provocar uma revolução na educação profissional e nas ações de inovação nas empresas. Com um empréstimo de R$ 1,5 bilhão do BNDES e R$ 400 milhões em recursos próprios, o SENAI está implantando 23 Institutos SENAI de Inovação e 43 Institutos SENAI de Tecnologia, voltados para pesquisa aplicada e serviços tecnológicos de alta complexidade. Os institutos serão instalados em todas as regiões, de acordo com as respectivas vocações industriais. Vamos reconfigurar o ensino profissional e formar profissionais de nível superior alinhados às necessidades do setor produtivo. O objetivo é gerar conhecimento para áreas-chave, como microeletrônica, biomassa, engenharia de superfície, e tecnologia da comunicação e informação. Os alunos, focados em pesquisa aplicada, serão estimulados a trabalhar na antecipação de tendências tecnológicas. Nossa meta, que vamos cumprir, é atingir 4 milhões de matrículas em 2014. Além da educação e da qualificação, o Programa oferecerá  às empresas serviços em cadeia e testes laboratoriais, muitos dos quais feitos hoje no exterior.

A infraestrutura ainda é um dos grandes gargalos para a expansão da indústria no país? O que  é necessário para reverter o quadro?
Sem dúvida. O Brasil está atrasado em infraestrutura comparativamente a países concorrentes. Investimos apenas 2% do PIB no setor, o que representa um terço do que é aplicado na China e no Chile, e metade do investido na Índia. Nossa malha ferroviária é pequena e ultrapassada. O Brasil possui 3,5 quilômetros de ferrovias para cada mil quilômetros quadrados de território, enquanto a China tem nove quilômetros; a Argentina, 13; e os Estados Unidos, 23. Só 34% das rodovias administradas pelo setor público estão em estado bom ou ótimo. O Programa de Investimentos em Logística, que estimula a participação da iniciativa privada em infraestrutura, veio em boa hora. Esse panorama crítico vai mudar. Os recentes leilões de rodovias e aeroportos foram um sucesso. É necessário acelerar as concessões também nos portos e nas ferrovias. Temos que nos preparar para a demanda por transportes, que não para de crescer.

O que falta ao Brasil para sermos desenvolvidos industrialmente?

A construção de uma indústria brasileira realmente competitiva exige o firme enfrentamento das dificuldades estruturais, além das meramente conjunturais. Sabemos quais são esses entraves: sistema tributário complexo; legislação trabalhista anacrônica, de altíssimo custo; educação deficiente; infraestrutura precária; crédito caro e burocracia sufocante, entre outros. A reversão desse quadro passa pela ampliação da taxa de investimento no país, o que pressupõe o reforço da confiança do empresariado brasileiro. Além disso, são necessárias ações efetivas para assegurar a redução das incertezas na gestão macroeconômica, avançar nas reformas capazes de elevar a competitividade e contribuir para a diminuição dos custos de produção, reduzir as incertezas regulatórias que geram insegurança jurídica e limitam decisões de investir, e direcionar os gastos governamentais para investimentos. O Brasil  não pode prescindir de sua indústria. Ela é fundamental, pois responde por 45% da arrecadação de tributos, emprega 25% da população e paga 25% do montante dos salários. Não há país rico sem indústria forte.