Número de casos de Covid-19 cresce na periferia de Natal

Publicação: 2020-06-05 00:00:00
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

A líder comunitária Maria Coutinho de Oliveira, 54 anos, fez um alerta: “O número do coronavírus está crescendo aqui na comunidade”. Moradora do Jardim Progresso, na zona Norte de Natal, Maria está preocupada com os vizinhos. “Outro dia, teve um senhor aqui na outra rua que faleceu de Covid”, disse. Ela está numa das áreas mais infectadas pelo novo coronavírus na capital. Na periferia, os riscos de contágio e aumento na transmissão são ainda maiores. 

Créditos: Adriano AbreuMaria Coutinho cumpre as medidas de isolamento social à risca e atua na conscientização dos moradores do Jardim ProgressoMaria Coutinho cumpre as medidas de isolamento social à risca e atua na conscientização dos moradores do Jardim Progresso


O Loteamento Jardim Progresso está localizado no bairro de Nossa Senhora da Apresentação, o maior da zona Norte. É o mais populoso da capital, com 103 mil habitantes, dividido em diversos loteamentos. Segundo as estatísticas da Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap/RN), o bairro concentra aproximadamente 290 casos confirmados de coronavírus, 8,16% dos mais de três mil infectados em Natal. Nossa Senhora da Apresentação tem o segundo maior número de infectados entre os bairros na cidade, atrás apenas do vizinho Potengi, com 10,7% dos casos.

O número de casos mostra uma expansão do novo coronavírus para áreas mais periféricas de Natal. Entre os cinco bairros de Natal com mais casos de Covid-19, quatro deles possuem uma renda per capita menor que a do município, segundo informações da Prefeitura do Natal. Além dos já citados, Pajuçara e Alecrim (o único em outra zona, a Leste) formam o quarteto. Nenhum deles ultrapassa a renda per capita de 1,78 salário mínimo, média de Natal. A exceção é o bairro de Lagoa Nova, na zona Sul. 

“As periferias são áreas com uma condição de vida mais pobre, o que significa maior uso do transporte público para precisar ir ao trabalho, mais dificuldade na organização das casas, com famílias maiores. Todos esses são fatores que fazem a pandemia começar a ter um ritmo muito acelerado e de forma descontrolada. O momento da aceleração descontrolada da curva de casos e mortes em Natal coincide com a chegada do vírus nessas zonas”, declarou a infectologista Marise Reis, participante do Comitê Científico da Sesap/RN para o combate à Covid-19.

Nos grupos de WhatsApp com vizinhos do Jardim Progresso, Maria Coutinho repete diariamente a importância de se manter em casa e se irrita com quem considera exagero. “Eu digo direto que a gente não vai morrer de fome, vai morrer de Covid”, declarou. A líder comunitária contou que a presença das pessoas nas ruas do loteamento é comum, sendo a maioria de máscara. O que a deixa indignada é ver a reunião nas calçadas para conversar. “As pessoas estão achando que é brincadeira. Será que vão esperar perder um ente querido da gente para cair na real?”, questionou.

Preocupação crescente
A preocupação cresce porque até o início de abril, relembra Coutinho, o coronavírus só era conhecido através da televisão e do “ouvi falar”. “O que mudou do início da pandemia para cá é que a gente no início só ouvia falar. Hoje, a gente vê pessoas doentes. Eu fui no posto de saúde essa semana, e cinco funcionários estavam afastados. O rapaz de uma conveniência perto daqui de casa está com suspeita, na rua daqui de trás já faleceu uma pessoa”, começou a elencar os casos.

Maria chegou ao Jardim Progresso há 20 anos, vinda da cidade de Montanhas, distante 95 quilômetros de Natal. Logo se firmou líder comunitária. Há cinco anos fundou um grupo de mulheres, que se conheceram na igreja do bairro, para compartilhar experiências com artesanato, mas o grupo se transformou num lugar de solidariedade. Com o início da pandemia, as mulheres participaram de uma campanha para confecção de máscaras e também são constantemente acionadas por moradores do bairro que precisam de algum auxílio. Maria Coutinho costurou 250 máscaras e as distribuiu gratuitamente aos vizinhos.

Já existiram outros casos, contou, que as pessoas a procuraram para conseguir uma cesta básica. “Como eu sempre organizo protestos aqui, as pessoas procuram. A gente corre atrás de cesta básica para as famílias necessitadas”, disse. A líder contou que os moradores esperam a distribuição de cestas básicas por parte da Prefeitura do Natal no bairro, mas até agora não conseguiram efetivar a ação.

Enquanto ajuda, ela tenta conscientizar todos os vizinhos sobre as medidas de prevenção ao novo coronavírus. Para Marise Reis, infectologista da UFRN, essa é uma das partes mais difíceis de atuação nas áreas periféricas. “É preciso estratégias mais específicas na periferia para conscientizar as pessoas”, disse. Uma delas, acredita Reis, é a presença das equipes de Saúde da Família nos domicílios das pessoas e a garantia do acesso delas à rede de saúde. Até o momento, o Estado não tem uma estratégia em vigor para essas áreas.

Loteamento não tem Unidade Básica de Saúde
O posto de saúde do Jardim Progresso fica localizado na rua Novo Mundo. Apesar de ser uma das principais ruas do loteamento, a Novo Mundo ainda é de barro e não possui sistema de drenagem, assim como a maioria das outras ruas (a Prefeitura de Natal realiza as obras de drenagem no local atualmente). Quando o posto foi aberto, anos atrás, passou um ano sem médico - o que motivou um protesto liderado por Maria. Ele continua realizando atendimentos durante a pandemia, mas quem apresenta sintomas e mora no bairro é orientado a procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A mais próxima fica distante cinco quilômetros, no bairro Potengi.

Se não houver ajuda de algum vizinho ou carro próprio, ir para a UPA Potengi significa caminhar durante uma hora, usar transporte coletivo ou gastar um dinheiro a mais em um aplicativo. “Um outro problema das áreas mais pobres é o menor acesso à rede de saúde. Todos esses fatores, na verdade, fazem que a pandemia se comporte de forma diferente entre as diferentes zonas da cidade”, avaliou Marise Reis.

Essa configuração se reflete nos dados epidemiológicos. Segundo estatísticas da Secretaria Municipal de Saúde de Natal (SMS Natal), a zona Norte concentrava 24,35% das 115 mortes registradas na cidade até o dia 2 de junho. Somente a zona Oeste possuía um índice de mortes maior, com 26,96% - esta zona é predominantemente formada por bairros com renda per capita menor que a média de Natal.

Enquanto o número de mortes cresce nessas zonas, Maria Coutinho segue trabalhando para afastar a pandemia do loteamento onde mora. “Eu espero que esse vírus sirva para as pessoas se unirem. Eu digo a todo mundo aqui: esse é o momento de união, independente se você vota em político A ou B, se você é católico ou evangélico. É hora de dar as mãos e se ajudar.”







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