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Número de leitos de UTI Covid cai 59% no Rio Grande do Norte
Publicado: 00:00:00 - 08/12/2021 Atualizado: 21:40:27 - 07/12/2021
O número de leitos críticos para tratamento da covid-19 no Rio Grande do Norte foi reduzido pela metade em praticamente seis meses, de acordo com dados da plataforma Regula RN. O número de instalações chegou a 415 em junho deste ano, mas parte dessa estrutura foi revertida para leitos gerais, enquanto outra parte foi desativada. Atualmente, a rede pública conta com 170 leitos para tratar casos graves da doença. Em comparação a junho, a redução é de 59%.

Alex Régis
Secretaria Estadual de Saúde não informou quantos leitos foram “encerrados”, mas disse que maioria foi de contratos privados

Secretaria Estadual de Saúde não informou quantos leitos foram “encerrados”, mas disse que maioria foi de contratos privados


 De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN), cerca de 100 leitos passaram por reversão. A pasta informou, no entanto, não ter ciência de quantas instalações foram encerradas. A maioria das desativações aconteceu em contratos privados, feitos por meio de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), conforme explicou a Sesap, que alega um alto custo para manter as instalações, especialmente porque elas estavam ociosas.

Atualmente, além dos 170 leitos críticos, o Estado possui 146 instalações clínicas para tratamento da covid-19, totalizando   316 leitos. Segundo a Sesap, esse quantitativo deve ser mantido para 2022. “A reversão e o encerramento de leitos aconteceram devido à baixa taxa de ocupação da doença no Rio Grande do Norte”, esclareceu a pasta. 

Questionada se existe a possibilidade de que os leitos revertidos ou encerrados voltem a ser utilizados para tratar a covid-19, caso haja necessidade, a pasta informou: “Os leitos que eram para ser revertidos, já foram. Hoje observamos a taxa de ocupação e, semanalmente, existe um acompanhamento com uma equipe formada para analisar cada situação. Se houver a necessidade de fazer novos contratos para atender à demanda, isso será feito”.

Segundo dados da plataforma Coronavírus, do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da UFRN (LAIS/UFRN), os casos confirmados de coronavírus voltaram a crescer em outubro, após quatro meses de queda. Foram 6.145 confirmações, ante 2.512 de setembro (aumento de 144%). Em novembro, os casos confirmados ficaram estáveis em relação a outubro: 6.120 (redução de 0,40%).

Os óbitos de novembro também apontam para um cenário de atenção no que diz respeito ao controle da pandemia: foram registradas 98 mortes, segundo a plataforma do LAIS, quatro a menos do que a soma dos meses de setembro (49) e outubro (53), que totaliza 102 óbitos.

O médico epidemiologista e pesquisador da Escola Pública de Saúde do RN, Ion de Andrade, afirma que a manutenção dos leitos deve ser adequada ao 'movimento' da pandemia. “Para que esses leitos sejam mantidos, é preciso ter  profissionais de plantão e uma logística instalada que precisa ser paga. Portanto, mesmo parada uma UTI produz gastos. Não seria correto, sobretudo, com os recursos públicos, que esses leitos ficassem ociosos. A desmobilização dos leitos é correta”, atesta o epidemiologista.

Questionado se reverter os leitos seria mais interessante do que encerrá-los, Ion de Andrade afirma: “A permanência de muitos desses leitos como um legado da pandemia seria bastante produtiva”.

O diretor executivo do  LAIS, professor Ricardo Valentim, disse que é importante o Sistema Único de Saúde do RN manter o maior número de leitos possível”, e destacou que, para isso, é preciso uma pactuação, no âmbito da Comissão de Intergestores Bipartite (CIB).

“São leitos que ajudam a melhorar, inclusive,  o fluxo das demandas de leitos gerais que o Estado precisa bastante”, afirmou Valentim. Para ele, havia muitos leitos ociosos em razão da baixa demanda por internação, provocada pela melhoria do cenário pandêmico no RN. A reversão, que ocorreu com cerca de 100 instalações, foi acertada, segundo ele.

“Não faz sentido esses leitos estarem disponível para a covid-19. O aumento considerável das instalações se deu por causa da segunda onda, que exigiu do Estado e dos municípios uma disponibilidade maior da oferta de leitos”, indica o especialista.

RN destinou R$ 286 milhões para a pandemia
O RN destinou R$ 286,5  milhões  para gastos com a pandemia em 2021, de acordo com informações da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN). O montante inclui os valores que o Fundo Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte recebeu do Governo Federal, de R$ 10,5 milhões, além de R$ 133 milhões de recursos próprios do Estado, somados a R$ 43 milhões do exercício de 2020.

Conforme a Sesap, foram empenhados desse total, R$ 200,7  milhões. As despesas se referem, segundo a pasta, a contratação de pessoal temporário e outras despesas  (R$ 45,4 milhões); plantões médicos – cooperativas e pessoas jurídicas (R$ 43,4 milhões); e R$ 39,3 milhões  com material médico-hospitalar e laboratorial, medicamentos e material de limpeza e outros insumos.

Ainda segundo a Sesap, as despesas incluem R$ 28 milhões de  com contratos de locação e operacionalização de leitos de UT e R$ 25,7 milhões de transferências a Fundos Municipais de Saúde do RN.

A Sesap esclareceu que R$ 11,5 milhões foram destinados a contratos de serviços de manutenção de equipamentos hospitalares e outros serviços e R$ 5,3 milhões com aquisição de equipamentos hospitalares e laboratoriais.  

Por fim, segundo a Sesap, foram R$ 1,1 milhão para  contratos com clínicas de diálise e R$ 732 mil para aquisição de EPI. A pasta informou ainda que a média de custo diário de de cada leito de UTI é de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil.

O restante do valor total destinado ao combate à pandemia este ano (R$ 85,8 milhões) servirá para despesas com contratos futuros. A Sesap disse ainda não ter previsão do total de recursos que será destinado à crise sanitária em 2022.

Entidades médicas criticam diminuição
O presidente do Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed RN), Geraldo Ferreira, criticou a desativação de leitos no Estado. Para ele, a distribuição das instalações para pacientes que precisam de atendimento em outras patologias deveria ser analisada. 

“O déficit na estrutura hospitalar da rede de Saúde do Estado sempre existiu. E agora estamos pagando um preço alto pelas desativações dos leitos covid. Quando visitamos as UPAs, que hoje são a porta de entrada do SUS, percebemos que elas  funcionam como mini hospitais, por falta de leitos em toda rede pública”, declara. Ele cita que há quase 300 pacientes diabéticos à espera de uma cirurgia vascular no RN, que deve-se, em parte, à desativação do Hospital Ruy Pereira.

“É muita gente aguardando internamento. E nós estamos elevando essa fila por falta de leitos que deveriam ser destinados a esses pacientes”, afirma. Geraldo Ferreira destaca que o momento atual tem registrado um aumento na busca por atendimentos hospitalares de patologias que tiveram o tratamento interrompido em razão da pandemia. 

“Durante a crise sanitária, houve um represamento natural da busca por outros atendimentos, sejam eles clínicos ou cirúrgicos. Tanto é que hoje nós temos um agravamento de situações renais, cardiológicas e diabéticas”, frisa.

O vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern), Elio Barreto, afirma que  há uma pressão do SUS provocada pelo retorno de pacientes em busca de atendimento para outras patologias e que, por isso, a criação de novos leitos gerais é importante. 

“Paralelo à covid, nós temos um número de outras mortes muito grande, como no caso de  doenças cardiovasculares e câncer. E quem tem essas doenças enfrenta agora dificuldade de retomar os tratamentos, que ficaram paralisados durante mais de uma ano e meio ou sofreram com  atendimentos subdimensionados”, sublinha Barreto.

“Os leitos [desativados],  deveriam ser convertidos em leitos de Terapia Intensiva para tentar atender a essa demanda que ficou reprimida na pandemia”, acrescenta o vice-presidente do Cremern. Geraldo Ferreira, do Sinmed, concorda: “Seria melhor que esses leitos fossem revertidos, em vez de encerrá-los”, aponta.

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