Números de HIV na terceira idade preocupam autoridades

Publicação: 2019-07-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariana Ceci
Repórter

Ano a ano, o Brasil vem apresentando crescimento no número de pessoas idosas com HIV. Novos medicamentos que possibilitam a continuidade da vida sexual mesmo com a idade avançada e aplicativos de relacionamento que facilitam encontrar parceiros, unidos à resistência cultural ao uso da camisinha pela faixa etária e a falta de campanhas de conscientização voltada para o público, foram alguns dos motivos que, de acordo com especialistas, levaram ao aumento de 103% no número de casos ao longo dos últimos 10 anos.

Tratamento para os idosos requer mais atenção em função de outras doenças que eles podem já ter em decorrência da idade
Tratamento para os idosos requer mais atenção em função de outras doenças que eles podem já ter em decorrência da idade

Apesar de ter demonstrado um aumento em relação há 15 anos , quando praticamente não havia casos registrados da doença nessa faixa etária acima de 60 anos, o Rio Grande do Norte vem mantendo números estáveis de casos ao longo dos últimos cinco anos. Em 2018, foram 28 notificações de casos de HIV, um a menos do que os casos registrados em 2017 e, até o mês de abril de 2019, de acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria do Estado de Saúde Pública (Sesap), 5 casos foram registrados no Estado.

Nos casos registrados de Aids, que se referem ao estágio no qual o vírus HIV apresenta sintomas da doença, os números são um pouco maiores, mas também se mantém estáveis: foram 34 casos notificados em 2018 no Estado, 29 em 2017 e 28 em 2016. Em 2014 e 2015, foram 33 e 30 casos, respectivamente.

O infectologista e diretor do Hospital Giselda Trigueiro, André Prudente, explica que os sub-diagnósticos, no entanto, ainda são uma realidade para essa parcela da população. “Como as pessoas nessa faixa-etária têm diversas doenças, elas acabam sendo diagnosticadas para outras doenças e acabam morrendo sem o diagnóstico correto”, afirma o médico.

Ainda de acordo com ele, apesar do número não ser tão expressivo quanto nas faixas-etárias de 20 a 29 anos e 30 a 39 anos, que concentram 62% dos casos do Rio Grande do Norte, as notificações devem servir como sinal de alerta para as autoridades. "Há 10, 15 anos atrás esses números eram praticamente inexistentes.", afirma.

Nacionalmente, de acordo com o Boletim Epidemiológico de 2018 do Ministério da Saúde, o país saltou de 168 casos, em 2007, para 1410, em 2017. Até junho de 2018, 627 novos casos haviam sido diagnosticados no país.

O envelhecimento da população e a maior facilidade em adquirir medicamentos que podem prolongar a vida sexual de pessoas acima de 60 anos, de acordo com o médico, influenciaram os números.

“Há uma questão cultural. Convencer essas pessoas que agora voltaram a ter vida sexual ativa, depois dos 60 e até 80 anos, como é o caso de alguns pacientes que já vimos, é algo muito difícil, porque esse componente não faz parte da vida deles”, relata Prudente.

A não utilização de camisinha nas relações sexuais é um denominador comum, de acordo com o médico, tanto entre os mais jovens que estão sendo infectados pelo vírus, como entre os mais velhos. Os motivos, no entanto, são distintos: “Os jovens tem sido acometidos cada vez mais com HIV. No início da pandemia, a maioria das pessoas com a doença estavam entre 30 e 40 anos. Hoje a gente vê que o aumento de casos entre pessoas de 20 anos está vindo com força, porque essas pessoas não viveram o medo da doença que era disseminado da década de 90, quando morreram muitas pessoas famosas e ela era muito noticiada”, explica André Prudente.

Além disso, de acordo com o médico, nunca houve campanhas voltadas especificamente para o público idoso no que diz respeito à conscientização sobre a doença. Muitos, ao receberem o diagnóstico, acabam encarando a doença como uma “sentença de morte”, o que está longe da atual realidade da medicina para pessoas com HIV.

“Hoje, a HIV é comparável à diabetes, no sentido de que é uma doença que não possui cura, mas com o tratamento adequado, é possível viver com qualidade”, afirma o infectologista. O tratamento para os idosos, no entanto, requer mais atenção em função de outras doenças que eles podem já ter em decorrência da idade, além dos possíveis efeitos colaterais dos remédios, que podem ser potencializados.

“Alguns dos medicamentos trazem efeitos colaterais a longo prazo, como o aumento do colesterol, triglicerídios, aumento no risco de infarto ou AVC. Mas de uma maneira geral, nós não temos tanta dificuldade com o tratamento em relação ao coquetel”, afirma.













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