Nas pegadas de Lampião no ‘lombo’ de uma moto

Publicação: 2010-05-30 00:00:00 | Comentários: 1
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Valdir Julião  repórter

Em lombo de cavalo, de jumento ou a pé, a incursão do bando do capitão Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, pelo Rio Grande do Norte, na segunda década do século XX, durou apenas três dias: tempo suficiente para virar lenda e se perpetuar no imaginário popular dos potiguares, além de se converter no anti-herói de Mossoró, que era o principal alvo da cobiça dos cangaceiros por ser, como é ainda hoje, o município polo e mais rico da região Oeste.

A Gruta da Carrapateira, em Felipe Guerra, foi uma das três grutas que abrigaram os fugitivos do bando de Lampião, expulsos de MossoróOito décadas depois e por conta da argúcia e curiosidade de dois espeleólogos (estudiosos das cavernas) esse percurso de Lampião foi refeito ao longo de 90 dias. Entre idas e vindas, o técnico em turismo Rostand  Medeiros e o advogado Sólon Almeida Netto revezaram-se em seguir uma trilha de 500 quilômetros entre o município de Luís Gomes, por onde o bando de cangaceiros entrou no Estado, e Mossoró, última cidade escolhida para encerrar a onda de saques em território potiguar.

“Nessa época, em junho de 1927, só existiam sete municípios na região”, diz o pesquisador Rostand Medeiros, que ao invés de cavalos, usou o “lombo” de motos para refazer a cavalgada de Lampião pelo sertão do Rio Grande do Norte.

Rostand Medeiros explicou que a ideia de se percorrer os rastros de Lampião e seu bando, surgiu depois de descobrir e ouvir de algumas pessoas - “filhos e netos de moradores da região  que viveram naquela época” -, relatos sobres as escaramuças dos cangaceiros, como roubos, saques, pilhagem, raptos,  seqüestros e violência cometida contra as pessoas e fazendas que vinham encontrado pela frente.

Medeiros diz que, com seu companheiro Sólon Almeida Netto fizeram dois trabalhos, um que resultou numa pesquisa sobre 83 cavernas da região Oeste e o segundo, um relatório de 300 páginas, que chamou de “Nas pegadas de Lampião”.

Nesse segundo trabalho, segundo Medeiros, existem relatos de pessoas, cujos ascendentes fugiram de suas casas e se esconderam em cavernas para escapar dos cangaceiros: “Nós percorremos quinze cavernas, mas descobrimos que só três cavernas serviram de esconderijo, duas em Felipe Guerra e uma em Baraúna, que na época pertencia a Mossoró”.

 O espeleologista Rostand Medeiros disse que, ele e seu amigo, tentaram percorrer, ao máximo, os mesmos trechos onde passaram Lampião e seu bando, contando com informações orais, principalmente, das pessoas mais velhas dos municípios originalmente percorridos pelos cangaceiros: Luís Gomes, Martins, Pau dos Ferros, Apodi, Caraúbas e Pau dos Ferros.

Com o tempo, explicou ele, houve desmembramento territorial e criação de outros municípios, por isso, a trilha de Lampião foi  percorrida em 18 municípios.

Por onde Rostand e Almeida Netto andavam, iam descobrindo coisas e vestígios sobre o período e a passagem de Lampião pela região Oeste. “Nossa proposta foi conhecer e percorrer o caminho o  mais próximo da realidade dos fatos que ocorreram”, sintetizou o pesquisador, cujo trabalho e de seu companheiro, despertou o interesse em transformar o episódio numa forma de induzir e desenvolver negócios na área de turismo na região. “É o que estão chamando de culturalização da economia”, completou.

Missa do Soldado é um dos marcos da passagem de Lampião pelo RN

Para refazer o mesmo roteiro da passagem de Lampião no Rio Grande do Norte, entre os dias 10 e 13 de junho de 1927, o pesquisador Rostand Medeiros  se baseou em pelo menos três livros publicados sobre o cangaço, de autoria dos escritores Raul Fernandes, Raimundo Nonato e Sérgio Dantas. “Cada um tem o seu foco, a sua importância”, afirmou ele.

Mas Rostand Medeiros não dispensou “a oralidade” das pessoas que foi encontrando, nem os “casos e causos” que lhe foram contando. Ele disse que descobriu algumas coisas inéditas, como a realização da chamada “Missa do Soldado”, que é celebrada em homenagem ao policial José Monteiro de Matos, morto em combate contra os cangaceiros de Lampião, no confronto que foi chamado pela população de “Fogo da Caiçara”.

Segundo Rostand, as tropas da Polícia do Rio Grande do Norte enfrentaram os cangaceiros na localidade denominada Junco,  hoje situada a cinco quilômetros do município de Marcelino Vieira, no Alto Oeste. No decorrer do combate, às vésperas da invasão a Mossoró, segundo relatos, os soldados foram recuando, enquanto o soldado Monteiro ficou no local e teria dito o seguinte: “Morro, mas não corro”.

Por conta disso, a “Missa do Soldado” é realizada, anualmente, a cada 13 de junho, na Dia de Santo Antonio, na capela homônima. “O povo mantém a tradição”, disse Rostand. Próximo ao açude da Caiçara também foi construído um monumento em homenagem ao soldado morto em combate com os cangaceiros.

O pesquisador  conta que descobriu, no município de Luís Gomes (Alto Oeste), a casa que pertenceu ao pai do cangaceiro Massilon Leite,  que  foi o guia de Lampião para adentrar no RN, inclusive prestando informações sobre Mossoró, a qual Lampião decidiu atacar.

Deste município potiguar, que faz divisa com a Paraíba, o capitão Virgulino iniciou suas escaramuças pelo RN, que terminou com o ataque e sua retirada em Mossoró, em virtude da resistência comandada pelo então prefeito Rodolfo Fernandes.

Aos 92 anos, dona Leonila fala de Lampião

Entre os municípios de Felipe Guerra e Caraúbas está situada, na fazenda Santana, uma das

duas grutas das redondezas que serviram de esconderijo para os fugitivos do bando do capitão Virgulino Ferreira da Silva.

Nessa gruta, denominada “Tapia de Zé Félix”, escondeu-se em 12 de junho de 1927, dona Leonila Tomé de Souza Barra. Hoje, aos 92 anos, falou de suas lembranças aos pesquisadores Rostand Medeiros e Solón Almeida Netto.

Os pesquisadores localizaram dona Leonila Barra em 12 de setembro de 2009. Através de suas lembranças, pois ela tinha dez anos quando ocorreu a fuga da família comandada por sua mãe, souberam que a matriarca Tionila Nogueira Barra e os moradores  buscaram refúgio na fazenda Passagem Funda, a cerca de três quilômetros de sua propriedade, onde se abrigaram por quase 30 dias nessa gruta.

Segundo os pesquisadores, Leonila Barra recordou que em meio à notícia da aproximação do bando de Lampião e a todo o tumulto que tomou conta da região, estava com algumas de suas nove irmãs no casarão do Mato Verde debulhando vargens de feijão, quando um portador trouxe a notícia da aproximação do bando.

“Na sua ingenuidade infantil, ela não acreditou na história do mensageiro. Diante dos fatos, sua mãe parte para juntar tudo que pudessem carregar e se esconderem, mas devido à chegada da noite, decidem dormir na fazenda”, historiou Medeiros.

“Quem atualmente visita o local, o encontra preservado tal como era naqueles estranhos dias de junho de 1927”, diz o relatório dos dois espeleólogos.

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Comentários

  • ps7jn

    Esse é o verdadeiro espírito da aventura aliada a busca pelo passado. Tive o prazer de acompanhar e ter a companhia desses caras desde 1993 quando exploravamos cavernas antes mesmo do poder publico (dizer) fazer. A falta de incentivo a pesquisa cultural no RN não impediu que pessoas tirassem do seu proprio bolso pra buscar desvendar os misterios da nossa terra. Daí deve vir o nome: amador, aquele que ama o que faz.