Natal: 420 anos de transformações

Publicação: 2019-12-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Uma palavra percorre os 420 anos, completados neste dia 25 de dezembro, da história de Natal: modernidade. O discurso ansioso em busca de se tornar moderna existe há mais de um século, materializado pelo jornalista Manoel Dantas no livro “Natal daqui a 50 anos”, publicado em 1909, e nunca foi abandonado. Foi em torno dessa narrativa que a política urbana de Natal girou nos últimos 20 anos, provocando discussões entre atores sociais, mas o cenário da cidade permaneceu o mesmo em muitos aspectos.

Mas o que mudou em Natal entre 1999, no crepúsculo do segundo milênio, e 2019? A pergunta foi levada à professora Ruth Ataíde, do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que atua desde a década de 80 na área de urbanização da cidade e participa do terceiro processo de revisão do plano diretor. “Nos últimos 20 anos, Natal passou a olhar para a função social e ambiental da cidade, após o Plano Diretor de 1994, que orientou o crescimento na primeira década de 2000”, responde.
Créditos: foto: Canindé Soares. Ilustração: mapa holandêsNatal: 420 anos de transformaçõesNatal: 420 anos de transformações

Natal: 420 anos de transformações

Para Ruth, os habitantes e os gestores de Natal passaram a equilibrar melhor aspectos sociais, ambientais e econômicos nessas duas décadas. O processo aconteceu em paralelo ao surgimento de grandes obras na cidade e no entorno, como a Arena das Dunas, a ponte Newton Navarro, o ginásio Nélio Dias e o Aeroporto Internacional Aluísio Alves. “Em muitas cidades brasileiras, você tem muitos projetos que mudam totalmente a cidade, expulsam habitantes. Aqui, nós conseguimos consolidar políticas em paralelo com a chegada dessas grandes obras”, conta.

Símbolo do amadurecimento da preservação ambiental em Natal nos últimos 20 anos é o Parque da Cidade, localizado no conjunto Cidade Satélite. O parque, construído no final de 2006, é a primeira experiência de gestão municipal em uma Zona de Proteção Ambiental de Natal e atua para a preservação de uma das principais fontes de recarga do aquífero de Natal, responsável por cerca de 70% do abastecimento de água da cidade.

Por outro lado, há problemas que perduram nesses 20 anos, imutáveis. No dia 4 de julho de 1999, a manchete desta TRIBUNA DO NORTE destacou o abandono da orla marítima de Natal. Com uma fotografia do Forte dos Reis Magos, a legenda o chama de “Cartão de visita decadente da cidade” e a reportagem destaca a fuga dos turistas da orla. Hoje, o Forte dos Reis Magos continua decadente, fechado para visitas e com data de reabertura para 2021.

No mesmo ano, o bairro da Ribeira também foi manchete no jornal pela decadência do “bairro boêmio”, apesar da existência de projetos de revitalização. Em 2019, o bairro foi destaque, mais de uma vez, pelo esvaziamento da programação cultural do bairro. As casas de shows fecharam, entraram em obras ou foram vendidas. A Ribeira se esvazia cada vez mais. Para parte dos empresários, talvez seja o momento mais difícil desde a revitalização de 1996. Assim como antes, existem projetos de revitalização pensados para a área, como a construção de um píer ao longo do rio Potengi, mas que não saem do papel.

Para a professora Ruth Ataíde, os problemas relacionados ao patrimônio – material e imaterial – histórico de Natal estão ligados ao discurso de modernização que existe há mais de uma centena de anos. Em meio às disputas da atual revisão do Plano Diretor, que relaciona visões antagônicas, Ruth Ataíde considera que, pelo menos nas duas décadas, a cidade deu alguns passos em direção à preservação histórica. “A sobrevivência de algumas áreas e populações nesses últimos anos aconteceu pelo reconhecimento da existência delas nos planos diretores, que passou a olhar pelo social”, resume.

Zona Norte

De cidade-dormitório a novo pólo econômico de Natal, a zona Norte, que aglutina 300 mil habitantes, foi a zona que mais cresceu nas últimas duas décadas. Em 2007, o maior e mais populoso bairro de Natal, Nossa Senhora da Apresentação, foi finalmente urbanizado com obras do PAC. As obras com maiores mudanças econômicas foram dois shoppings construídos no bairro Potengi, em 2007. Uma das obras que marcaram a zona Norte foi o ginásio Nélio Dias, principal praça poliesportiva de Natal. Inaugurado em dezembro de 2008, se encontra subutilizado e corre o risco de cair no ostracismo.
Créditos: Adriano AbreuGinásio Nélio DiasGinásio Nélio Dias
Zona Oeste

Na zona Oeste, a inauguração do Parque da Cidade, em 2006, significou um avanço da gestão municipal em torno de uma Zona de Proteção Ambiental. Nesses últimos 20 anos, é nesta zona que fica o bairro que mais cresceu em Natal, o Planalto. O crescimento de domicílios foi cerca de 213%. Investimentos privados chegaram ao local, sobretudo com o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), mas há uma ausência de recursos público. As atividades econômicas no bairro crescem aos poucos, mas ainda há uma predominância de “bairro-dormitório”.
Créditos: Adriano AbreuZona OesteZona Oeste
Zona Leste

A ponte Newton Navarro, que liga a zona Leste de Natal à zona Norte, foi a maior mudança na paisagem de Natal nessas últimas duas décadas. Logo virou cartão postal, mas, na avaliação de parte da população, ofuscou o Forte dos Reis Magos, cada vez mais abandonado. O bairro da Ribeira continua em uma situação de abandono. Bairros como Santos Reis, Brasília Teimosa, Mãe Luísa e Rocas conseguiram continuar com os habitantes locais, graças ao plano diretor de 2007, apesar do crescimento imobiliário na cidade e interesse na construção de áreas mais próximas da orla da cidade.
Créditos: Adriano AbreuPonte Newton NavarroPonte Newton Navarro
Zona Sul

Na avaliação da arquiteta e urbanista Ruth Ataíde, é na zona Sul de Natal que está o bairro que mais despertou e foi modificado pelo interesse econômico nas últimas duas décadas de Natal: Ponta Negra. O bairro viu o crescimento de imóveis em um curto período de tempo, quando o limite de gabarito foi extinto na região, e teve a paisagem alterada. Outra mudança foi a Arena das Dunas, construída para a Copa do Mundo de 2014, substituindo o antigo Machadão. A arena se tornou um cartão-postal da cidade e passou a ser um local de grandes eventos.
Créditos: Adriano AbreuAvenida Roberto FreireAvenida Roberto Freire


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