Natal 420 anos: Nas últimas duas décadas cidade cresceu para áreas sem estrutura

Publicação: 2019-12-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

Com 420 anos completos em 2019 e convivendo com um processo de revisão do seu Plano Diretor, a cidade de Natal apresentou um crescimento urbano e populacional para as zonas Norte e Oeste da cidade, tornando-as, nas últimas duas décadas, nos maiores espaços administrativos da cidade. Em termos populacionais, a zona Norte saiu de 244.743 moradores, em 2000, para 360.122, em 2017. A Oeste, por sua vez, saiu de 195.584 para 235.072, em 2017.

Créditos: Adriano AbreuSegundo a carteira de IPTU do município, entre 1999 e este ano, a zona norte cresceu 168% em termos imobiliáriosSegundo a carteira de IPTU do município, entre 1999 e este ano, a zona norte cresceu 168% em termos imobiliários
Segundo a carteira de IPTU do município, entre 1999 e este ano, a zona norte cresceu 168% em termos imobiliários

Os dados foram retirados do Anuário do Município de Natal, disponibilizados pela Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (Semurb). Além disso, segundo dados da Secretaria de Tributação, essas duas zonas, inclusive, cresceram 168% e 75%, respectivamente, na carteira de IPTU do município, entre 1999 e 2019.

Nos anos 2000, por exemplo, a zona Norte tinha 59.721 domicílios particulares permanentes. Em 2010, por sua vez, ano do último Censo do IBGE, o número já era de 86.484. A taxa de crescimento na década foi de 3,77. Já a Oeste, com taxa de 2,91 na década, saiu de 47.209 domicílios para 62.897. No número de domicílios, os bairros com mais crescimento são Nossa Senhora da Apresentação e Redinha e o Planalto, com a maior taxa entre todos os bairros. Confira dados ao final da reportagem.

Ao mesmo passo que essas zonas da cidade foram as que apresentaram maior crescimento populacional e de domicílios, escoando, inclusive, para municípios limítrofes a Natal, autoridades e especialistas afirmam, entretanto, que a ida dos natalenses para essas zonas não foi acompanhada com a mesma velocidade pelo poder público, uma vez que essas zonas ainda carecem de serviços e equipamentos públicos.

“Onde se tinha menor infraestrutura, onde a gente não apostava adensar, ocupar, é onde aconteceu. Natal teve um crescimento, e é um pouco preocupante, para as áreas onde temos menos infraestrutura instalada, que é esgotamento sanitário, drenagem de água de chuva, resíduos sólidos e abastecimento público de água, além da questão da mobilidade e acessibilidade”, aponta o secretário de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal, Thiago de Paula Nunes Mesquita. 

Ainda de acordo com o secretário, que coordena o processo de revisão do Plano Diretor de Natal, essa ida dos natalenses para essas áreas se deu por uma série de fatores, como os valores do terrenos, por exemplo. Como essas duas zonas não tinham desenvolvimento adequado, sendo classificadas, inclusive,  zonas de adensamento básico no PDN de 1994, os terrenos tinham valores mais acessíveis, o que levou à migração da população para esses locais.

Thiago acrescenta ainda que questões ligadas ao coeficiente de aproveitamento desses espaços, isto é, o gabarito que um prédio pode ter com relação à sua altura, se soma a essa discussão. 

“Os municípios circunvizinhos colocaram coeficientes de aproveitamento superiores aos de Natal em relação ao Plano Diretor. E você teve uma atração tanto imobiliária para essas áreas quanto a oportunização de terrenos e unidades habitacionais mais baratas do que se tinha em Natal mesmo tendo uma capacidade de construção menor do que os vizinhos”, opina.

Créditos: Adriano AbreuEm termos populacionais, entre 2000 e 2017, zona Oeste passou de 195 mil para 235 mil pessoasEm termos populacionais, entre 2000 e 2017, zona Oeste passou de 195 mil para 235 mil pessoas
Em termos populacionais, entre 2000 e 2017, zona Oeste passou de 195 mil para 235 mil pessoas

Zonas são “dormitórios” para maioria dos moradores
Apesar de terem os maiores crescimentos urbanos e populacionais das duas últimas décadas, as zonas Norte e Oeste ainda são vistas como “dormitórios” por pesquisadores e analistas urbanos. Essas áreas, por exemplo, concentram as pessoas que precisam se deslocar para trabalhar nas outras regiões da cidade.

“É uma cidade dormitório que vem mudando muito, tem estudos já que revelam uma dinâmica própria ali na zona Norte. Mas ainda tem esse fluxo zona Norte-Centro ainda muito forte. E hoje zona Norte-Sul por conta dos equipamentos e serviços que se instalaram lá. Shopping Midway, Roberto Freire”, explica a  professora e pesquisadora Ruth Ataíde, que atua desde a década de 80 em discussões relativas à urbanização de Natal.

A professora aponta que a zona Norte careceu de um olhar mais aguçado por parte do poder público e também dos investidores nos últimos anos. 

“A zona Norte tem muita carência de provisão de serviços. Não sou da área da saúde, mas vemos ausência de equipamentos de saúde, para uma população que está com 300 mil habitantes. É uma grande cidade, considerando nossas proporções. Ela padece de equipamentos de lazer, saúde e educação e que não precisa mudar plano diretor para prover isso”, aponta.

Vinculada ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a professora cita ainda que, mesmo com essa característica de “dormitório” ainda presente na zona Norte, por exemplo, já há uma dinâmica econômica na região. Mesmo com isso, ela cita que há poucos investimentos de mobilidade na região, por exemplo. 

“A ação fica muito centrada em eixos viários: o eixo da antiga estrada da Redinha, que é a avenida João Medeiros, o novo eixo da Moema Tinoco. Como se a vida urbana ali só pudesse ser realizada nesses dois eixos, quando na verdade, toda a região Norte tem um desenho no seu interior de grandes e belas avenidas que precisam de um olhar mais cuidadoso”, revela. Uma dessas obras, inclusive, o Pró-Transporte, conjunto de obras para a área, se arrasta desde 2005.

Com relação a zona Oeste, por exemplo, que tem o bairro com maior crescimento populacional e de domicílios nos últimos anos, o Planalto, a pesquisadora também cita que, a partir da ideia de que aquela área era de interesse social, investimentos do Minha Casa Minha Vida (MCMV) foram para o local.

“Você tem uma dinamização da ocupação que pode-se entender como positiva. Porém, ela está completamente isolada do contexto urbano e as condições com que aqueles equipamentos foram instalados ali. Foi instalado só o lugar de morar. Não tem nenhum equipamento, pior, não tem nem acesso a transporte. É muito preocupante a ideia de prover moradia só pelo abrigo, não pelo conceito amplo do que é morar”, conclui.

Zona Sul e Leste
Caracterizadas como zonas adensáveis pelo último macrozoneamento de Natal, as zonas Sul e Leste da capital também apresentaram particularidades nos seus últimos 20 anos. Enquanto a zona Sul viu,  por exemplo, Capim Macio e Ponta Negra crescerem consideravelmente em termos de serviços, a zona Leste, em algumas áreas, teve mudança de perfil, o que é apontado como um fator de não adensamento.

“Você pega hoje a Ribeira, o Centro, Alecrim, você mudou o uso. É um uso mais comercial do que residencial. Como tem uma predominância desse tipo de uso do solo, quem mora lá questiona muito morar porque após às 18h acaba ficando uma sensação de isolamento”, aponta o secretário Thiago Mesquita. “É um fator que levou as pessoas a direcionar mais em Ponta Negra ou no Planalto ou nos bairros da zona Norte, porque são mais domiciliares”, explica.

A zona Sul, por sua vez, de acordo com a pesquisadora Ruth Ataíde, foi a “que mais mudou, visivelmente”. “Você tem um eixo que foi sendo ocupado. Capim Macio é uma área com restrição de ocupação, mas que nem assim inibiu a ocupação. Você pode construir, na região Norte, tanto quanto você pode em Capim Macio. Só precisa ter o terreno. É sabido que não basta mudar a legislação”, aponta.

O que
Evolução da carteira de IPTU em Natal

1999
zona Norte: 39.344
zona Sul: 52.880
zona Leste: 38.635 
zona Oeste: 44.902

2019
zona Norte: 101.521 (+ 168%)
zona Sul: 92.151 (+ 74%)
zona Leste: 57.039 (+ 47%)
zona Oeste: 78.598 (+ 75%)

Fonte: SEMUT/Natal

População residente em Natal por zona

2000
zona Norte: 244.743
zona Sul: 155.882
zona Leste: 116.106
zona Oeste: 195.584

2017 (dado mais recente)
zona Norte: 360.122 (+ 47%)
zona Sul: 175.332 (+12%)
zona Leste: 114.649 (-1%)
zona Oeste: 235.072 (+ 20%)





Fonte: Anuário de Natal

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