Natal em trânsito

Publicação: 2018-03-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Desbravador de palcos e sets de filmagem pelo Brasil, o ator e dramaturgo César Ferrario é também é explorador da própria cidade. O artista preserva o habito de circular por Natal desde a adolescência, quando, chegado de Mossoró, onde nasceu, encontrou na capital potiguar uma lugar de horizontes infinitos para se explorar. À pé, de ônibus, bicicleta ou carro, sozinho ou acompanhado, ele já passeou por todas as zonas limítrofes de Natal. E continua a passear, descobrindo nas esquinas do caminho histórias que ganham novos tons em sua mente imaginativa.

César Ferrario, ator e dramaturgo
César Ferrario, ator e dramaturgo

“Fazer rotas inusitadas pela cidade é como escutar música no rádio. Você vai sendo surpreendido a cada curva feita”, explica César. De volta a Natal depois de encerrada a trajetória de seu personagem Rato na novela “O Outro Lado do Paraíso”, ele tem dado seus giros pela urbe. Mas agora o ator flaneur tem um novo companheiro de aventuras, a Kombi Moby Dick. Adquirido em meados do ano passado, o automóvel já tem sido fundamental na vida do potiguar. A Kombi está servindo no transporte da estrutura do espetáculo “Meu Seridó”, em circulação pela Grande Natal – a peça é dirigida por César e conta com a companheira Titina Medeiros no elenco.

Mas o ator prevê outros desafios para Moby Dick. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE ele detalha um pouco da ideia de transitar pela cidade a bordo de sua Kombi num projeto de Forró Mambembe. E num período em que muitas pessoas se sentem indispostas a circular para além de seus trajetos habituais – muito devido a insegurança que reina em todo o Estado –, César também lembra que é sim possível recuperar o costume de explorar a capital potiguar. Mesmo para os moradores mais antigos, não dá para negar que a cidade cresceu absurdamente nos último anos. Com certeza há uma outra Natal aí fora para ser descoberta.

Primeiras rotas
Cheguei em Natal em 1989, com 13 anos, vindo de Mossoró. Houve em mim naquela chegada um verdadeiro deslumbre. Adolescente, andei de ônibus inúmeras vezes sem rota pela cidade. Cometia a insanidade de tirar três tickets do meu orçamento mensal de transporte – o que naquela época era uma verdadeira farra, diga-se de passagem –, para circular por Natal. Naquela época os ônibus eram a gás. As linhas não eram numeradas. Havia apenas o nome do destino. Eu entrava em linhas que não tinha a mínima ideia de onde ia dar. Passava pela Zona Norte, Zona Oeste. Também gostava de leva um walkmen de fita k7. Ia escutando música, com a cabeça se enchendo de ideias. Era minha diversão de estudante com poucos recursos financeiros.

Nova Descoberta
Nova Descoberta foi meu lugar de chegada em Natal. Fui acolhido no bairro por uma tia professora que morava lá, num apartamento muito próximo de onde hoje é o Barracão do Clowns, grupo que sou vinculado. Morei em Nova Descoberta até 2007. Mas mesmo não vivendo mais lá, mantenho vínculos por causa do teatro. A gente promove o Festival (O Mundo Inteiro é um palco) no bairro, o Laboratório além do cortejo do Boi Marinho. Foi o lugar onde mais tempo fiquei em toda a minha vida.

As luzes da cidade
Numa pesquisa por Nova Descoberta para a construção de uma dramaturgia com o Clowns, resolvemos visitar o Cemitério do bairro. A primeira vista o lugar se apresentou como um lugar mórbido, mas depois nos deparamos com alguns elementos inusitados. O primeiro deles foi o silêncio. O segundo,  é que o cemitério fica num declive ascendente. Você vai subindo o morro e lá no alto se encontra um por-do-sol único. Ali a gente estava não apenas dentro da natureza, daquela vegetação farta ao redor, mas acompanhando o acender das luzes da cidade numa situação de absoluto silêncio. Naquele momento a morte nos lembrou a importância da vida. Guardo esse instante comigo.

Lugares que desapareceram
Existia lá perto da Praça Cívica o Instituto Chopin, uma escola de música que eu cheguei a frequentar logo quando cheguei em Natal. Era um casarão belíssimo, antigo, que representava uma arquitetura muito particular da nossa cidade. Esse casarão foi demolido para dar lugar a uma farmácia. Acho isso um sacrilégio. Fico imaginando as famílias que viveram ali, as histórias daquele lugar. É como se células de passado fossem sumindo na nossa frente.

Lugares de resistência
Espero que a gente encontre outras formas de crescimento sem que seja necessário derrubar essas casas antigas. Nesse sentido vale lembrar de espaços de resistência, como a Confeitaria Atheneu, de Dona Silvia, Bar do Coelho, os sebos que sobrevivem na Cidade Alta, mantendo as características físicas do lugar ocupado, o Clube do Radioamadores. Esse pessoal é  merecedor de todo o meu respeito. Gostaria de deixar também o meu desejo de que o (Teatro) Sandoval Wanderley não só permaneça em pé, como seja reaberto, juntamente com o Teatro Alberto Maranhão.

Passeio de Trem
Dia desses eu fui com minha filha até a Ribeira e peguei o trem para Ceará-Mirim. Passeamos pela feira de lá, tudo à pé, caminhamos até a alguns engenhos desativados. Depois fizemos o caminho de volta, no trem. Rompi as fronteiras de Natal em todos os seus pontos cardeais, com exceção do oceano, apesar de me postar diversas vezes diante do mar pelo prazer da contemplação. Nesse desejo de passear já fui a todas as zonas limítrofes de Natal.

Geografia fascinante
A única ressalva que temos sobre Natal ser ou não uma cidade boa de passear é a nossa triste condição de grande violência. Mas isso não é um desprivilégio apenas de Natal. Essa é a grande questão da gente não explorar a nossa cidade de uma maneira livre e desmedida. Há entrâncias na cidade que não se chega de carro, só de bicicleta, por exemplo, naquelas ruas ao lado do cemitério do Alecrim que descem até a beira do rio. Ali tem um entardecer incrível. Assim como no Passo da Pátria, na Pedra do Rosário. Por não querer se arriscar numa curva, a gente se priva de paisagens fascinantes que a nossa geografia tem a oferecer.

Gastronomia fora da rota
Tenho um professor de sanfona que mora no Planalto. Ele me ensinou um caminho alternativo para o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante. Ele aconselhou pegar a RN-226. Ela vai margeando o Rio Potengi, até Macaíba, quando se transforma na RN-160, que conduz até o aeroporto. Nessa rota, você conhece não só a geografia, mas uma natureza pouco vista por nós que moramos aqui. Existe toda uma gastronomia nessa margem do Potengi. Pra quem gosta de tira-gosto sem muitas exigências pra acompanhar um cervejinha ou cachaça no sábado, tem bares interessantes com vista favorável para os resquício de nossa Mata Atlântica ou para a lâmina d'água do Potengi.

Moby Dick
Adquiri uma Kombi no ano passado. É relativamente nova, de 2014, último ano de fabricação regular desse carro. É meu único e exclusivo automóvel. Adquiri essa Kombi branca para ir até o fim da vida comigo. Sempre tive vontade de adaptar para o teatro uma obra clássica de Melville, “Moby Dick”. Numa dessas divagações à bordo da Kombi, vi que o carro se assemelhava muito com uma baleia. De pronto, não só batizei a Kombi de Moby Dick como pensei em um dia montar um espetáculo de rua onde a Kombi possa, se não protagonizar, figurar como um dos personagens. No caso, a própria baleia branca de Melville.

Forro intenerante
Meu objetivo com a Kombi também é montar um forró. E eu já estou ensaiando isso. Forro que possa itinerar pelos bairros da cidade, onde a Moby Dick seja o apoio. Já estou incrementando ela pra isso, colocando cortina, iluminação de led. Creio que em breve vamos realizar algumas intervenções na paisagem urbana da cidade com nosso forrozinho.

O eterno retorno
Como fico muito tempo fora de Natal, voltar pra casa é um estanco de valor absoluto. Mais do que algo prazeroso, é fato necessário. Dessa vez que voltei, no início de março (após o fim das gravações da novela), peguei a Kombi, botei a sanfona dentro e fui parar no sítio Santa Cruz, lá Vera Cruz. Passei um dia lá. Tenho colegas, gente que brinca boi de reis. Começamos a tocar nos bares, na praça, celebrando. Logo se forma uma roda de gente pra eu lembra, sentir, suar, nesse meu lugar. Isso pra mim é muito necessário. Esse regresso. Para me renovar e me abrir para uma nova jornada.


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