Natal endurece regras de combate à covid e restringe horários de bares e restaurantes

Publicação: 2021-02-23 00:00:00
Nos últimos 35 dias, o aumento de casos confirmados de covid-19 somente em Natal foi de 12,25% (de 32.447 para 36.423). O índice de mortes causadas pela doença foi maior no período: 14%. Esses dados, além da situação preocupante da pandemia no resto do Rio Grande do Norte, com elevação de notificações da infecção e de iminente colapso da rede assistencial, levou o prefeito de Natal, Álvaro Dias, a confirmar a edição de um novo decreto endurecendo o combate ao avanço do novo coronavírus.

Créditos: Adriano AbreuPrefeito de Natal,  Álvaro Dias, convocou a imprensa na manhã dessa segunda-feira (22) para anunciar medidas contra a covid-19Prefeito de Natal, Álvaro Dias, convocou a imprensa na manhã dessa segunda-feira (22) para anunciar medidas contra a covid-19

Conforme declarou à imprensa nessa segunda-feira (22), bares e restaurantes da capital encerrarão o atendimento ao público às 22h, além de outras medidas. A venda de bebida alcoólica será proibida após esse horário. Um lockdown, medida mais drástica, está descartado. 

Na coletiva, Álvaro Dias voltou a defender o uso da Ivermectina, medicação que não tem eficácia comprovada contra a covid-19. “A grande saída é a Ivermectina, com a dosagem certa indicada pelo médico. É ela que impede o acometimento da doença na forma mais grave”, declarou.

Para dar vazão à demanda por internações, haverá a implantação de novos leitos no Hospital de Campanha de Natal (HCN), na Via Costeira. Com as novas providências, o HCN passará a contar com 40 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Até a sexta-feira (19) eram 20. Álvaro Dias anunciou, também, a permanência do funcionamento dos três Centros de Tratamento para a Covid-19 e garantiu que 10 Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município passarão a funcionar em horário estendido, sendo a maioria até às 19h. Algumas unidades, entretanto, funcionarão até às 20h. É o caso da UBS São João, no Tirol; UBS Felipe Camarão II; UBS Bom Pastor e UBS Nova Descoberta. 

Repercussão
Sobre as novas regras, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Rio Grande do Norte (Abrasel RN) disse que já havia sugerido, em uma reunião na semana passada, a proibição do consumo de álcool a partir de um determinado horário, inclusive, em lojas de conveniência.  A Associação esclareceu que está aberta ao diálogo, desde que as decisões sejam tomadas com base no diálogo. 

“A Abrasel sempre teve uma postura extremamente responsável em relação aos decretos. Se alguma coisa precisa ser feita, inclusive no sentido educativo e pedagógico, a Abrasel está à disposição para ouvir e pontuar. O que a gente espera, contudo, é que qualquer decisão seja tomada na base do diálogo”, disse o diretor executivo, Artur Fontes. 

A TRIBUNA DO NORTE tentou ouvir a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-RN) e a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Natal sobre o novo decreto, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.

Entretanto, em situação similar, na qual o Governo do Estado anunciou a determinação de fechamento de bares e restaurantes em todo o território potiguar às 22h, a Fecomércio RN afirmou  “lamentar e externar sua discordância” em relação ao Decreto 30.379/2021-RN. 

Em nota, a Federação ressaltou que a medida que impõe a limitação de horário para funcionamento dos estabelecimentos poderá ser “fatal a centenas de empreendimentos e dezenas de milhares de trabalhadores e suas famílias”.

“Nos causa perplexidade e grande preocupação o fato de que este segmento produtivo, responsável pela geração de mais de 25 mil empregos diretos e pelo pagamento de algo em torno de R$ 29 milhões por mês em salários, seja injustamente e severamente punido, tendo como justificativa a piora de um quadro biossanitário. Podemos garantir que a imensa maioria dos estabelecimentos desses setores cumpre rigorosamente as regras de biossegurança e de distanciamento social, ao tempo em que defendemos que, aqueles que não o façam, sejam punidos com todos os rigores da Lei”, destacou a entidade.

Hospitais privados em Natal registram lotação
O aumento de casos graves de covid-19 não provocou lotação somente nos hospitais da rede pública na Grande Natal. Na maioria das unidades hospitalares privadas, os atendimentos estão em carga máxima e os gestores colocam em prática planos emergenciais de expansão de leitos. Por causa da alta demanda, no domingo passado (21), o Pronto-Socorro do Hospital do Coração fechou durante quatro horas. 

Em três hospitais particulares que responderam à TRIBUNA DO NORTE, a situação é preocupante. Na manhã dessa segunda-feira (22), no Hospital do Coração, a taxa de ocupação de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e também de leitos semi-intensivos para o tratamento da infecção era de 100%. No domingo (21), os atendimentos para covid e não covid no Pronto-Socorro da unidade hospitalar foram suspensos por causa da alta demanda. Os atendimentos voltaram a ser realizados no mesmo dia, por volta das 19h.

Nos seis hospitais credenciados  pela rede Unimed havia 104 pacientes internados com covid-19 nessa segunda-feira. Do total, 57 estavam em estado crítico (35 estavam em leitos de UTI e 22 em leitos de  terapia semi-intensiva). Felipe Marinho, diretor da Unimed Natal, afirmou que não era possível afirmar como estava a capacidade da rede hospitalar, porque o gerenciamento dos leitos ocorre em cada unidade (no hospital próprio da operadora e nas unidades credenciadas).

 “No Hospital da Unimed, especificamente, são 16 pacientes internados no momento. Nesta terça (23) o HU aumenta sua capacidade de atendimento em 25% para suprir a demanda e chegará ao fim desta semana com a abertura de novos leitos”, informou o diretor. 

Ainda segundo a direção do Hospital Unimed Natal, o número de atendimentos de urgência na rede subiu de 4.169 para 4.682 nas duas últimas semanas. Em função da demanda envolvendo  pacientes com covid-19, as cirurgias eletivas foram adiadas por 14 dias a partir dessa segunda-feira, sendo mantidas as obstétricas e oncológicas. 

 No Hospital São Lucas, a demanda também é alta. São 53 pacientes internados com covid-19, dos quais, 20 estão em leitos de UTI, 7 em leitos semi-intensivos e 26 em leitos clínicos. “Estamos trabalhando com uma super demanda. Nossa Urgência permanece aberta até que consigamos atender os pacientes com segurança”, disse a direção do Hospital em nota.

O Hospital Promater não divulgou dados referentes  à ocupação de leitos para tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus. Em nota, informou que, “como resposta ao cenário atual no RN, a unidade opera dentro de sua capacidade e está monitorando o aumento de casos diariamente para adoção de novas medidas, que visam ajudar a operação dentro das melhores práticas, que contempla fluxos exclusivos, aumento do número de leitos e ampliação da equipe assistencial.”

Os Hospitais Antônio Prudente e Rio Grande não responderam às tentativas de contato telefônico. 

Leitos públicos
Conforme a plataforma Regula RN, o Rio Grande do Norte tinha 83,2% dos leitos críticos ocupados no início da noite dessa segunda-feira (22). A região com a situação mais complexa continuava sendo a Metropolitana, com 88,4%, seguida da Seridó, com 77,1%, e da Oeste, com 76,5%.

Consórcio Nordeste previu agravamento
Uma semana antes do carnaval, o Comitê Científico do Consórcio Nordeste para o Combate ao Coronavírus apontava o Rio Grande do Norte como o único Estado da região com real declínio da pandemia. Contudo, previa que a circulação de novas cepas do vírus, o relaxamento das medidas preventivas e o atraso na vacinação levaria ao agravamento da situação, impulsionado pelos eventos de carnaval, se não fossem fiscalizados. 

As projeções do Comitê para o mês de março, divulgadas no dia 12 de fevereiro no Boletim 14, são de que em todos os Estados do Nordeste existe a indicação de possíveis estabilidades, mas em números muito altos, tanto para casos acumulados como para óbitos.

O Comitê já tinha constatado que a situação epidemiológica no RN teve aumento expressivo na primeira quinzena de janeiro, devido às festividades natalinas e festas de final de ano e que, caso não acontecesse a vacinação, o interior do Estado ficaria vulnerável em alguns municípios, exigindo ações locais e eficientes para a atenuação da pandemia. Qualquer variação brusca de contágios poderia trazer uma situação difícil no cuidado primário.

A previsão se concretizou. Uma semana após o carnaval, com as aglomerações que não foram evitadas, a vacinação a passos lentos e a circulação de novas variantes do vírus, os potiguares viram a ocupação de leitos de UTI subir ao ponto de quase todos os hospitais com leitos covid de Natal ficarem sem vagas. 

O Comitê também apontou saídas para o enfrentamento da nova onda, com medidas bem mais restritivas do que as que o Comitê da Sesap propôs na semana passada. Seria necessário um sistema de vacinação efetivo para toda a população, associado a medidas mais tradicionais de prevenção, como uso de máscaras em quaisquer ambientes em que haja aglomeração de pessoas, entre outras.