Natal exportou 4,3 toneladas de cocaína para a Holanda nos últimos 4 meses

Publicação: 2019-02-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

A polícia holandesa apreendeu 4,3 toneladas de cocaína exportada através do Porto de Natal em quatro meses, entre novembro do ano passado e fevereiro deste ano. A informação foi confirmada pela Receita Federal, que investiga com a Polícia Federal a atuação de grupos do tráfico internacional de drogas no Rio Grande do Norte e apreendeu 3,2 toneladas de cocaína dentro do porto nesta semana. Ao todo, a quantidade de cocaína apreendida que seria traficada pelo Porto de Natal à Europa é de 7,5 toneladas. Existem registros de que a capital é uma rota internacional para o tráfico desde 2017.

Droga que passou pelo Porto de Natal desde novembro pode ser avaliada em R$ 974 milhões, segundo dados da Ong Insight Crime
Droga que passou pelo Porto de Natal desde novembro pode ser avaliada em R$ 974 milhões, segundo dados da Ong Insight Crime

Semelhante a detida no Porto de Natal esta semana, a cocaína encontrada na Holanda nos últimos quatro meses também estava dentro de contêineres, camufladas entre caixas de frutas. A similaridade é considerada pelas investigações como indício de que o grupo de traficantes é o mesmo que está ligado às 3,2 toneladas encontradas no Porto de Natal na última terça-feira e quarta-feira. A movimentação financeira somada das duas transações chega a R$ 974 milhões, segundo estimativa da reportagem feita com base no relatório “A nova geração de narcotraficantes colombianos pós-FARC: 'Os invisíveis'”, do centro de pesquisa sobre o crime organizado Insight Crime.

Para se ter um ideia do volume da apreensão em Natal, o Porto de Santos, maior do país e um  dos principais centros de distribuição de drogas para o tráfico internacional, teve no ano passado cerca de 18 toneladas apreendidas. O Porto de Natal, que sequer está entre os 10 maiores do país, movimentou quase metade desse volume em apenas quatro meses.

A primeira grande apreensão em território holandês foi feita no dia 16 de novembro do ano passado, no Porto de Roterdã, com 2,5 toneladas encontradas entre caixas de melão. Um motorista holandês chegou a ser preso por envolvimento com a droga. A outra ocorreu nesta quinta-feira, 14, de 1,5 tonelada de drogas escondidas entre mangas, também com uma prisão. Segundo o jornal holandês RTL Nieuws, o preso é funcionário da alfândega holandesa.

As primeiras informações concretas de que o Porto de Natal estaria sendo utilizado como rota do tráfico são de aproximadamente seis meses, período que coincide com a primeira apreensão em território holandês – divulgada somente um mês depois pelos jornais do país. Fontes ligadas às investigações brasileiras afirmam que a droga estava sendo acompanhada desde então. Até que no início de janeiro foram rastreadas duas cargas para sair de Natal com destino à Europa.

A estratégia foi deixar a primeira carga sair do Brasil. A polícia holandesa foi acionada e interceptou a carga, sendo a apreensão a ocorrida nesta quinta-feira. A segunda carga foi ade 3,2 toneladas detidas pela Receita Federal e Polícia Federal nesta semana. “Fizemos assim porque sabíamos que viam duas cargas. Se pegássemos a primeira no porto, a segunda não chegaria e não pegaríamos”, disse um dos investigadores, que optou por não se identificar por razões de segurança.

Tráfico em 2017
O maior volume de drogas traficadas aconteceu nos últimos quatro meses, mas estatísticas disponibilizadas pela Receita Federal mostram que o Porto de Natal é uma rota para o tráfico internacional pelo menos desde 2017 e para outros países. A Espanha era o destino de 290 kg de cocaína em 2017 e no início do ano passado, antes das grandes apreensões, mais 300 kg foram interceptados na Holanda.

Delegado diz que informações concretas chegaram há 6 meses
Delegado diz que informações concretas chegaram há 6 meses

Questionado na última quinta-feira, 15, desde quando o Porto é uma rota internacional de tráfico, o delegado da Polícia Federal Agostino Cascardo afirmou que as informações mais concretas apontam os últimos seis meses, mas que antes existiam boatos. Um membro da Receita Federal, responsável pelo controle alfandegário, informou que abrir os contêineres como foi feito nesta última semana necessita de uma certeza de que existem drogas. “Caso contrário, podemos fazer a operação, não achar nada e alertar os traficantes”, explicou.

Também no ano de 2017, o Porto de Natal foi passagem do veleiro Rich Harvest, flagrado com 1,1 tonelada de cocaína no Porto de Mindelo, ilha da costa oeste da África. O caso ficou conhecido no Brasil porque três velejadores foram presos e condenados por 10 anos pela Justiça de Cabo Verde por tráfico de drogas. No último dia 7, o trio foi solto depois da Justiça anular a sentença. A defesa alega, com base no inquérito da Polícia Federal, que os três não tinham envolvimento com a carga.

Cocaína em Parnamirim
No dia 25 de novembro do ano passado, a Polícia Federal encontrou 1,3 toneladas de cocaína em Parnamirim, região metropolitana de Natal. A droga estava escondida no subterrâneo de um galpão. A Polícia Federal não confirmou se essa droga tinha destino à Europa ou se tratava para o tráfico interno.

Mas, segundo a Polícia Federal, a descoberta desse galpão ocorreu depois que um caminhão foi flagrado com uma carga de 1,5 tonelada de cocaína em Juazeiro, cidade da Bahia, um dia antes. Três homens foram presos nessa operação da Bahia. À polícia, afirmaram que a droga estava destinada às cidades do nordeste e países europeus.

Se a droga tivesse destino para a Europa, a quantidade de cocaína que passou por Natal foi de 9,3 toneladas. O valor disso ultrapassa R$ 1,2 bilhão.

Etapas
Os carregamentos de frutas exportados  e utilizados  pelo grupo que atua no Porto de Natal passam por até quatro etapas: na primeira, as frutas são produzidas nas fazendas; na segunda, embaladas, empacotadas e colocadas nos contêineres; na terceira, são transportadas até o porto; e na quarta, são exportadas. Esse processo pode envolver quatro empresas, uma em cada etapa. Empresas maiores produzem a fruta e também fazem o embalo e empacotamento.

As investigações da Polícia Federal ainda não identificam em qual etapa a droga foi incluída nos contêineres, mas o delegado Agostinho Cascardo, à frente das investigações, não descarta nenhuma delas. O Porto de Natal assegurou que não é dentro do local que a droga é inserida nos contêineres.

Esse modo de operar difere de outros observados em portos do Brasil. O tráfico no porto de Santos, em São Paulo, rota de conhecida pelos investigadores, recebe a droga na maior parte das vezes diretamente pelos navios, com traficantes se aproximando com embarcações menores e repassando para a tripulação, não passando pelos contêineres. Nesse tipo de operação há uma rede de propinas pagas a funcionários das empresas exportadoras e do porto.

Escâner
Há um fator que facilita a operação diferente em Natal: a falta de escâner de cargas. Isso torna a operação mais barata e menos arriscada. Segundo o delegado Agostinho Cascardo,  fiscalizar a entrada de drogas sem o escâner entre as centenas de contêineres exportados pelo porto é “como procurar um palito de fósforo específico, dentro das caixas de fósforo dispostas em uma prateleira de supermercado”. “Eu não tenho dúvidas que a falta desse scanner foi um elemento primordial para o porto se tornar uma rota”, acrescentou.

Emerson Fernandes, gerente de infraestrutura e suporte operacional do Porto de Natal, informou que desde 2010 a administração portuária (Codern) pretende comprar o escâner de cônteiner, mas não recebe verba suficiente para isso. O valor do equipamento é estimado em R$ 10 milhões. O equipamento é considerado importante, mas segundo Emerson o pedido de compra não tem sido atendido. Desde 2010, a Codern passou pela alçada de três ministérios federais e hoje está subordinada ao Ministério de Infraestrutura.

Origem
Agostinho Cascardo acredita que as drogas são provenientes do Peru, Bolívia ou Colômbia, países que apresentaram um crescimento na produção da droga, segundo o World Drug Report 2017, relatório produzido pelo braço da ONU para Drogas e Crimes (UNODC). A Polícia Federal vai realizar um exame (espécie de “DNA” da droga) para confirmar o país em que foi produzida.













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