"Natal já tem a solução para realizar bons espetáculos", diz doutor em Marketing

Publicação: 2017-06-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Abel Corrêa - Professor doutor em Marketing pela Universidade de Lisboa

Em passagem por Natal, onde veio participar a convite da UFRN, de um seminário internacional sobre gestão e marketing no Futebol, o professor da Universidade de Lisboa, Abel Corrêa, vistou a Arena das Dunas e também foi ver o jogo entre ABC x Figueirense. Nessa entrevista à TRIBUNA do NORTE o especilista fala sobre as virtudes e as falhas que conseguiu detectar nas praças esportivas potiguares. Abel também explica o que transformou o jogo de futebol em um verdadeiro espetáculo em Portugal.
Especialista destaca que a Arena das Dunas é um local perfeito para abrigar os jogos e transformar o ambiente do futebol no RN
Nós podemos dizer que quantos por cento, hoje, o marketing é importante para o futebol?

Eu diria que 100% para o futebol. Quando pensamos no marketing, pensamos na gestão do clube. As coisas são distintas, a gestão do marketing do clube é muito importante por que quando pensamos em marketing, pensamos na troca, na relação entre o clube e o seu torcedor. Não há futebol sem adeptos, não existe o esporte sem a presença da comunidade, sem a população, sem sócios. Então eu diria que a gestão não deve ser do clube, mas do marketing. A atividade tem de ser encarada de uma forma bem profissional. Não podemos fornecer péssimos serviços, administrar os clubes como antigamente e tentar sobreviver apenas vendendo algumas camisas. Temos de pensar em algo novo, que atraia o público a visitar as instalações ou as redes sociais do clube e, com isso, passe a gerar novas receitas.

Como podemos definir a gestão do marketing então?

O marketing exige uma gestão mais clara, mais direta, no sentido de favorecer o acesso do torcedor ao futebol. Mas não é apenas o comparecimento desses torcedores as partidas, temos de possibilitar que os familiares desse torcedor, que é um sócio em potencial, possam também participar dos eventos. Então é preciso pensar no conjunto de produtos e serviços que irá interessar a esse público, essa é a lógica do marketing, pensar na organização para atender aos anseios dessas pessoas.  O marketing nessa perspectiva faz parte 100% do futebol. Na maioria das vezes, no futebol,  não pensam o marketing com essa visão, pensam mais como uma questão de vendas.

Como é essa relação do marketing com o dirigente? Você, mesmo na Europa, deve ter encontrado algum tipo de barreira para implantar o seu serviço?

O que tenho observado nos clubes em Portugal, em especial o Benfica, com quem possuo uma relação mais próxima, devido minha consultoria, é que o clube incorporou conhecimento que veio de gestão de trabalho, não é um conhecimento que veio do dirigente, ele ocorreu através de colocação de pessoas dos patrocinadores dentro das administrações dos clubes. Por outro lado, como gestores dos clubes, eles conectaram boas práticas de futebol em termos mundiais. Perceberam que o Benfica ou entrava na boa lógica dos negócios, seguindo as boas práticas de gestão, ou então iria definhar sem conseguir melhorar o seu evento, sem atrair o público, sem atrair novas receitas, mergulhando o clube num ciclo vicioso do fracasso. Então paulatinamente, foi erguida uma estrutura que além de manter o clube bem na esfera esportiva, mantém o Benfica atuante, em viés de crescimento.

Esse processo foi longo?

O processo durou muito tempo, obviamente houve também a consistência da visão de um administrador. O clube que mudava com frequência de presidente, hoje conseguiu emplacar uma diretoria que vem dando continuidade ao trabalho. O presidente não é contestado hoje por que construiu uma equipe de gestão muito atuante e que foi dando consistência ao trabalho desenvolvido.

O professor teria como citar um exemplo do que viu de errado e conseguiu modificar no Benfica?

Nossa participação no Benfica não foi dentro do vértice estratégico, trabalhamos em conformidade e parceria com o marketing, onde tivemos foco nas questões das qualidades dos serviços oferecidos pelo clube aos seus torcedores. No caso, observamos formas de melhorar as questões que atingia diretamente ao público no estádio do clube, questão de acessibilidade, segurança, conforto, higiene, limpeza e atendimento. Fizemos uma consultoria, elaboramos grades de análise dos serviços oferecidos pelo Benfica e também realizamos o trabalho de identificação e avaliação das questões que não estavam ocorrendo bem. A partir desse relatório foi realizado um profundo trabalho de melhoria nos pontos que interessam ao público. Foram sugeridas algumas melhorias nos serviços de banheiros inclusive. Esse trabalho de avaliação externa deu consistência aos serviços prestados, por que o olhar de fora é sempre uma visão não comprometida, pelo fato de o profissional que ali chega para fazer o serviço, não possuir nenhum tipo de ligação com o dirigente do clube. É sempre a visão mais sincera, então se a gestão quiser aprender algo, ela deve sempre apelar para esse tipo de visão.

Você acompanhou o jogo entre ABC x Figueirense no Frasqueirão, quais os aspectos que pode destacar dessa visita?

Vou começar pelos aspectos positivos então. O Ambiente do estádio e um ambiente de torcedores efusivos, entusiasmado, então qualquer intervenção que venha ser realizada no estádio do ABC não poderá abrir mão desses entusiastas, que são inerentes ao futebol. O torcedor é o 12º jogador e, portanto, tem de participar, com o comportamento no sentido de influenciar a equipe e até mesmo o trio de arbitragem em determinadas situações. Mas em cima disso a questão que eu coloco é que, provavelmente existe pessoas que deveriam estar no estádio e deixaram de ir justamente por conta desse ambiente mais efusivo, que se desenrola na frente do Frasqueirão. Os aspectos de acessibilidade, segurança e de apresentação do estádio hoje não são muito apelativos para atrair o torcedor com a sua família. Eu cheguei a ver algumas crianças e também algumas senhoras, mas muito poucas para o universo que o futebol é capaz de atingir.

Para quem chega pela primeira vez no Frasqueirão, qual a visão que se tem?

Quem chega ao estádio nota  uma confusão muito grande para se chegar aos portões de acesso, não se identifica logo um local seguro para estacionar o carro, os veículos são dispostos em qualquer lugar, até em cima da arena. Depois tem a questão de driblar o trânsito, aquela areia na frente do Frasqueirão também passa uma má impressão. Aí vem a barulheira, a polícia com cavalos no meio do público, são as bebidas fornecidas praticamente no portão de acesso, as barracas com mesas sem nenhuma organização. Eu penso que um ambiente desse tipo não inspira segurança nas pessoas, falta também um maior cuidado com limpeza e higiene. Ambientes assim costumam afastar uma gama importante de consumidores.

Pelo que percebeu, há como realizar alguma mudança neste cenário?

O ABC para subir os preços de acesso ao seu estádio será obrigado a atacar esses problemas. Aquele que é entusiasta vai estar sempre lá, mas tem de abrir o campo de visão para aquele torcedor que não está comparecendo ao estádio. O que ocorreu na Europa há alguns anos, é que todos os serviços foram melhorados através de estudos dos grandes acidentes registrados nos estádios de futebol, onde foram ocasionadas várias mortes e isso atraiu a atenção das autoridades e da gama de pessoas envolvidas com o futebol. Juntos eles passaram a estudar meios para melhorar a segurança e os serviços prestados não apenas no estádio, mas em torno deles nos dias de espetáculo. No ABC pude identificar aspectos negros que já foram banidos dos estádios europeus. Aquelas grades separando o campo do público não existe mais, elas matam pessoas, que em casos de urgência, na ânsia de sair, as pessoas acabam esmagando umas às outras. Os gestores de estádios devem pensar num meio rápido de evacuação do público, com segurança, em caso do registro de urgências e estudos comprovam que o meio mais seguro é correr para o centro do campo. O Frasqueirão precisa se modernizar, as pessoas que têm dinheiro gostam de futebol e hoje estão comparecendo pouco aos estádios e  o clube deve encontrar meios para atraí-las. É uma questão de sensibilidade, eu diria que os estádios têm de se tornar mais feminino. Diria que a saída e a entrada de um estádio têm de ser como um shopping, em termos de metáfora. 

Toda mudança exige um custo, na sua visão, em termos financeiros, esse custo é muito alto? Vale a pena construir boas arenas?

Vale. O Brasil já possui boas arenas. Natal já tem uma boa arena, já gastou dinheiro público para ter a solução para os problemas apontados. Penso que atualmente é só uma questão de entendimento entre as pessoas e entre as entidades esportivas. O povo natalense tem a arena certa para desenvolver um bom trabalho de atendimento ao público, falta saber usar, por que o dinheiro já está gasto. Em Portugal organizamos a Eurocopa em 2004 e o dinheiro usado na intervenção e modernização dos estádios foi de recursos públicos.  No fundo o governo trabalhou para estruturar um setor que para harmonia e para o bem-estar da comunidade é importante, que é esse setor do futebol. O futebol possui uma importância grande em termos sociais e os políticos sabem disso. Para a paz social o futebol ainda é um instrumento poderoso, isso está comprovado.

O profissional brasileiro está aberto a essa troca de experiência realizada em seminários internacionais?

Sou professor, logo sou um otimista. Não é apenas o evento em si, mas sim todas as conexões que provocaram esse evento. Eu estar aqui hoje é o resultado de muitas conversas, eu penso que Natal tem muito a evoluir se voltar sua preocupação para o tema. Sinto a carência de falta de escolinhas dos clubes daqui para atender crianças na faixa de seis aos dez anos, essa lacuna não pode existir. Toda criança quer jogar futebol, lá em Portugal os clubes exploram muito bem essa área e não vi isso justamente aqui.



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