Natal registra aumento de 48,4% de roubo em 2020

Publicação: 2020-02-14 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Anthony Medeiros
Repórter

O quantitativo de registros dos crimes de roubo cresceu 48,4% em Natal entre os dias 1º de janeiro e 12 de fevereiro deste ano em comparação ao mesmo período de 2019. O cenário foi exposto após a TRIBUNA DO NORTE solicitar os números dos Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVP)  à Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social (SESED), que também revelaram um aumento – em menor porcentagem – dos crimes de furtos praticados na capital.

Créditos: Alex RegisSensação de insegurança muda rotina das pessoas que tentam se proteger como podem da ação de assaltantesSensação de insegurança muda rotina das pessoas que tentam se proteger como podem da ação de assaltantes


As duas transgressões fazem parte do que o setor de segurança classifica de Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVP), mas possuem diferenças elementares no modo em que as infrações são praticadas. No furto, não há episódio de violência ou qualquer outro tipo de ameaça contra a vítima. Por sua vez, o roubo consiste na ocorrência de ameaça ou violência contra quem está sendo assaltado.

Este último foi registrado na última quarta-feira, 12, quando o guarda municipal Carlos Antônio Pereira de Melo, de 48 anos, morreu após ser atingido por disparos de arma de fogo enquanto tentava impedir que Guilherme Soares Martins, de 29 anos, roubasse a arma de uma vigilante do Centro de Referência Morton Mariz, no bairro da Ribeira, na zona Leste de Natal.

O crime foi um dos 991 roubos registrados em Natal entre 1º de janeiro e 12 de fevereiro. Em 2019, no mesmo período, foram contabilizados 668 roubos na capital, um número absoluto de 323 casos de roubos a mais do que o registrado nos primeiros 41 dias no ano passado. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o titular da Sesed, Coronel Francisco Araújo, afirmou que existe a sazonalidade em crimes dessa natureza que se acentua em momentos em que existe mobilização de efetivo de um local para o outro, como no início do ano. O secretário detalhou que ajustes administrativos estão sendo tomados para inibir novas ações de CVP's. “O que estamos fazendo é um reforço em termos de estruturação e centralização para melhorar a investigação. Se há um crime de arrombamento em uma loja, por exemplo, e não existir uma certeza de que será feita uma investigação e que existe o risco do infrator ser preso, o criminoso vai assaltar de novo”, explica Araújo.

A reestruturação de delegacias ligadas a crimes contra o patrimônio é uma das medidas. Para a sequência de 2020, a delegada geral da Polícia Civil do Rio Grande do Norte afirma que será executada a centralização de delegacias que trabalham em investigação de CVP's. “As delegacias que apuram esse tipo de crime estarão interligadas, de maneira coordenada, para que haja investigação de maneira cada vez mais assertiva e otimizada”, detalha Ana Cláudia Saraiva.

Sobre furtos, foram registrados 134 crimes dessa natureza até 12 de fevereiro deste ano contra 132 no mesmo período do ano passado – um acréscimo de 1,5%. Levando em consideração as duas infrações, foram 1.125 roubos e furtos entre o início do ano até o dia 12 deste mês contra 800 transgressões dessa natureza no mesmo recorte temporal em 2019 – um crescimento de 40,6%.

De acordo com o Coronel Alarico Azevedo, comandante da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, estão sendo reforçadas as atividades ostensivas da corporação como forma de coibir novas ações. “A Polícia na rua, com ostensividade, também passa maior sensação de segurança. Serão criadas, com inteligência e estratégia, barreiras policiais e blitz nos principais corredores e também em áreas periféricas”, explica o Coronel.

Latrocínios puxam dados para cima
Outra estatística que aumentou, porém em um percentual substancialmente inferior aos CVP's, nos primeiros dias de 2020 em relação ao ano passado foi o número de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI). De acordo com número do Observatório da Violência Letal Intencional (Obvio), ligado à Sesed, foram registrados 39 ocorrências de casos dessa natureza em Natal entre 1º de janeiro e 12 de fevereiro neste ano, contra 38 no mesmo período do ano passado – uma flutuação que acusa um crescimento de 2,6%.

Quatro crimes compõem os CVLI's: homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, latrocínio e feminicídio. Também fazem parte da estatística as mortes por intervenções policiais. Apesar do panorama geral indicar crescimento percentual dos CVLI's como um todo, três dos índices apresentaram redução no período requisitado pela TRIBUNA DO NORTE ao Obvio entre 1º de janeiro e 12 de fevereiro: 25 homicídios dolosos (contra 26 no mesmo período do ano passado), três crimes de lesão corporal seguida de morte (contra quatro no mesmo recorte em 2019) e  nenhum crime de feminicídio (contra um até o dia 12 de fevereiro do ano passado).

No entanto, duas estatísticas puxaram o contingente pra o cenário de aumento: até 12 de fevereiro, foram registrados cinco latrocínios contra três no mesmo recorte do ano passado – um aumento de 66,7%; já em relação à intervenção policial, 6 mortes foram registradas em 2020 até aqui contra 4 até o dia 12 de fevereiro do ano passado, crescimento de 50%.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed), a flutuação é sazonal e não foi percebida apenas no Rio Grande do Norte. A pasta exemplificou que houve crescimento no número de CVLI's nos demais estados no Nordeste e em Amazonas, na região Norte. Além disso, a pasta relembra que no ano passado, quando o RN apresentou 26,3% de redução em relação aos CVLI's em 2018, ainda foram registrados dois meses de crescimento percentual, semelhante ao recorte registrado no início deste ano.

Para a Sesed, a integração da Polícia Militar com a Polícia Civil, ações de inteligência e melhorias nos equipamentos devem restabelecer a variação percentual a níveis positivos. “O trabalho é executado 24h. Os criminosos estão se modernizando e a segurança do RN vive, diariamente, a busca pelo novo, para inovar no combate à criminalidade”, explica o Coronel Araújo. O secretário se refere aos recursos obtidos junto ao Governo Federal, que em 2020 significarão entregas de novos automóveis e armamento para as forças de segurança do RN. Ao todo, cerca de R$ 80 milhões de reais foram repassados para a segurança potiguar e outros R$ 40 milhões em emendas impositivas.

Insegurança: Natalenses não se sentem seguros 

Francisco Luiz
35 anos, trabalhador informal
Créditos: Anthony MedeirosFrancisco LuizFrancisco Luiz


Morador do bairro de Pajuçara, na zona Norte de Natal, Francisco Luiz está desempregado há três anos e depende de “bicos”. As oportunidades, em sua maioria, aparecem no centro da cidade, o que faz com que ele se desloque diariamente entre o bairro onde mora, até a Cidade Alta, onde está ocupado como panfletador. Para ele, não houve redução da sensação de insegurança principalmente onde mora. “Quando tem alguma coisa, o pessoal liga, eles [a polícia] chega com uma, duas horas... Não vê nem a cor [dos bandidos]. Na verdade, nem aqui, eu me sinto seguro”, afirma.

Marcelo Guerreiro Fonseca
25 anos, motorista de aplicativo

Créditos: Anthony MedeirosMarcelo Guerreiro FonsecaMarcelo Guerreiro Fonseca

Apesar da flexibilidade da atividade que exerce, Marcelo dedica 10 horas do seu dia ao serviço de motorista de aplicativo. Percorrendo os quatro cantos da cidade, o condutor considera que não se sente plenamente seguro. “Independente do bairro, eu tenho a sensação que as coisas estão mais perigosas”, afirma. Ele revela que passou por duas situações “suspeitas”, só que fugiu a tempo de ser surpreendido. “A gente acompanha que os números [relacionados à violência] diminuíram. São dados, né? Mas  acredito que tudo continua muito perigoso”, afirma.

Bianca Conceição de Melo Ferreira
27 anos, comerciante

Créditos: Anthony MedeirosBianca Conceição de Melo FerreiraBianca Conceição de Melo Ferreira

Apesar de morar em Cidade Satélite, é no bairro de Candelária que Bianca e sua família gerenciam um mercadinho há pelo menos 10 anos. No período, a comerciante revela que a sensação de insegurança foi se tornando mais latente com o passar do tempo. “Aqui na região, temos notícias de assaltos, principalmente contra mulheres e estudantes”, explica. Nos últimos anos, a situação não parece ter amenizado. “Quando saimos pra trabalhar, não sabemos se voltamos. Em casa, também nos sentimos ameaçados. O medo é constante”, afirma.

Maria da Conceição de Santana
53, motorista particular

Créditos: Anthony MedeirosMaria da Conceição de SantanaMaria da Conceição de Santana

“Moro aqui [em Neópolis] desde 2001. Naquele tempo era bom demais, a gente ficava na calçada até 1h, 2h conversando. Hoje a gente chega na calçada é correndo pra dentro de casa”. Maria da Conceição revela que reforçou a segurança de suas portas e janelas com grades, principalmente após ter sua casa invadida por um ladrão há oito anos. Sem passar por apuros recentes, revela que a vizinha teve o carro tomado por bandidos na porta de casa e lamenta: “Cada dia piora. Todo dia morre um por nada, por causa de um celular, de um objeto”.

Números
Crimes Violentos contra o Patrimônio

(CVP's) (+40,6%):
2019*: 800

2020*: 1.125

Roubos (+48,4%):
2019*: 668

2020*: 991

Furtos (1,5%):
2019*: 132

2020*: 134

*Números entre 1º de janeiro e 12 de fevereiro em cada ano

Número de CVLI's (Crimes Violentos Letais Intencionais): (+2,65)
2019: 38

2020: 39



Fonte: Sesed











Deixe seu comentário!

Comentários