Natal tem a mais alta taxa de letalidade por covid-19

Publicação: 2021-03-30 00:00:00
Felipe Salustino
Repórter

Natal possui a mais alta taxa de letalidade pela Covid-19 em quatro cenários analisados por especialistas do Departamento de Infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DNIF/UFRN) com base nos dados estatísticos para a doença publicados até o dia 26 deste mês. A análise está dividida em 4 categorias: Natal, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Norte sem Natal e Brasil. Natal possui a taxa de letalidade mais alta (2,97), superior inclusive à nacional, entre os cenários analisados. A letalidade é medida a partir do comparativo do número de mortes e a quantidade de pessoas infectadas em uma determinada área.  

Créditos: Adriano AbreuQuase duas mil pessoas já morreram pela covid-19 ao longo de um ano somente na capital do RNQuase duas mil pessoas já morreram pela covid-19 ao longo de um ano somente na capital do RN

Conforme o infectologista e professor do DNIF, Ion Mascarenhas de Andrade, o Brasil possui taxa de letalidade 2,42 e o Rio Grande do Norte, 2,1. Sem a capital potiguar, a letalidade no Estado cairia para 1,82, de acordo com a análise feita pelo professor. Outro dado que chama atenção na pesquisa, é o número de casos por milhão de habitantes. Natal tem 56.138 casos por milhão. O Brasil possui 52.462 casos por milhão e o Rio Grande do Norte, 50.903. Sem Natal, o número cairia para 49.036 no Estado. Esse dado é calculado a partir da quantidade de casos registrados na região analisada, dividida por sua população total e multiplicada por 1 milhão.

O número de óbitos por milhão, que segue a mesma regra dos dados sobre o número de casos, também coloca Natal à frente de todas as categorias estudadas. A capital possui 1.669 óbitos por milhão, enquanto o Brasil tem 1.268 e o Rio Grande do Norte, 1.085 óbitos por milhão, segundo a análise feita pelo infectologista Ion Mascarenhas. Sem Natal, o RN teria 896 óbitos por milhão de habitantes. 

Os dados, segundo o especialista, demonstram que não é possível atestar a eficácia do tratamento precoce, já que os números não refletem os efeitos positivos que o uso das drogas (o combinado de ivermectina, azitromicina e  hidroxicloroquina) utilizadas para tal, surtiria.

“Em algum grau, dado o tempo de aplicação do dito “tratamento precoce”, nós consideraríamos registrar alterações no cenário epidemiológico compatíveis com a eficácia dessa terapêutica. É importante lembrar que essa terapia não começou agora. Portanto, ela já deveria estar produzindo efeitos que pudessem ser medidos pelos números da epidemiologia. Não é o que os dados da pandemia no Rio Grande do Norte apontam”, explicou Ion Mascarenhas de Andrade.

Nesta segunda-feira (29), ele e outros pesquisadores reuniram a imprensa para expor dados relativos à pandemia da Covid-19 no Estado. Durante o encontro,  Ion Mascarenhas de Andrade, apresentou números de uma análise elaborada por ele sobre a Covid-19 no Rio Grande do Norte levando em consideração o uso do chamado “tratamento precoce”, defendido pelo prefeito de Natal, Álvaro Dias.

“Inclusive, os números da capital são mais preocupantes do que os índices do restante do Estado. Não dá para dizer se são os medicamentos usados para tratamento precoce que estão provocando o aumento desses números. Mas o que eu quero afirmar é que, quando se utiliza uma terapêutica que funciona, esse fator deve ecoar na epidemiologia como uma melhora do contexto geral”, declarou Ion de Andrade.

Tratamento com kit covid é criticado
O médico infectologista e professor da UFRN, Henio Lacerda, apresentou as recomendações de Sociedades e Comitês Científicos dos Estados Unidos, União Europeia e também do Brasil, que não indicam o uso da hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina para tratar a infecção provocada pelo coronavírus.
Henio Lacerda citou o último Manual de Manejo Clínico, da Organização Mundial de Saúde (OMS), além de pesquisas disponíveis no National Institute Health (NIH), dos EUA e no European Centre For Disease Prevention and Control (ECDC), da União Europeia.

 “O último Manual de Manejo Clínico da OMS diz que os pacientes que estão em casa, no começo da doença, só precisam se tratar com medicamento sintomático, como dipirona, chá de limão e medicamento antitussígeno. O NIH, que é quem define as diretrizes de orientação para todas as doenças nos EUA, afirma que não existem dados suficientes para recomendar qualquer terapia específica contra a covid-19, do ponto de vista de combate a anticorpos. Se a pessoa está com um quadro leve da doença, a recomendação é apenas analgésico e antitérmico para reduzir os incômodos dos sintomas, como dor de cabeça, febre e tosse. O NIH não recomenda corticóide antes que o paciente precise de suporte de oxigênio no hospital”, listou o infectologista para corroborar a tese de que o tratamento precoce não é cientificamente eficaz.

Ainda segundo ele, em sua última recomendação, o ECDC diz que não encontrou significância estatística entre as pessoas que usaram e não usaram hidroxicloroquina. O especialista destacou que no Brasil também há posicionamentos contrários ao tratamento, em razão da ausência de eficácia atestada cientificamente. Ele cita aí a Sociedade Brasileira de Infectologia, o próprio DNIF, e a Associação Médica Brasileira, “que lançou nota no último dia 23, alegando que o tratamento precoce dever ser banido”.

O infectologista Kleber Luz destacou que para que seja confirmada a eficácia de um medicamento, é fundamental a aplicação do método científico, assim como respostas positivas a ele. “É preciso ter o rigor científico, que acontece quando a Ciência responde às perguntas que nós estamos fazendo. Para cada pergunta, existe um método científico. O kit covid precisa se mostrar eficaz. Isso tem que ser demonstrado com impacto efetivo na condição da doença”, explicou.

O professor Henio Lacerda afirmou, ao comentar as recomendações sobre o uso do tratamento precoce contra covid que, no Brasil, existe uma falta de consenso sobre o modo de atuar frente à essa questão. “Na Europa e nos EUA já existe consenso sobre as recomendações. Aqui no Brasil e em algumas partes do mundo e que não são utilizadas como referências para nós, é que essas recomendações destoam. E, coincidentemente ou não, nós somos um dos poucos países que está com a pandemia fora de controle”, sublinhou.