Natal, uma cidade sedentária

Publicação: 2010-09-03 00:00:00 | Comentários: 0
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O Rio Grande do Norte detém um recorde preocupante: tem a capital  mais sedentária do País, segundo a ONG Corações Brasil.

  Esse indicador tem tudo a ver com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que coloca a capital potiguar em 10º lugar no rancking da qualidade de vida no Nordeste,   atrás de Belém, Salvador, Recife e Aracaju.

  Mossoró, a segunda maior cidade do Estado, ocupa o 2.307º lugar no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, segundo estudo  elaborado em parceria com o Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA). Esse e outros temas serão discutidos durante seminário que será realizado pela UFRN, através da Pró-reitoria de Extensão Universitária, em parceria com a TV Universitária e jornal TRIBUNA DO NORTE, nos dias 14 e 15 deste mês. No dia 20 haverá debate com os candidatos a governador.

  Para o professor do Departamento de Educação Física da UFRN,  João Roberto Liparotti, é fácil explicar esses indicadores. Evidências não faltam.  Uma delas   está no fato do RN figurar entre as poucas unidades da Federação onde não existem quadras em grande parte das escolas públicas.

  “A maioria dessas escolas não tem quadras e quando tem  não são cobertas como se recomenda para proteger as crianças e adolescentes dos efeitos nocivos do sol”, completa o professor.

   Olhando para esse cenário fica também fácil explicar o modelo perverso seguido no Estado quando o assunto é esporte e lazer.   Os estímulos às atividades esportivas, no que caberia às autoridades, praticamente não existem. Não há equipamentos públicos ou um centro de treinamento que incremente a formação de atletas olímpicos no estado.

  Os atletas que conseguem resultados em competições nacionais chegam lá por uma insana força de vontade. Seja nas quadras ou nas piscinas, a falta dessa estrutura mínima é mais do que flagrante – é escandalosa.

  Laparoptti fornece algumas explicações. Elas começam no Ensino Fundamental, quando o estímulo à Educação Física se reflete em sua carga horária – apenas uma aula por semana, quando no mundo todo a obrigatoriedade varia de três a cinco aulas semanais.

  Nas ruas, outro exemplo do descaso, é a falta de calçadas para as pessoas caminharem. “A cultura do carro, associada a um transporte coletivo deficiente, inibe as pessoas ao habito da caminhada”.   Resultado: Natal é tida como a capital campeã em sedentarismo.

 Exemplos edificantes de superação vieram dos para- atletas olímpicos, rendendo ao RN várias medalhas no Mundial de Natação da Holanda deste ano e nas Olimpíadas de Pequim de 2008.

 São pessoas que para superarem suas limitações motoras enfrentam diariamente imensas dificuldades.

   As centenas de abnegados que praticam o ciclismo todas as manhãs e noites pela Rota do Sol, onde o número maior de faixas e a existência de acostamento e iluminação  funcionam como um convite, não tem o mesmo ambiente no resto das vias da cidade.

 “Inclua-se aí a Via Costeira, onde a ciclovia que está sendo construída, além de estar no lado errado, não oferece condição alguma para a atividade”,  diz Laparotti. 

Bate-papo

João Roberto Liparotti  » professor do Departamento de Educação Física da UFRN

Por que o esporte é tão pouco estimulado no Estado?

Há vários motivos. Um deles é que quem estuda para atuar gestão desse processo não está gerindo. A exceção a essa regra é Magnólia Figueiredo, que foi atleta, profissional de educação física e exerceu função de secretária. E detém o título de recordista sul-americana em provas de meio fundo. Que eu saiba, dos últimos 15 anos que estou na Universidade, Magnólia foi um caso único. Ela tinha grandes projetos, mas não teve apoio financeiro para executá-los.

Onde estão nossas forças e nossas fraquezas na questão do incremento ao esporte?

Na área de esportes, realmente, temos muitas dificuldades na questão do patrocínio. Temos, creio eu, boa formação em atletismo – especialmente nos esportes de pista e judô. Nos páraolímpicos, por sermos um dos estados do Brasil com grande número de  deficientes físicos, temos exemplos edificantes de superação. São pessoas fantásticas que deram a volta para cima.

E a estrutura para tanta boa vontade existe?

O ABC tem planos para construir um CT, mas é particular. No América e no Alecrim não há nenhuma estrutura desse tipo, apesar do CT do América existir somente para o futebol profissional. Agora, na parte pública, é uma tragédia. O ginásio dos esportes do Machadinho está caindo aos pedaços, condenado. O Machadão, há 20 anos, teve sua estrutura condenada e precisou sofrer uma interversão recente. O CIC, na Cidade da Esperança, onde há uma das melhores pistas de atletismo, está jogado às traças. A Magnólia (Figueiredo) tentou recuperar e não conseguiu por falta de dinheiro. Pra variar, só ficou o projeto.

Quais são as consequências disso para o Estado?

A maior tragédia é que estamos entre os únicos estados do Brasil a não ter quadra de esportes para cada escola. Uma escola com 200 alunos já precisaria de uma quadra de esportes. Nós temos várias escolas – com mais de 500 crianças – sem uma quadra nem descoberta.  A cobertura é uma necessidade no Rio Grande do Norte por causa da alta incidência dos raios ultravioleta. E nós já temos várias cidades no Nordeste do Brasil que têm quadras cobertas em todas as suas escolas. Isso aqui só se encontra em escolas particulares. Mas as públicas...

E em relação às quadras e praças?

Bem, esta é uma questão que afeta mais a quem se dedica especificamente a lazer. Mas eu diria que essa situação também se reflete fortemente nos equipamentos públicos. Quantas praças aqui têm quadras? Muito poucas, quase nenhuma. O próprio volei de praia tem que criar os seus espaços. A discussão do público é mal resolvida; há uma gana por cercar e invadir espaços que deveriam ser de todos.

Olhando sob esse prisma, a cidade do Natal é convidativa para que as pessoas se exercitem?

Não mesmo. Um dos indicadores do desenvolvimento humano é a calçada. Por aí se consegue saber se a prioridade é o ser humano ou o automóvel. Aqui não existe nem a calçada. Na própria Universidade é assim. Isso tira a motivação das pessoas à pratica da caminhada ou da corrida. A própria Avenida Engenheiro Roberto Freire é um bom exemplo. Bastou que se fizesse um calçadão de dois metros de largura para ver pessoas caminhando ali das 5 da manhã até meia noite. Porque é iluminada, tem alguma segurança, apesar da desvantagem das pessoas respirarem descarga dos carros. Já o calçadão da praia de Ponta Negra, por ser mais insegura e mal iluminada, já recebe uma freqüência bem menor. Lá não tem gás carbônico, mas é insegura à noite. Já a ciclovia que está sendo construída na Via Costeira é mínima, além de estar no lado errado.

Em que medida os equipamentos urbanos interferem na qualidade de vida?

O segundo ponto de avaliação do desenvolvimento humano, depois da calçada, é a bicicleta e outros equipamentos para a atividade física. Muita gente em Natal deixa o carro num posto de gasolina na Rota do Sol e segue de bicicleta todos os dias. Porque ali há uma fiscalização estadual, iluminação e condições melhores.  Isso, porque a regra são rodovias sem acostamento, especialmente as estaduais. A Rota do Sol tem duas pistas de ida e duas vinda e mais o acostamento, dando segurança ao ciclista. Isso, apesar de não estar desenhado no percurso  (ciclofaixa, que é uma obrigação), funciona como um poderoso estímulo. Porque as pessoas querem, desejam poder se exercitar.

Quais as outras consquências da falta de uma política para o esporte e lazer?

Natal é a cidade mais sedentária do País, segundo indicadores do Ministério da Saúde, com ênfase para as mulheres. Temos um grau de obesidade acima da nacional em virtude de questões nutricionais e do próprio sedentarismo. Infelizmente, somos a mais sedentárias das capitais brasileiras, segundo a ONG Corações Brasil em sua pesquisa anual. A frota de carros, grande para o tamanho da população e isso se explica pela deficiência no transporte público. Tudo isso interage com a situação.

A que o o senhor atribui tudo isso?

A uma miopia dos poderes públicos. Precisa ter profissional de Educação Física no posto de saúde, na escola pública. Recentemente, a Prefeitura de Natal diminuiu de duas vezes por semana para uma vez a obrigatoriedade da disciplina de Educação Física nas escolas. Isso, quando o mundo está passando de três para cinco aulas. Somos o pior exemplo do mundo nesse aspecto. É um direito que está no estatuto da Criança e do Adolescente ter acesso a uma vida saudável cedo, seja para competição ou por simples recreação.

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