Natalense em Wuhan, na China, conta como é viver no epicentro do coronavírus

Publicação: 2020-01-29 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Morador da cidade de Wuhan, epicentro do contágio de coronavírus, na China, o natalense Rodrigo Duarte afirma que a presença de familiares e amigos e as medidas de curto prazo do governo chinês para conter a epidemia mantém os brasileiros de Wuhan calmos e confiantes de que a situação vai ser controlada. À reportagem, Rodrigo, professor de judô de 28 anos e há quatro anos na China, contou como foi viver os últimos dias na cidade desde que o coronavírus se tornou epidêmico. Para ele, os 11 milhões de habitantes de Wuhan “estão assustados, mas lutando.”

Créditos: Arquivo PessoalRodrigo Duarte vive em Wuhan desde 2016 e se diz tranquilo devido às medidas internas adotadasRodrigo Duarte vive em Wuhan desde 2016 e se diz tranquilo devido às medidas internas adotadas
Rodrigo Duarte vive em Wuhan desde 2016 e se diz tranquilo devido às medidas internas adotadas

Rodrigo tem 28 anos e faz parte de uma comunidade de 58 brasileiros moradores de Wuhan. Ele se mudou para a cidade em 2016 para abrir uma academia de judô. Os brasileiros se comunicam através de um grupo no WeChat, um aplicativo de mensagens semelhante ao WhatsApp, para discutir como se preparar durante a quarentena em curto e longo prazo e como o governo brasileiro pode ajudá-los.

Nesta terça-feira (28), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não pretende retirar os brasileiros da cidade para não colocar em risco o restante do País. Em nota oficial, o Itamaraty reiterou a posição, afirmando que “o governo chinês tem mantido comunicação constante com os representantes diplomáticos e consulares e, até o momento, não considera organizar a retirada de estrangeiros das áreas já em situação de isolamento”. Entretanto, países como a Rússia, Estados Unidos, Japão e França demonstraram a intenção de retirar seus cidadãos da cidade.

Parte dos brasileiros conseguiu sair antes da quarentena ser anunciada na cidade. Entre eles, está a estudante de 22 anos internada em Minas Gerais, suspeita de ter contraído o vírus na China. Ela apresenta sintomas compatíveis com os da doença e chegou ao Brasil no dia 24. Permanecem na cidade 31 brasileiros, sendo 4 crianças. Todos estão bem.

Na academia onde é sócio e professor, Rodrigo dá aulas para 70 adultos e 40 crianças. As aulas estão suspensas desde o dia 18, dois dias antes de Wuhan entrar em quarentena, por decisão dele e dos sócios. O plano inicial era retomar as aulas após as festas do Ano Novo chinês, que aconteceu no dia 25 de janeiro, mas o quadro se agravou e, agora, eles esperam as autoridades se pronunciarem. Não havia notícias de alunos dele com suspeita de coronavírus até essa terça-feira (28).

O coronavírus matou ao menos 106 pessoas, todas na China, e contaminou mais de 4.500. A doença já foi detectada em outros países da Ásia, nos Estados Unidos e na Europa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o risco internacional de contaminação como “elevado”.

Primeiras notícias
A primeira notícia que Rodrigo recebeu foi pela rede social Weibo (espécie de Facebook chinês) no dia 31 de dezembro. A rotina de trabalho dele permaneceu a mesma até o dia 18, quando ele e os sócios decidiram paralisar as aulas de judô diante do aumento de casos. “Não parecia grave ou alarmante. As coisas só ficaram alarmantes para mim por volta do dia 20 e um dia depois, quando fecharam a cidade. Foi quando os hospitais começaram a ficar lotados e em seguida falaram em quarentena.”

“Cidade fantasma”
Wuhan é uma cidade da China com 11 milhões de habitantes. O número equivale praticamente a população de São Paulo, maior metrópole do Brasil. Além disso, possui mais de 80 universidades públicas e forte fluxo de pessoas, por ser localizada na região central do país. Entretanto, desde que entrou em quarentena, no último dia 20, Wuhan virou uma cidade deserta.

O governo bloqueou todas as entradas e saídas da cidade, além do transporte de trens, ônibus e avião. O uso de carros particulares estão restritos. Escolas e empresas estão fechados. Os únicos serviços que permanecem funcionando na cidade são os hospitais, polícia e supermercados. “Parece cidade fantasma. Moro em condomínio, mas todos estão com medo. Não vejo ninguém, só quando vou ao supermercado.”

Prevenção
Para evitar uma propagação ainda maior vírus entre os isolados, o governo chinês exige o uso de máscaras e luvas descartáveis e faz a medição de temperatura dos cidadãos, como na entrada dos supermercados . As máscaras e as luvas precisam ser descartadas antes dos moradores entrarem em casa, caso tenham saído. O governo também recomenda que as pessoas se lavem com álcool e estendam as roupas utilizadas em local arejado. “Tem um supermercado próximo a minha casa e eu comprei comida pra um mês, mas ele permanece aberto com pessoas verificando a sua temperatura antes de você entrar”, relata o potiguar.

Rotina e busca do conforto
Sem poder sair para trabalhar, Rodrigo e os outros brasileiros permanecem em casa e só saem em casos de urgência, como idas ao supermercado. Para passar o tempo, o potiguar assiste filmes e começou a jogar um jogo de sobrevivência em um apocalipse zumbi, ironicamente. Costuma se comunicar todos os dias com a família.

“A rotina em casa com amigos ou família nos ajuda a segurar [a situação]. Nenhum brasileiro [em Wuhan] ficou doente até onde sabemos. Isso nos deixa tranquilos também. Existe a possibilidade de receber tratamento caso necessário. As soluções em curto prazo nos deixam mais calmos.”

Ações contra o vírus
Depois de declarar quarentena na cidade, o governo chinês começou a construção de dois hospitais na cidade para atender os pacientes afetados com o coronavírus. O primeiro vai ficar pronto no dia 1º de fevereiro e foi projetado para ser construído em 6 dias.

A cidade de Wuhan entrou em colapso médico após a epidemia, mas recebeu reforço de médicos do Exército Chinês e de outras cidades. Equipamentos de proteção, como máscaras e luvas, também chegaram a faltar, mas a cidade recebeu doações e ajuda da população.

“O povo de Wuhan é forte. Está assustado, mas lutando. Foram feitas ações corretas e responsáveis como isolamento da cidade e dos cidadãos, que entendem a situação e trabalham em conjunto.”

Alimentação
Ao contrário do estereótipo do chinês no Brasil, Rodrigo conta que nunca viu à venda a “sopa de morcego”, suspeita de ser a transmissora do coronavírus para o humano. “Nunca ouvi falar, só quando começaram a dizer que foi ela. O mercado onde aconteceu também é um mercado pequeno, para o porte de Wuhan. O estranho é que a população de Wuhan não costuma consumir animais silvestres. São poucos”, conta.

Frases
“A rotina em casa com amigos ou família nos ajuda a segurar [a situação]. Nenhum brasileiro [em Wuhan] ficou doente até onde sabemos. Isso nos deixa tranquilos também. Existe a possibilidade de receber tratamento caso necessário. As soluções em curto prazo nos deixam mais calmos.”

“O povo de Wuhan é forte. Está assustado, mas lutando. Foram feitas ações corretas e responsáveis como isolamento da cidade e dos cidadãos, que entendem a situação e trabalham em conjunto.”










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